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Nome: Clênio Sierra de Alcântara
Escola: Universidade Federal de Pernambuco
Cidade: Itamaracá - PE
Professor: Severino Vicente da Silva
Categoria: Ensino Superior
Classificação: 2º lugar

O prato, o garfo, a faca e a necessidade não consumada:
Josué de Castro e os insones excluídos do banquete da terra

“ – Jejuas ainda? – perguntou o inspetor – Quando vais cessar de uma vez? [...]
- Porque sou forçado a jejuar, não posso evitá-lo - disse o jejuador.
- Isso já se vê – disse o inspetor -, mas por que não podes evitá-lo?
- Porque [...], porque não pude encontrar comida que me agradasse. Se a tivesse encontrado, podes acreditá-lo, não teria feito nenhuma promessa e me teria fartado como tu e como todos”. (1)

Franz Kafka, Um artista da Fome, 1924.

A Aberlardo da Hora – Também ele, um artista da fome – na ocasião do seu octogésimo aniversário

Num momento em que nosso país atravessa mais um ciclo de transformações, a fim de tentar sepultar males como a pobreza e toda sorte de exclusão social que sempre se acreditou ser algo fossilizado e inalterado, resultado do peso cruel e esmagador de seu passado colonial; num momento em que assistimos ao desenrolar do mandato de um Presidente da República eleito democraticamente e, pela primeira vez, saído das entranhas do povo – do Brasil real e não do Brasil oficial, como diria mestre Ariano Suassuna-, com toda carga simbólica que isso encerra, porque nos faz crer na vinda de um tempo melhor de vivência e ter, um mínimo que seja, de alento para confiarmos no crescimento de uma nação que se ainda não resolveu seus problemas estruturais mais comezinhos – como toda gestão, a atual comete erros e acertos -, se apresenta aberta para que o esforço individual e/ou coletivo alavanque seu processo, porque o país é dos brasileiros e todos, sem exceção, devem ter oportunidade de participar dessa reconstrução, trazer à tona a figura e a memória do brasileiro desavergonhadamente altruísta, que foi Josué de Castro, significa evocar a presença de um homem que lutou não somente pela idéia de um Brasil mais justo, mas também pela emergência de um mundo menos excludente.
Mas, quem foi de fato Josué de Castro? O que fez essa personalidade por merecer reconhecimento mundial, a ponto de receber mais de uma vez a indicação ao Prêmio Nobel da Paz? Que propostas para o encaminhamento de um mundo novo ele sustentava? Com quais instrumentos lutava?
O prato. Médico, geógrafo, sociólogo, crítico e roteirista de cinema, (2) escritor e político que exerceu dois mandatos como deputado federal ao longo da década de 1950, Josué de Castro (1908-1973), pernambucano da cidade de Recife, encarnou como poucos de seus contemporâneos, o ideal renascentista do homem como medida de todas as coisas. Dono de uma personalidade irrequieta e inconformista, como nos leva a inferir os dados de sua biografia, Josué de Castro procurou, sempre que foi possível, conciliar suas atividades profissionais com o seu intento de discutir publicamente a adoção de medidas que sanassem as mazelas que ainda hoje, abundam nas nações subdesenvolvidas, não deixando de salientar que, mesmo nos países ricos, existem focos de pobreza.
Se cabe aqui a utilização de um prato como metáfora de uma vida, poderíamos dizer que o que constituiu o desse personagem, foi preenchido com porções fartas e variadas do melhor que um indivíduo pode reunir em si a fim de empreender o que certos estudiosos, como Nicolau Sevcenko, denominam de missão intelectual, missão essa que mira as camadas marginais da sociedade como matéria de suas reflexões com propósito de alteração da realidade.
O garfo. Josué de Castro foi um dos primeiros brasileiros a elaborar estudos enfocando o problema da fome da desnutrição humana, podemos dizer que ele deu continuidade ao esquadrinhamento da deficiência alimentar que já vinha sendo desenvolvido, segundo Orlando Parahym, desde o século XIX, por Gama Lobo, Hilário de Gouveia e Silva Lima, que publicaram pesquisas que “inauguraram o conhecimento dos efeitos deletérios da fome crônica sobre a saúde dos escravos e dos libertos” no Rio de Janeiro e na Bahia. (3) O que difere o seu proceder dos desses outros estudiosos que citamos, é o seu caráter mais abrangente, englobando todo o corpo social, e não uma camada específica. Talvez por isso, Ruy Castro tenha escrito que o pernambucano foi “o primeiro cientista brasileiro a escrever com autoridade sobre a miséria do país”. (4)
