GEOGRAFIA DA FOME - O LIVRO Aos
38 anos de idade, Josué de Castro publica sua obra de maior repercussão,
Geografia da fome, que veio a ser traduzida em mais de
25 idiomas. Este livro, de 1946, é uma referência fundamental no estudo
do tema, e logo foi reconhecido com o Prêmio Pandiá Calógeras, da Associação
Brasileira dos Escritores e com o Prêmio José Veríssimo, da Academia Brasileira
de Letras. Assim, Josué explica o objetivo de seu trabalho:"Neste nosso ensaio de natureza ecológica tentaremos,
pois, analisar os hábitos alimentares dos diferentes grupos humanos, ligados
a determinadas áreas geográficas, procurando, de um lado, descobrir as
causas naturais e as causas sociais que condicionaram o seu tipo de alimentação,
com suas falhas e defeitos característicos, e, de outro lado, procurando
verificar até onde esses defeitos influenciam a estrutura econômico-social
dos diferentes grupos estudados. Assim fazendo, acreditamos poder trazer
alguma luz explicativa a inúmeros fenômenos de natureza social até hoje
mal compreendidos por não terem sido levados na devida conta os seus fundamentos
biológicos".
O mapeamento do Brasil a partir de suas características alimentares deixou
clara a trágica situação da fome
no país, que não poderia mais ser atribuída a fenômenos naturais, mas a
sistemas econômicos e sociais que poderiam ser transformados para o benefício
da população.A área do sertão nordestino é caracterizada pelas secas periódicas que quando ocorrem levam seus habitantes ao limite da inanição. Esta área é denominada por Josué como área de fome epidêmica. Mais do que o clima, o maior problema é a falta de recursos, de meios de transporte e de políticas públicas para a região. Já na região da zona da mata nordestina e em grande parte do território brasileiro, a maior parte da população sofre de uma fome permanente, sofrendo carências na alimentação cotidiana. Denominando este tipo de fome como fome endêmica, Josué também demonstra como ela se manifesta ocultada por outras doenças que se instalam facilmente em organismos enfraquecidos. Ela se faz sentir nas doenças carenciais, tais como beribéri, a pelagra, o raquitismo, de modo muito mais sutil, por insuficiência de proteínas, minerais e vitaminas, que apenas se revelam por lassidão, irritabilidade, nervosismo ou falta de apetite. Se a falta total de alimentos constitui uma causa importante da mortalidade, o número é diminuto comparado às debilidades que o regime alimentar defeituoso provoca. Para
explicar o quadro de um país de fome
como o nosso e buscar ações para reverter este quadro, não é possível deixar
de considerar o desequilíbrio causado pelo modelo de crescimento industrial
exclusivo sem alterações na estrutura arcaica da agricultura, e pelo tipo
de economia voltado para interesses estrangeiros desde a época do colonialismo
até o atual neo-colonialismo do capital
internacional."É mesmo esta a característica essencial do desenvolvimento
econômico do tipo colonialista, bem diferente do desenvolvimento econômico
autêntico de tipo nacionalista. O colonialismo promoveu pelo mundo um
certa forma de progresso, mas sempre a serviço dos seus lucros exclusivos,
ou quando muito associado a um pequeno número de nacionais privilegiados
que se desinteressavam pelo futuro da nacionalidade, pelas aspirações
políticas, sociais e culturais da maioria. Daí o desenvolvimento anômalo,
setorial, limitado a certos setores mais rendosos, de maior atrativo para
o capital especulativo, deixando no abandono outros setores básicos, indispensáveis
ao verdadeiro progresso social".
Com
este importante trabalho, Josué de Castro demonstrou que era possível construir
uma ciência que teria por objeto de estudo problemas específicos de países
subdesenvolvidos e que fosse capaz de explicar a situação destes países
sem recorrer aos mitos de inferioridade racial, de fatalismo ou de determinismo
geográfico. E já apontava para a necessidade de transformar a estrutura
agrária para aumentar a oferta de alimentos e fortalecer o mercado interno. |