SUA INFLUÊNCIA PERMANECE ATÉ HOJE


Sob certo aspecto, é surpreendente como o pensamento e as teorias científicas, elaboradas e desenvolvidas pelo cientista brasileiro Josué de Castro, continuam atuais. Surpreendente porquanto sabemos que não são perenes as abordagens científicas realizadas sobre determinado problema que aflige a humanidade. É da natureza dos homens e da própria ciência a busca incessante por novos caminhos. Provavelmente, deve-se a uma rara conjugação de fatores a permanência da obra de Josué de Castro, entre as mais significativas contribuições para a compreensão do fenômeno da fome, suas causas e conseqüências, objetos principais e centrais de todo o seu trabalho.

Em primeiro lugar, há que se destacar a formação científica de Josué. Graduado em medicina pode, sob o aspecto biológico, conhecer o homem e compreender suas carências e necessidades. Esta foi a sua porta de entrada para o mundo da ciência.

Josué autografa um livro no CearáHomem profundamente inteligente, metódico e determinado construiu uma sólida base científica que pôde exercitar, principalmente, na atividade docente que, sem sombra de dúvida, foi a que mais lhe trouxe satisfação, quer pelo contato com os jovens ou por lhe permitir produtivo trabalho de pesquisa, esta responsável por consolidar sua crença na ciência e na tecnologia.

Outro aspecto que merece destaque, na sua formação, é a extrema sensibilidade que Josué desenvolveu e que foi capaz de lhe permitir a perfeita análise e interligação de fatos, aparentemente distantes do ponto de vista científico. Foi desta forma, considerando conceitos multi e interdisciplinares, que concebeu a Geografia da Fome, seu primeiro livro de repercussão mundial, hoje traduzido em mais de duas dezenas de idiomas e ainda recentemente reeditado no Brasil.

A riqueza manifesta nos pontos de contato entre os vários ramos do conhecimento, ecologia, biologia, geografia, política e ciências sociais, de um modo geral, evidenciam o caráter múltiplo de toda a obra de Josué.

Josué discursando em Rouen, FrançaNegadas no Brasil pós 1964, que lhe retirou os direitos políticos, suas idéias foram consagradas mundialmente fazendo crescer seu prestígio e o tornando figura de projeção internacional. No exílio, continuou trabalhando e produzindo cientificamente. Os diversos convites e títulos honoríficos recebidos de várias Universidades atestam esta afirmação.
Lamentavelmente, na esteira de suas qualidades pessoais, contribuiu, sem dúvida para a permanência de suas proposições o fato de apesar do grande desenvolvimento científico e tecnológico alcançado pelo mundo, continuar presente, neste início de século, a miséria de expressiva parcela das populações.

A retomada do pensamento de Josué de Castro no Brasil se deu lentamente ao longo das últimas décadas. Vale destacar o surgimento do Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro, em 1979, na cidade do Recife, como um importante difusor das idéias do pioneiro da fome. Em 1983, diversos amigos e admiradores de sua obra reuniram-se para debater a atualidade das reflexões de Josué. Entre eles estavam Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Barbosa Lima Sobrinho. Na mesma década, assistimos ao crescimento do Movimento dos Sem Terra que resgatou as teorias do intelectual pernambucano para dar continuidade ao combate por uma distribuição mais justa das terras brasileiras.

Betinho, líder da Ação da CidadaniaNa década de 90, foi marcante o surgimento da Ação da Cidadania, comandada por Herbert de Souza, o Betinho, que trouxe de volta a importância do tema da fome para a sociedade, buscando possibilidades de ação solidária e conscientização do problema mais grave do subdesenvolvimento. Em Pernambuco, a obra de Josué de Castro torna-se referência para diversos artistas que se questionam sobre a própria identidade cultural.

Chico Sciense, artista do Mangue Beat O movimento Mangue Beat relaciona a cultura urbana com a tradição local, muitas vezes soterrada como os antigos mangues da cidade, descritos pelo autor de Homens e Caranguejos. O mais destacado artista, Chico Science, corporificou o homem-caranguejo, e sua mutação mais recente, o homem-gabiru.

Outro momento significativo para a comprovação da atualidade de seu pensamento foi a comemoração, em 1996, dos cinqüenta anos da publicação da Geografia da Fome. Na ocasião, foram realizadas várias e sugestivas homenagens, que confirmaram a veracidade das condições descritas e das previsões do livro.

Recentes pesquisas realizadas pelo Fórum Econômico Mundial e publicadas nos jornais de todos os países, indicam que monta a 800 milhões os famintos do mundo. Na Europa do Leste, 30 milhões, na Ásia 508 milhões, No Oriente Médio e Norte da África, 40 milhões, Na África Subsaariana, 196 milhões e na América Latina e Caribe, 55 milhões.

Em nosso País estas marcas não são diferentes, a despeito do avanço verificado nos últimos anos. Nasce um novo alento por conta de atitudes do novo governo que, através de um programa social denominado “Fome Zero”, recoloca o problema da fome na pauta e nas cogitações de toda a nação, tendo mesmo desencadeado um forte movimento da sociedade brasileira que muito nos faz lembrar desejos manifestos de Josué de Castro em suas mais expressivas obras.

No ano de 2003, celebrando os trinta anos de seu desaparecimento, Josué recebeu expressivas e variadas homenagens que não deixam qualquer dúvida sobre o acerto de suas ações e atualidade de seu pensamento. Entre elas, a Sessão Solene Realizada na Câmara dos Deputados, por proposta do Deputado Fernando Ferro, da bancada de Pernambuco, terra natal de Josué, onde foram destacados seus trabalhos como Parlamentar. Igualmente significativa foi a iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia em fazer realizar, com a parceria da Prefeitura de Garanhuns e do Centro Josué de Castro, um histórico Seminário sobre endemias rurais, no mesmo lugar em que há mais de quarenta anos, sob a Presidência de Josué de Castro, realizou-se o 1º Seminário desta natureza em todo o Nordeste. O ministério da Agricultura e a Embrapa também realizaram expressiva homenagem ao destacar, em Seminário Nacional que realizaram em Brasília, os trabalhos de Josué na área de nutrição e alimentação. A Fundação Perseu Abramo fez editar o Livro Josué de Castro e o Brasil reunindo textos de consagrados cientistas brasileiros sobre a obra de Josué, além de dois textos originais de sua autoria.

Capa do livro Fome, um tema proibido – 4ª ediçãoA editora Civilização Brasileira lançou a 4ª Edição do livro Fome – um Tema Proibido onde foram reunidos os últimos escritos de Castro. Foi também lançado, pelo MST, um caderno de Estudos de autoria de Anna Maria de Castro denominado Josué de Castro – Semeador de Idéias contendo uma biografia resumida do autor. O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acolhendo por aclamação proposta de seu Reitor, houve por bem conferir o Título de Doutor Honoris Causa – in memoriam a Josué de Castro. Ainda em dias deste ano, em comovente e até certo ponto surpreendente homenagem, a Turma de Estagiários da Escola Superior de Guerra, que se auto denominou “Consciência Nacional”, escolheu Josué de Castro como seu Patrono, fazendo inaugurar seu retrato na galeria de homenageados naquela Escola de Altos Estudos das Forças Armadas Brasileiras. Também o CONSEA, Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Órgão de Assessoramento da Presidência da República, elegeu Josué de Castro como seu Patrono.

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