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Nome: Estevão Luis Bertoni Araújo e Silva
Escola: Nacional Sistema de Ensino
Cidade: Uberlândia - MG
Categoria : Ensino Médio
Classificação : 1º lugar

Quem tem medo de Nísia Floresta?

Ela nasceu forte, como quem não tem medo, numa época em que ainda havia escravos e escravas, em todos os sentidos. Nasceu em 1810, potiguar e brasileira, talvez mais brasileira que qualquer outra, numa cidade chamada Papari. Nasceu e tão logo cresceu um pouco, foi subitamente casada com alguém aos 13 anos de idade, contra sua vontade e sem nenhuma experiência aparente para ajudar na digestão de acontecimentos tão extraordinários. Contam que foi assim: ela deixou o marido encomendado e ainda tão nova, passou a questionar esta condição de mulher-equipamento, mulher-propriedade, mulher-quase-mulher, pensamento tão comum em sua época. Era tudo demais para sua percepção mais que aguçada. Contam que foi mesmo assim, em carne viva, que Dionísia Gonçalves Pinto viveu suas primeiras dores e mais todos os outros partos que foi tendo ao longo da vida, tendo Nísia Floresta Brasileira Augusta como segunda pele. Havia uma escritora nascendo ali, não se sabe bem ao certo quando, mas ali, entre aquele descasamento pouco orto
doxo vivido aos 13 e a sua vida até os dezoito anos, quando perdeu tragicamente o pai e ganhou um novo parceiro amoroso, num casamento sem casamento, agora por sua própria vontade e risco, sob o olhar duro e frio de uma sociedade arcaica. Talvez seus olhos vissem bem mais do que o comum, talvez ela fosse uma brava guerreira contra as pessoas de sua tribo, mas de perseguição em perseguição sofridas por ela, sobraram críticas, faltaram abraços e uma literatura rara e decidida foi sendo construída. Dizem que tombos fortalecem os mais fortes e animam almas em crises - condição fundamental para qualquer vencedor - e assim, Nísia Floresta nasceu de novo, ressurgida entre letras e preocupações com o seu entorno e aos 21 anos, começou a ser publicada.

Ela escreveu, escreveu, escreveu - sobre mulheres, educação, índios, escravos, diferenças sociais. Ela escreveu como quem briga, levantando sua voz em tribunas e jornais, falando em nome do que acreditava, com seu livro sobre direitos e injustiças. E o que ficou foi um tributo às mulheres, primeiro grito dela para elas. Ou com elas, sabe-se lá.

Ela escreveu como quem ama, tão apaixonadamente fluida, líquida de vírgulas e bebível, como um grande gole de água pura, saciando a sede dos injustiçados. Apaixonada pelas suas causas, em conselhos à filha, hora falando de donzelas, hora de jovens completas ou em discursos às suas educandas. Ela escreveu pensamentos e Pensamentos, em forma de poesia, com poemas delicados e reveladores - como quem conhece a vida. E de causa em causa, escreveu sobre índios, mais poesia e mais dores reveladas - como quem conhece a exclusão. E o que ficou foi uma literatura embebida numa sinceridade profunda, destoante e solitária. Solitária voz aguda em meio a tantos másculos graves. Uma voz feminina se fazia ouvir e Nísia Floresta ganhou o mundo - era uma vez uma borboleta que saiu do casulo e voou até a Europa.

Ela escreveu como quem morre e revive, alma de fênix, alma brasileira à frente de seu tempo. Textos, romances, ensaios... como se fossem os últimos, sempre, só que agora quase estrangeira, escrevendo como quem tem para onde voltar.

Ela escreveu como quem voa. Foi apressada, com suas asas de papel branco, nuvens de pensamentos que se concretizam ao sopro de vida escrita. Seu texto é definitivo nas carnes, nas linhas, nas notícias que levou para tão longe e nunca, longe esteve tão perto, em cartas e cartas escritas ao som da saudade. Paris, Londres, Florença, Frankfurt, Bruxelas... Narrativas de viagem, memórias gravadas em paisagens européias e uma Nísia que encheu os pulmões com o ar de outras terras - uma alma brasileira, cintilando agora, à frente de seu mundo.

E quem mais sabia dela, se não ela que habitou tantas coisas? Sua solidão singela combinou com suas mortes, amores e vôos. Nísia Floresta morreu na França, aos 75 anos, de pneumonia, e foi enterrada lá mesmo, sem a glória que é dada aos grandes e sem o reconhecimento do seu país de origem. Tantos livros, tantos feitos, uma vida de luta em prol de minorias e amordaçados. Por que ela esteve tão esquecida, por tantos anos? Quem teve medo de Nísia Floresta? A sua história e obra, de rara importância, por quase um século não tiveram nenhuma divulgação, fazendo com que sua vida e livros ficassem no anonimato, esquecidos e sem o merecido valor. Somente 70 anos depois de sua morte, Nísia Floresta voltou ao Brasil para descansar em paz na sua cidade natal - seus despojos foram colocados em um túmulo no sítio Floresta, onde a escritora nasceu.

Ela escreveu sobre nós, sobre todos, sobre a incrível mudança que é possível se fazer no mundo só com uma pena sobre um papel. E este legado foi o seu maior tesouro para as futuras gerações que tiveram e ainda terão Nísia Floresta para ler e pensar.

É mesmo solitária a alma que escreve, mas a sua obra jamais será.