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Nome: Newton Bruno do Nascimento
Escola: Escola Municipal Yayá Paiva
Cidade: Nísia Floresta - RN
Categoria : Ensino Médio
Classificação : 2º lugar

ITINERÁRIO DE UMA VIAGEM AO BRASIL

Você já imaginou se o espírito de Nísia Floresta resolvesse fazer um "tour" pelo Brasil? Tenha certeza que essa genial mulher viveria uma experiência singular. Seria um misto de surpresa, admiração, felicidade, tristeza e indignação.

Suponhamos que ela inicie o seu itinerário diferente do que realmente fez quando viveu por estas plagas. Vamos começar pelo Rio de Janeiro, local onde se instalou em 1837, fundando no ano seguinte o seu polêmico Colégio Augusto, dirigido a educação das meninas.

Logicamente ela não gostaria de algumas coisas que dispensam comentários, mas se encantaria ao encontrar a ex-província imperial agora como estado integrante de um país republicano., o qual ela tanto almejou.

Pense em seu ar de felicidade quando a visitante fosse se dando conta das muitas mulheres majores, deputadas, governadoras, reitoras, prefeitas, senadoras, astrônomas, advogadas, desembargadoras, enfim fosse constatando a dimensão da emancipação das mulheres.

Sobre essa conquista, se recordaria do que escreveu em 1832, em seu primeiro livro, o Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens: "Eu julgo ter suficientemente demonstrado que injustamente os homens nos acusam de não ter aquela solidez de raciocínio, que atribuem a si com tanta confiança; nós temos o mesmo direito que eles, aos empregos públicos: a natureza nos deu um gênio como a eles, tão capaz de preencher e nossos corações são tão susceptíveis de virtudes, como nossas cabeças o são de aprender as ciências: nós temos espírito, força e coragem para defender um país e bastante prudência para governá-lo" (p.93; 4 ed. 1989).

Imagine a repercussão dessa e de outras colocações feitas nesse mesmo livro.

Analisando-as sob a cultura da época, na qual a mulher era pouco diferente de um bichinho de estimação do homem -, um ser de pouca inteligência -, um objeto, como soaram afrontosas e provocativas as palavras daquela desconhecida.

"Quem é essa mulher diabólica e destruidora da moral e dos bons princípios"?

Teriam perguntado muitos homens - e, com certeza até mulheres, afinal, antes de Nísia Floresta ninguém havia balançado as estruturas do machismo reinante.

Mentalize, agora, este cenário: mulheres e homens da raça negra desfilando de executivos, políticos, intelectuais, doutores; dirigindo carros de luxo, ou mesmo um simples taxista, também negro, mas não mais sob o regime humilhante da escravidão.

Nísia Floresta evocaria certamente estas palavras, as quais estão impressas em seu livro Três Anos na Itália Seguidos de Uma Viagem a Grécia: "Senhores do Brasil, esse solo abençoado em que respirais, mostrai-vos dignos dele, fazendo desaparecer do meio de vós a maior vergonha dos povos cristãos! Vergonha que macula ainda os vossos altivos vizinhos do Norte, apesar dos admiráveis progressos do seu gênio empreendedor e dinâmico. Cessai uma horrível profanação da natureza humana: ela deve ter, cedo ou tarde, como resultado, terríveis represálias".

São muitas as referências anti-escravagistas deixadas por essa abolicionista pouco conhecida, a qual, por discriminação do sexo dominante, deixou de ser incluída na seara dos grandes abolicionistas brasileiros. A história, por sua vez, parece ter endossado tal alheamento, pois dificilmente se encontram livros que falem sobre ela.

Vamos descortinar nesse momento uma universidade: a augusta brasileira passeia pelo campus e adentra em todos os ambientes da instituição. Seus olhos parecem não querer fechar. Ela vê professoras, brancas e negras, graduadas, mestras, doutoras e pós-doutoras. Fica encantada com a sabedoria com que transmitem conhecimentos aos alunos. Nísia Floresta parece não querer acreditar.

Viria aos poucos a lembrança de um trecho do Opúsculo Humanitário, de 1853:

"Um dia raiará mais propício para nós; em que os escolhidos da nação brasileira se dignem de achar a educação da mulher um objeto importante para dele se ocuparem, com a circunspeção que merece" (cap. XXXV). E ainda: "Quanto mais ignorante é um povo, mais fácil é um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder".
(cap.XXVI).

A pioneira, muito sensata, já naquela época dizia que a mulher que tivesse acesso à educação seria capaz de conduzir qualquer cargo com diligência, inteligência superior, competência e, sobretudo, com mais humanismo.

A ilustre visitante está nessa hora numa maternidade, concentrada no diálogo entre uma médica e uma parturiente. O assunto é sobre amamentação. São dezenas de leitos, nos quais as mães, trazendo os bebês junto aos seios, oferta-lhes o precioso líquido, atentas às orientações da doutora.

