GRANDES PERSONALIDADES FALAM SOBRE JOSUÉ

“Josué de Castro terá sido o homem da ciência e o homem da visão política, no seu tempo, de maior significação e de maior repercussão. O autor célebre, o cientista célebre e o homem de visão política aqui está o fruto de seus estudos, da sua investigação, da sua extraordinária capacidade de refletir, deveres e compromissos com a humanidade, no seu talento de escrever e no seu talento de dizer. Josué de Castro marca de forma extraordinária o seu tempo, o meu tempo e o tempo de Milton. Não sei de ninguém que tenha sido como ele: uma expressão da ciência brasileira em que determinados instantes foi uma espécie assim de confrontação com pensamentos, os mais consolidados, os mais realçados das reflexões internacionais”.
Waldir Pires, ex-governador da Bahia (parte do discurso proferido no Plenário da Câmara de Vereadores de Salvador, por ocasião de sessão comemorativa dos 50 anos do Livro Geografia da Fome – 1996)

“Foi através da leitura deste livro [Geografia da Fome] que me tornei um militante das causas da população (...) Muitos, também através da leitura de Josué de Castro tornaram-se colegas de luta, companheiros de grande atividade profissional. Para se dar uma dimensão maior, tenho a impressão e não apenas aqui no Brasil, mas no mundo inteiro, esse livro foi traduzido em 26 idiomas e de que “fez a cabeça” de muita gente, revelando uma realidade, que até então, nunca havia sido mostrada de forma tão dramática”.
Malaquias Batista, médico (membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar, sobre o 50 anos da Geografia da Fome – 1996)

“Quero dizer, pois, que a sua palavra não caiu em vão e se o lábaro que nos mostrou de certo modo, neste país que fala em subnutrição, não fala mais de fome, esse lábaro de certa forma, por muito tempo não foi erguido, ou foi erguido de maneira equívoca para que justamente, logo tivesse os frutos desejados ainda é tempo de retomar o caminho que ele nos mostrou e de ganhar a batalha.
Imagino, pois, que a lição de Josué de Castro é uma lição permanente e que deve ser recebida com a emoção que ela merece”.
Milton Santos, geógrafo (parte do discurso proferido no auditório da Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ, em sessão comemorativa dos 50 anos da Geografia da Fome – 1996)

“Josué de Castro foi um homem que viveu um amor intenso por esse país. E a forma de mostrar esse amor foi denunciar através da sua imensa capacidade, da sua enorme compreensão social, a fome que sempre grafou nesse país e que as elites descompromissadas com o que há de mais importante no Brasil, sempre ignoraram e fizeram questão de ignorar e que agora o destino está aí, exatamente mostrando e repetindo, seguindo os passos de seu mestre e mostrando exatamente que a fome está aí. No momento em que o país tem a 8ª ou 9ª economia mundial, já teria condições de dar a essas pessoas uma vida melhor, escola, cultura e sobretudo o que comer e nada se faz de concreto. Um país rico, um país que tem as potencialidades do Brasil e que hoje continua da mesma forma como Josué denunciou e mostrou, analisou, pesquisou, continua ainda com essa enorme gama, com esse enorme número de excluídos sociais”.
Antonio Celso, ex-Reitor da UERJ (parte do discurso proferido por ocasião da sessão solene realizada em homenagem aos 50 anos da Geografia da Fome – 1996)

“...a palavra proletariado, como indicador de prole, de muitos filhos, para indicar as camadas mais pobres é a indicação exata da tese de Josué, que nações mais populosas do mundo não são pobres porque são populosas ou porque têm fome, são populosas porque têm fome e porque são pobres. A coragem de pensar isso diante do mundo, a coragem de levantar essa tese, era alguma coisa de extraordinária, que teria colocado qualquer pessoa tímida com certo receio. Eu me lembro de muitos falsos cientistas, desses que só sabem ler o já escrito, só sabem pensar o já pensado, a perplexidade deles, e a raiva e o ódio de Josué, a perguntar, mas onde, em que autor, onde, onde ele se baseia para dizer isso? (...) Josué foi este homem, este pensador que nós tivemos, que nasceu entre nós, que cresceu, que amadureceu aqui e que não foi um homem, um intelectual, mais um dos que lêem o que os outros escreveram. Foi o mais lido dos intelectuais brasileiros. Nenhum de nós conseguiu publicar mais livros, em tantas edições, com tantas tiragens como Josué”.
Darcy Ribeiro, ex-Vice-Governador do Estado do Rio de Janeiro (parte do discurso proferido na sede da ABI, com o propósito de assinalar os 10 anos da morte de Josué de Castro – 1983)

