| Ricardo dos Santos Poletto
Universidade de Brasília
Brasília
Categoria: Ensino Superior
Classificação: 3º Lugar
Josué de Castro: Lembranças de um Cidadão do Mundo bem Brasileiro
“(...) Fabiano espiava a catinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelo redemoinho, e os garranchos se tornavam negros, torrados. Pouco a pouco, os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre.”
Recolocava o livro de Graciliano Ramos na mesa-de-cabeceira ao lado. Era a terceira vez que lia o trecho. Dolorosa era a adjetivação encontrada pelo autor para o título da obra: “Vidas Secas”, secas como as folhas descritas no excerto da narração. Perguntava-se por que repita a leitura daquele livro já tão explorado por ele mesmo. Talvez por encontrar naquele homem desfigurado e sem rumo a identidade mais perversa da fome. Imaginou, então, o marido da sinhá Vitória, com o olhar perdido, acocorado próximo a um juazeiro, balbuciando:
“- Você é um bicho, Fabiano.”
A imagem que inquietava Josué foi dissipada quando ele se levantou para abrir as cortinas do cômodo. Típica manhã de inverno. Paris, fria e acinzentada, trazia-lhe à memória o exato momento, esboçando sua aparição para escaldar as terras brasileiras no verão de janeiro. Paciência... Faltavam poucos meses para que expirasse a cassação de dez anos de seus direitos políticos. O exílio durante o Regime Militar, entretanto, não o impediu de continuar sua discreta militância. Considerado subversivo e inconveniente pela ditadura, o estudioso, admirado e respeitado pela comunidade internacional, frustou os perseguidores ao prosseguir, incansável, com suas atividades denunciadoras.
Josué vestiu seu sobretudo e saiu para uma caminhada nas calçadas do Boulevard Saint Germain. Enquanto media os passos, conversava consigo mesmo sobre os caminhos de sua vida – de um dia de setembro de 1908 ao início dos tumultuados anos 70. Só tinha a agradecer o esforço de seu Manoel Apolônio – o Velho Neco – e dona Josepha – a Velha Moça -, pais que, a despeito das dificuldades, não mediram esforços para garantir a melhor educação para o filho único. Das lembranças dos colégios em Recife – Instituto Carneiro Leão e Ginásio Pernambucano -, impossível deixar de resgatar a imagem do mestre Pedro Augusto, modelo de homem e de educador.
Graduava-se em medicina na capital, na Faculdade do Rio de Janeiro. Boas recordações dos colegas e amigos Arthur e Theotonio. Com os companheiros experimentou suas múltiplas vocações e teve contato com novas áreas do conhecimento. Veio Freud e o ímpeto de se dedicar à Psicologia. Vieram os ventos da Semana de Arte Moderna e a vontade de escrever prosa e poesia... A mente fervilhava na juventude.
Apesar do frio intenso, o movimento nas ruas do Boulevard aumentava rapidamente. O ilustre pernambucano procurava por um lugar calmo, especialmente naquele dia, quando aflorava em seu peito uma nostalgia particular. Resolveu dar meia volta e refazer o trajeto, afastando-se da pequena multidão. Longe do burburinho matutino, pode, mais uma vez, puxar o fio da memória. Queria resgatar os detalhes que o levavam a abraçar a Nutrição, disciplina ainda incipiente à época. Gostava de dizer, em tom bem-humorado, que não havia sido na Sorbonne que aprendera sobre a fome. Desde a infância, conviveu de perto com a miséria. Da velha casa de madeira, à beira do Capiberibe, via os mocambos em palafitas e as famílias atoladas no mangue, lutando pela sobrevivência, arrastando-se, em mimetismo, como caranguejos, como bichos!