É a vez de lhe aflorar ao pensamento o que documentou em seu livro Cintilações de Uma Alma Brasileira, precisamente no ensaio A Mulher: "á mães sem coração, que abandonais os mais sagrados deveres da natureza, destacando de vosso seio os próprios filhos, esta parte de vossa alma, para mandá-los sugar um leite estranho em alguma longínqua aldeia, onde não dais o ar da vossa presença".

Nísia fez esse registro, revoltada quando visitou uma aldeia nos arredores de Paris, onde as mães mandavam de lá os filhos, inclusive bebês, para serem cuidados por aldeãs sem higiene e irresponsáveis, em sua grande maioria. Eram amas-de-leite e pajens, as quais deixavam as crianças em estado deplorável. Algumas até morriam.

Houve o caso de uma que foi comida por um porco, conforme relataram a Nísia Floresta.

A indignação da brasileira era porque as mães biológicas, desnaturadas, incorriam a tal atentado simplesmente para não se privarem do conforto da cidade e não ficarem com o corpo deformado, como pensavam. Elas certamente viam os filhos como estorvos. Nísia Floresta, que defendia a amamentação como sendo a maior prova de amor da mãe para o filho, bem como o meio primário de transmissão de saúde, sentiu nojo de tal cena. Muito antes, no Brasil, escreveu sua desaprovação ao ver as senhoras brancas, bem ao estilo destas francesas, darem seus bebês para serem amamentados por escravas.

A insigne potiguar, bem ao modo do seu livro Viagem Magnética, se transportaria para o Rio Grande do Norte. Sua idéia inicial é ver uma aldeia indígena, pois sempre se preocupou com os índios, inclusive admirava o instinto maternal das índias e a ausência de adultério entre os mesmos. Ademais, pediu a demarcação de suas terras. Vejamos como a indianista, quase ignorada, estava a frente do seu tempo.

Era o momento propício da autora de A Lágrima de Um Caeté lembrar-se dessa parte: "Indígenas do Brasil, o que sais? Selvagens? Os seus bens já não gozais...

Civilizados? Não... vossos tiranos cuidosos vos conservam bem distantes dessas armas com que ferido tem-vos. De sua ilustração pobres caboclos! Nenhum grau possuis! ... Perdeste tudo, exceto de covarde o nome infame..."

Enquanto essas palavras divagavam em seu pensamento ia constatando, perplexa, a ausência de aldeias, índios e matas. Logo estaria em Papari e viria a cena se repetir, confirmando o que parece ter previsto, em 1849, quando publicou o referido livro, apresentando um índio triste e derrotado pelo homem branco. De repente nota que a cidade tem o seu nome; surgem várias interrogações em sua cabeça. Ela inicia um passeio, vê seu túmulo quase abandonado e imediatamente vai entendendo tudo. Bastante excitada, recorre à única biblioteca de Nísia Floresta e constata a inexistência de livros escritos por ela e sobre ela.

Subitamente resolve visitar as casas das pessoas; quer saber o que falam dela. Tamanha é a surpresa, pois houve predominantemente informações desencontradas e preconceituosas. Deslocando-se dali, opta por visitar a mais antiga escola da cidade e descobre que tem o seu nome. O que ouve não é diferente.

Apressada, vai até a maior escola de nível médio da cidade, na qual lecionam professores com nível superior e permanece ali por vários dias, ouvindo o diálogo da comunidade escolar.

A visitante estranha, pois descobre que raros professores e alunos conhecem a sua história e tampouco seus livros, resumindo sua história a breves pinceladas. A maioria não sabe nada e um grande número a detrata, criando fatos irreais sobre sua vida. Ela se decepciona e fica sem entender a razão daquilo, depois de tantos anos passados.

Mas como Nísia Floresta sempre foi uma mulher forte e de espírito superior, que não se detinha a coisas menores, sacode a poeira, ou melhor, o mofo, e sai a procura de mais novidades. Que pena! Antes tivesse ficado no túmulo, pois a imagem é essa: jovens e pais de família, desdentados, alcoólatras, desempregados; alto índice de analfabetos; mães solteiras adolescentes morando em casas de pau-a-pique, em situação deplorável. Vê a velha Papari com sua arquitetura descaracterizada, ruas acanhadas e com o mínimo de desenvolvimento. A filha ilustre, NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, ou DIONÍSIA GONÇALVES PINTO LISBOA, tanto faz, é uma ilustre desconhecida.

A intelectual escreveu 14 livros, os quais revelam uma progressista que almejava mudanças em seu país, elevando o seu povo a um patamar de dignidade, igualdade e cidadania. Morou boa parte da sua vida na Europa. Sua obra foi escrita em francês, inglês e italiano. Morreu em Rouen, na França, aos 24 de abril de 1885, aos 75 anos.

Nísia Floresta caminha, agora, pela praça da cidade, reflexiva, e num dado momento ouve um desconhecido dizer: "- Quisera esta cidade ver nascer nos dias de hoje pelo menos uma mulher, ou homem, com a mesma estirpe de Nísia Floresta!" Após estas palavras, que soaram como um bálsamo, Nísia Floresta resolve encerrar o seu itinerário.