“Josué fala de uma humanidade entregue a instintos primitivos porque se de um lado se justificava, perfeitamente, a falta de sono daqueles que não tinham alimento, de outro lado, não se podia compreender a atitude impassível daqueles que tendo sobra demais no seu bem estar, não desejavam atender e ajudar a atenuar a situação de miséria daqueles que se achavam dentro dos ¾ de famintos. E no mundo, hoje, sobram cada vez mais as verbas para armamentos e cada vez minguam mais as verbas para a assistência social. Enquanto homens do Nordeste se vêem obrigados a consumir a sua dieta de lagartos e cobras, outros realizam banquetes requintados".
Barbosa Lima Sobrinho, ex-Presidente da ABI (parte do discurso proferido na sede da ABI, com o propósito de assinalar os 10 anos da morte de Josué de Castro – 1983)

“O PROF. JOSUÉ DE CASTRO bem poderia ter dado ao seu livro de alcance mundial "Geopolítica da Fome", o título de "Fome e Política" por que, nesta obra, surgem perspectivas políticas de primeira grandeza. Mas, como salienta o próprio Autor, sempre foi considerado pouco conveniente, entre os povos bem alimentados, discutir-se a fome dos menos afortunados- fome que nunca foi assunto muito popular em matéria de política. E, no entanto, a fome tem sido, através dos tempos, a mais perigosa das forças políticas. Foi a fome que precipitou a Revolução Francesa. Uma multidão de mulheres dos cortiços de Paris marchou até a sede do Parlamento, bradando por pão. Os políticos fugiram. As mulheres, com suas hostes reforçadas pelos homens, rumaram para a Bastilha. A queda da Bastilha foi o golpe de morte contra o sistema feudal na França, iniciando uma nova era. Na atual crise mundial, livro como a "Geopolítica da Fome" é de vital importância. Se os políticos de todas as nações do mundo pudessem esquecer por um momento os seus conflitos políticos e lessem "Geopolítica da Fome", sem idéias preconcebidas, adquiririam certamente uma visão mais sadia dos problemas universais e teriam, assim, maior possibilidade de salvar nossa civilização de perecer numa terceira guerra mundial”.
Lorde John Boyd Orr, ex-Reitor da Universidade de Glasgow e ex-Diretor Geral da FAO (Prêmio Nobel da Paz)

"O livro de JOSUÉ DE CASTRO, em que são estudadas, em seu quadro geográfico, as insuficiências de alimentação dos grupos humanos vem, de certo modo, ao encontro de várias ordens de preocupações. Primeiro, uma angústia despertada em todas as almas pela lembrança de misérias recentes e pela consciência que temos, agora, de sua persistência em várias regiões. Depois, o sentimento de uma contradição entre duas séries de fatos, o crescimento demográfico atual da espécie humana e a possibilidade de aceleração deste crescimento pela generalização dos cuidados higiênicos, dum lado, e de outro lado, o balanço dos recursos alimentares. A velha fórmula de Malthus já não é aceitável, mas a inquietação que a inspira ainda perdura. Enfim, os progressos da fisiologia da alimentação orientaram para esses problemas todos aqueles que, a um título ou outro, se têm interessado pela ecologia humana. Seja permitido dizer que este é o meu caso. O movimento natural do pensamento do ecologista o conduz para o estudo das condições de nutrição dos grupos humanos no seu quadro geográfico, independentemente de toda preocupação de atualidade".
Max Sorre, Professor da Sorbonne (comentário a propósito da Geopolítica da Fome).

Diante de certos livros é que a gente vê como é fácil e sem importância o ofício de literato. Sim, são realmente os cientistas que nos botam complexo de inferioridade. Porque afinal de contas fazer literatura não é mais do que coisa gratuita e à toa, anotar impressões, traduzir um estado de alma, ou relatar algum sucesso havido, sempre deformado. Em suma: tudo improvisação, falsificação, fingimento.
Mas escrever um livro que informe, ensine, descubra verdades encobertas ou controvertidas, isso sim, representa, na realidade, um mundo de honestidade, esforço, labuta, rigor além do talento natural que exige em grandes doses.
E é pois o sentimento da minha inidoneidade que me afeta ao tentar um comentário em torno do livro do ilustre professor JOSUÉ DE CASTRO: O "Geografia da Fome".
Rachel de Queiroz, escritora
(comentário da Acadêmica sobre o Livro Geografia da Fome)