Como estudante e pesquisador, fazia o périplo por Santo Amaro, Encruzilhada e Torres, bairros operários de Recife. Era como se tivesse vivido imerso na contínua pesquisa de campo – aprendera observando a vida com lentes humano-científicas. Isso porque teve o arrojo de questionar a validade categórica e inapelável dos pareceres ditados pela medicina e pelo paradigma da neutralidade objetiva. Faltava algo ao tecnicismo insensível da matéria, fazia-se necessário estender o universo analítico, enveredar-se por outras ciências, pela política, pela geografia para descobrir que o homem era vítima de patologias não só físicas, mas também sociais.
O passeio solitário e isolado daquele senhor de cabeça branca chamou a atenção de alguns transeuntes. Mal sabiam que observavam um falso misantropo. Josué de Castro era, ao contrário, um intelectual generoso e comunicativo. Realizava-se como docente; sentia-se multiplicado ao transmitir o que sabia. Além disso, dedicava sua vida a uma temática que o revoltava, mas que o impelia a denunciar e a buscar soluções. Estudar e combater a fome com tal ímpeto era sua maior prova de humanidade.
Percorrera, absolvido em pensamentos íntimos, uma distância considerável até retornar à sua morada parisiense, sempre tida como temporária, mas, que, agora, lhe parecia eterna. Abriu a porta. Na sala de estar, diante dos porta-retratos, sorriu em retribuição à foto da mulher e dos três filhos. Porém, havia algo de melancólico em seu sorriso, pois não se sentia completo. Na estante da parede oposta, estavam reunidos seus prêmios, diplomas e demais honrarias. Estas rememoravam-no do espetacular eco que suas investigações tiveram nas principais academias do mundo e dos reflexos produzidos nos mais remotos grotões. Contribuições que acordaram a ciência da hibernação e curaram-na da cegueira perante o drama universal da fome. Olhando ainda para suas condecorações, foi reunindo, a partir de um embaralhado de letras, as siglas cheias de significado –STAM, CNA, CNBS, FAO, CID, Amiesv – estimadas armas empenhadas em sua luta. Foi bombardeado, outrossim, por capítulos de sua vida ambivalente como médico, docente, antropólogo, literato, enfim, como homem. Intrigante como conseguira desempenhar tudo com tamanha maestria. Geografia da Fome foi a obra alavanca. A Associação Mundial de Combate à Fome, a menina dos olhos. Idéias propagadas a quatro cantos. Meio Ambiente, desenvolvimento e subdesenvolvimento e sustentabilidade foram colocados em pauta de discussão. Indicação aos Prêmios Nobel de Medicina e da Paz... Não obstante, por mais cosmopolita e merecedor do título de “cidadão do mundo” que fosse, jamais perderia as ligações viscerais que mantinha com seu berço. Fraseava: “Não se morre só de enfarte, ou de glomeronefrite crônica... Morre também de saudade.”
Deitou-se na cama e, em meio a seus lúcidos devaneios, conjeturava sobre os frutos da semente que plantara. Vislumbrou um futuro animador dali a 30 anos, na aurora do novo milênio. O Brasil – quem sabe – seria exemplo para o mundo e apontaria o caminho para a realização da utopia. De súbito, sem saber o porquê da lembrança, veio-lhe a imagem de Garanhuns, onde iniciou os seminários sobre desnutrição, e desejou, intensamente, que, nesse futuro, a pequena cidade não estivesse esquecida pelo poder público. Queria ser testemunha ocular do dia em que o economicismo dos governantes fosse superado pela força humana da solidariedade e da verdadeira preocupação social. Dia que, sabia bem, resultaria de uma longa história de esforço conjunto e que a nós, mortais e efêmeros, cabia participar de alguma forma da obra. Dia em que cada um faria a sua parte no sentido de erradicar a fome em torno de um grandioso projeto. E nesse dia não haveria mais homens-caranguejo, nem qualquer tipo de sub-humanidade que assolasse Fabiano – que, por fim, havia de se descobrir homem. E Josué Apolônio de Castro morria pouco tempo depois, em um início de outono europeu, na mesma Paris, amargurado por estar longe de casa, mas realizado por ter feito – e muito bem – a sua parte nessa história.
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