Monteiro Lobato na Revista do Brasil
Monteiro Lobato na
Revista do Brasil

        Monteiro Lobato vivia permanentemente preocupado com revelar um Brasil desconhecido a que os intelectuais brasileiros davam as costas. Essa preocupação aliada à necessidade compulsiva de se comunicar - comunicar-se com o próximo, comunicar-se com o mundo - levaram-no ao jornalismo. Seu espírito empreendedor e a necessidade de liberdade absoluta para se expressar transformou o jornalista no empresário editor que revolucionou o mercado de livros no Brasil.

"O escritor confundia-se com o jornalista, o homem de imprensa virava publicista e ambos lançavam mão dos meios de comunicação da época - o livro, jornal e a revista - para tentar despertar a consciência social e criar novos padrões de comportamento coletivo".

Seus primeiros artigos na grande imprensa saíram na Tribuna de Santos, em 1909 e no Correio Paulistano. A partir de 1913 já integrava a equipe do O Estado de São Paulo e, em 1916, torna-se colaborador assíduo da Revista do Brasil e escreve para outras publicações importantes como Vida Moderna, O Queixoso, Parafuso, A Cigarra e o Pirralho.

Seu estilo, simples e direto, repleto de ironia, cativava os leitores. Era um polemista contumaz. Instigava os leitores a participar de suas discussões. Em janeiro de 1917 o jornal O Estado de São Paulo anuncia que no suplemento Estadinho se inaugura um inquérito (pesquisa) sobre o Saci, personagem símbolo da mitologia cabocla. É Lobato que quer saber os conceitos de cada leitor sobre o saci, onde aprendeu, qual a forma atual da crendice, casos vividos ou ouvidos.

Compilado em livro foi também sua primeira experiência como editor: O Sacy-Perêrê: Resultado de um inquerito.O sucesso anima Lobato a lançar Urupês que repete o sucesso com quatro edições sucessivas.

A Revista do Brasil, dedicada a resgatar os valores da cultura nacional e discutir os principais problemas do País, era um espelho do pensamento de Lobato. Em 1918 ele compra a revista. Assume uma empresa deficitária, desenvolve uma estratégia de marketing, multiplica a venda de assinaturas e consegue publicidade para mantê-la viva.

A sede da revista, na rua Boa Vista esquina com a ladeira Porto Geral, no centro velho da capital paulista, era ponto de encontro dos intelectuais da época. O aumento no volume de negócios leva Lobato e seu colaborador na revista, Octalles Marcondes Ferreira, a criarem, em 1920, a Monteiro Lobato e Cia. cuja característica era ter um corpo de vendedores espalhados por todo o País.

Com vistas a incrementar ainda mais os negócios, entra no circuito de livros didáticos e lança Narizinho Arrebitado, que logo foi adotado pelas escolas públicas, alcançando, em 1921, tiragem de 50 mil exemplares.

Os livros editados por Lobato são bem elaborados, com programação visual, tipografia elegante, capas chamativas e desenhadas. Em 1922 publica autores modernistas Oswald de Andrade e Menotti del Picchia, este com capa de Anita Malfati.

     
Revista do Brasil

A necessidade de crescer o leva a comprar poderosas máquinas impressoras. Para obter recursos para essa nova aventura, abre o capital da empresa, atraindo 60 novos sócios, entre os quais Gofredo da Silva Telles, Alceu de Amoroso Lima. É quando surge, em 1924, a Companhia Gráfico Editora Monteiro Lobato.

Em pouco tempo a editora já era o mais importante fato cultural do País, publicando obras de Oswald de Andrade, Ribeiro Couto, Lima Barreto, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Oliveira Viana e Amadeu Amaral, entre muitos outros.

Nesse auge, as atividades da editora são interrompidas pela Revolução dos tenentes em São Paulo, liderada por Isidoro Dias Lopes. Apesar disso, relatório apresentado aos acionistas em maio de 1925 informava "foram editadas ou impressas 142 obras e essa produção atingiu a quase 258 mil volumes; se calcularmos (...) 130 dias de trabalho efetivo, significa isso uma produção de cerca de 250 livros por hora."

Com o agravamento da crise e o corte no fornecimento de energia elétrica pela Light, Lobato, ainda em 1925, pede falência da empresa e, bem no seu estilo, logo em seguida, em setembro, junto com Octalles Marcondes funda a Cia Editora Nacional com matriz na Senador Dantas, no Rio de Janeiro, e filial na rua dos Gusmões, em São Paulo.

A linha da nova casa editora continua sendo a de Lobato. Basta ver o primeiro livro editado: Meu cativeiro entre os selvagens do Brasil, de Hans Staden, com três mil exemplares que se esgotaram num instante. Seguindo essa linha, mantendo o requinte na preparação dos livros, a Editora Nacional lança um sucesso após outro e logo se firma como a mais importante do País.

Em 1945, Lobato organiza sua Obra Completa para a Editora Brasiliense, fundada, dois anos antes, por Caio da Silva Prado, Leandro Dupré, Hermes Lima, Artur Neves e Caio Prado Júnior. No ano seguinte, torna-se um de seus sócios.

Em vida, Lobato esteve todo o tempo ligado, direta ou indiretamente ao que houve de mais importante e de maior repercussão no universo editorial brasileiro, seja como jornalista, seja como editor e principalmente como escritor.