"A "GEOGRAFIA DA FOME" é, sem dúvida, um dos mais valiosos livros publicados na última década. Os fatos e teorias nele contidos são de imediata, radical e fundamental importância para a humanidade. Seu tema é a pior enfermidade do mundo, mais comum e mais mortífera do que as guerras e pestes em conjunto".
Mark Holloway, Crítico literário e Jornalista ( Londres, Inglaterra)

"O prof. Josué de Castro enfrentou justamente esse assunto tabu (Fome), difícil, negaceado, escondido nos relatórios e coberto com os retalhos de sinônimos bonitos como mentiras. É um sentimento primário que humilha a nossa cultura de raciocínio. Não humilha a concepção instintiva de civilização, mas os elementos formadores, minando-lhes o interior com denúncia de uma desanimadora e diária verdade natural."
Câmara Cascudo, escritor (Comentário a propósito da Geografia da Fome).

“Na verdade, Josué de Castro reunia em uma só pessoa as qualidades da inteligência, da agilidade mental, da argúcia na observação, e da coragem em denunciar as injustiças e os dramas sociais, apontando suas causas e alternativas para dominá-los e por fim às suas conseqüências. Sendo médico de formação profissional, especializou-se em fisiologia e dedicou-se a problemas de nutrição. A partir de observações individuais de seus clientes, passou a procurar uma dimensão social para o problema da alimentação escrevendo um livro sobre a “Alimentação Brasileira à Luz da Geografia Humana”.
Manuel Correia de Andrade, geógrafo ( parte de artigo denominado “Josué de Castro e Uma Geografia Combatente, escrito em 1981)

“A sociedade de opulência, em que nos encontramos por direito ou como satélite, institucionalizou a fome. Neste momento queria render minha homenagem e lembrança à memória de Josué de Castro um brasileiro universal. Josué de Castro, que foi Presidente do Conselho da FAO e o primeiro também a prever os problemas que hoje enfrentamos. Josué de Castro sintetizou sua análise sociológica e cultural em seu livro intitulado “Geografia da Fome”, que depois de um quarto de século continua atual, partindo de um modelo crítico da sociedade imperialista.
Nesta hora decisiva para a FAO, momento em que é indispensável investir no homem assegurando seu pleno desenvolvimento, o México se inclina respeitosamente diante de Josué de Castro, homem que, do Nordeste do Brasil, ergueu, movido por sua angústia de médico e sociólogo do Terceiro Mundo, sua experiência em teoria e sua teoria em conhecimentos antropológicos e objetivos do mundo, onde o problema do futuro ameaça, pelas realidades imediatas, o que há de mais premente, a saber, a alimentação e a agricultura. Pela memória e pelo coração, nós nos rejubilamos por este brasileiro extraordinário que conosco lutou para fazer reinar a justiça e a solidariedade internacionais, Josué de Castro não é mais um de nós. Poderíamos dizer como os Romanos “Ele viveu” e dizer como ele “somente solucionando os problemas atuais poderemos tentar resolver os do futuro. A vida do homem está em marcha para uma nova sociedade. Ou nós a construiremos com as nossa mãos e nossa inteligência, ou assistiremos, inevitavelmente, à sua destruição violenta do sistema que impede sua realização pelo egoísmo e particularismo”.
Luiz Echeverria Alvarez, ex-Presidente do México (trecho do discurso pronunciado na FAO, em 9 de fevereiro de 1974).

“A notícia da morte súbita de Josué de Castro, ocorrida em Paris, deixa consternada esta Universidade que tinha nela um de seus mais talentosos mestres.
Era desta extirpe de homens raros, a quem jamais seria possível ignorar, ou ficar indiferente, tal a força de sua personalidade e o vigor de sua atuação, sempre combativa, às vezes contundente e incômoda.
Dotado de grande inteligência e imaginação fértil, servia-se da palavra fácil, escrita ou falada, para defender suas idéias, que convergiam, afinal, para o grande sonho de construir um mundo melhor, onde a miséria e a fome não sacrificassem milhões de pessoas.
Em Josué de Castro realizou-se a difícil harmonia do sonhador com o homem de ação. Dou testemunho de quem o conheceu de perto, privando de sua amizade por cerca de trinta anos. Apreciei-lhe o inconformismo, o ideal, o ânimo combativo, os devaneios e as realizações. Ele usou a própria angústia para dar um sentido humano e social à sua obra, que há de ressurgir na admiração póstuma”.
Clementino Fraga Filho, médico e professor (trecho do discurso proferido na sessão do conselho universitário da UFRJ, em 1973, logo após o falecimento de Josué de Castro)

“Fredéric Joliot Curie, grande sábio e grande homem, falecido recentemente, costumava dizer, ao falar da América Latina, ter lido nos últimos anos poucos livros tão importantes quanto a “Geopolítica da Fome” e sua voz era veemente ao fazer o elogio da obra e do autor. De Josué de Castro e de sua obra de escritor e cientista, sobretudo da Geografia e da Geopolítica da Fome ouvi falar, tanto em Paris, como em Moscou, tanto em Viena e Berlim, quanto em Pequim e Ulan Bator, cidade encravada nas Montanhas da Mongólia. Por toda parte onde se lê e onde o trabalho da inteligência é respeitado e amado.
Possuímos um pequeno grupo de homens de ressonância universal: o político Oswaldo Aranha, o arquiteto Oscar Niemeyer, os pintores Portinari e Di Cavalcanti, o compositor Villa-Lobos, uns poucos. O nome mais conhecido de todos, no sentido da extensão desse conhecimento pelas fronteiras do mundo, é, no campo científico e social, o de Josué de Castro. As traduções dos seus livros, o eco despertado por sua obra sobre os problemas da fome, no mundo moderno, fizeram dele um dos grandes nomes, dos mais célebres e dos mais respeitados da cultura contemporânea. Seus admiradores chamam-se Pearl Buck, Ann Seguers, Vercors e Joliot-Curie, Kuo-Ko-Jo e Lisenko, para citar apenas meia dúzia entre centenas de milhares".
Jorge Amado, escritor (pronunciamento por ocasião das comemorações dos 50 anos de Josué de Castro)

"É este o mais encorajador, o mais esperançoso e o mais generoso livro que eu já li em toda a minha vida. Livro escrito por um famoso cientista, um técnico que sabe o que está dizendo, um conhecedor dos problemas práticos, um homem do mundo no melhor sentido da palavra, porque conhece o mundo e suas populações e apresenta-nos numa obra magistralmente escrita o conhecimento fundamental para felicidade e paz dos homens.
É por esta razão que eu afirmo que este livro - A Geopolítica da Fome, do eminente cientista Josué de Castro – é o mais importante livro que já foi publicado nestes confusos, perigosos e ridículos tempos atuais. Ridículos porque, embora a paz seja prática e possível, indivíduos há, em várias partes do mundo, tocando seus tambores para manufaturar uma guerra".
Pearl S. Buck, escritora, Prêmio Nobel de Literatura (comentário sobre o livro Geopolítica da Fome)

“Quantos professores, jovens e militantes do Brasil conhecem ou ouviram falar de nossos queridos Josué de Castro, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, João do Vale, Patativa do Assaré, Câmara Cascudo, Caio Prado Junior, Nelson Wernek Sodré e tantos outros.
Esses pensadores foram “esquecidos” pela classe dominante, para que as gerações atuais não pudessem se apropriar de seu pensamento, de seu exemplo, de suas reflexões. E nos proibiram de conhecê-los porque sabem que seu pensamento e ação são revolucionários. Revolucionários não numa retórica agitadora de gritar loas à mudança. Revolucionários no verdadeiro sentido de Marx e de Caio Prado Júnior: de revolucionar as estruturas econômicas e sociais, para que o povo possa se apropriar coletiva e socialmente dos bens da natureza e das formas de produzir os bens, utilizando-os em favor da melhoria de vida material e cultural de todos e não apenas de uma minoria, como sempre aconteceu nestes 500 anos.
Nossa obrigação, como militantes estudiosos e dedicados que devemos ser, se quisermos honrar a memória de Josué de Castro, é estudar suas obras, compreendê-las, utilizá-las para transformar nossa realidade. Recuperar seu pensamento e ação para que todos os estudantes e militantes o conheçam”.
João Pedro Stédille, coordenador do MST (trecho da apresentação para o Caderno de Estudos denominado Josué de Castro - O Semeador de Idéias)

Josué de Castro disse
Com coragem e ousadia
O que há cinqüenta anos
Alguém no Brasil não dizia
FOME, FOME, FOME,
Foi o seu grito de guerra
Que partiu de Pernambuco
E se estendeu pela terra

Josué de Castro foi
Quem destapou a panela
Da pobreza e da miséria
Pra ver o que havia nela

E nela não havia NADA
Aí está sua obra
Onde expõe essa tragédia
Mas tanto expõe como cobra
Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas (alguns versos do cordel em homenagem a Josué de Castro)

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