Ao decidir ocupar-se com um assunto que ele próprio avaliava como sendo um tema proibido, Josué de Castro, ao que parece, sabia que seria perseguido ideológica e politicamente; parte da intelligentsia brasileira – segundo inferimos pelos registros que lemos (5) – considerava oportunismo e demagogia o fato de um burguês que morava num apartamento na Rua Gomes Carneiro, no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, se pôs em linha de combate contra a erradicação da fome e da pobreza; e, ainda por cima, levantar bandeiras outras como igualdade social e reforma agrária, o que soava como discurso de um partidário do comunismo, muito embora ele fosse um anticomunista. Em vista disso, não poderia ter sido diferente que, ao ser implantado o regime militar neste país, com o Golpe de 1964, ele disse apontado como uma ameaça ao establishment, e acabasse como vítima da injustiça da proscrição, e se exilasse em Paris, onde faleceria em 1973. Não deve nos causar espanto, portanto, que ele tenha permanecido durante anos como um proscrito em nossos meios universitários, embora gozando de prestigiosa reputação internacional, e fosse acusado de charlatão.
Seus detratores pareciam não ter noção do grau de conhecimento que detinha Josué de Castro a respeito dos males que condenava com tanta veemência. Ele não era um leigo; sabia muito bem do que tratava porque vira e conhecera in loco cenários de degradação humana; e tinha sólida formação acadêmica, o que lhe garantia embasamento teórico para melhor aproveitar suas pesquisas de campo.
Nascido numa capital que já foi cognominada de “menina maltrapilha” devido, entre outras coisas, ao cinturão de casebres designados de mucambos que “salpicavam de lama a fisionomia modernizada da cidade”, (6) Josué de Castro pôde acompanhar de perto o drama de famílias inteiras que chegavam ao Recife já arrasadas pelos efeitos da seca nos sertões do Nordeste; um contingente de existência severina que desembarcava na metrópole atraído pela perspectiva de usufruir dos serviços de infra – estrutura como luz elétrica e água encanada e, sobretudo, visando o alcance de um emprego, mas que, em sua imensa maioria, amargava o desgosto de somente aumentar a estatística da indigência.
Castro, que em 1932, depois de trabalhar durante dois anos como médico numa fábrica, escreveu o inquérito As condições de vida das classes operárias do Recife, denunciando o estado de penúria em que elas viviam, não se encontrava mais na capital pernambucana quando, em 1939, foi criada, na gestão do interventor federal Agamenon Magalhães, a Liga Social Contra o Mocambo, entidade que, de acordo com seu idealizador, pretendia reintegrar os cidadãos à sociedade, (7) extinguindo a Mucambópolis. (8) Contudo, as experiências por ele vivenciadas naqueles terrenos alagados do Recife, naquelas paisagens de mangues com sua população de miseráveis que foram imortalizados nos desenhos – manifesto do artista a Europa e boa parte do mundo se encontravam em rearrumação, espanando as cinzas deixadas pela Segunda Grande Guerra; um mundo que seria polarizado pelo poderio de duas nações – Estados Unidos e União Soviética – e que continuava exibindo um fraco arcabouço moral e a ausência do devido valor pela vida humana. E Castro não se furtou em tocar em feridas ainda recentes, talvez porque ele tenha compreendido que aquele era o instante mais do que adequado para fazê-lo.
Em Geopolítica da fome vemos um Josué de Castro tão ou mais combativo do que em Geografia da fome. Nele Castro registrou que, de um modo geral, o mundo se esquivava em discutir a calamidade da fome, mas mantinha o assunto guerra sempre na ordem do dia; que as economias européias promoveram um colonialismo desumano; que nos campos de concentração nazistas morreram milhões de pessoas, boa parte delas de fome, assim como ocorrera na Revolução Russa; que a fome e a guerra não obedecem a qualquer lei natural, porque constituem criações humanas; e rejeitou, obstinadamente, a postura dos neomalthusianos em querer justificar o quadro da miséria mundial em função da falta do controle da natalidade. (14) Devido a essa concepção desconstrutiva de supostos dogmas e teorias sem comprovação, a construção do pensamento castriano se portou como um fio cortante, como uma faca amolada querendo extirpá-los.
A necessidade não consumada. Cidadão profundamente comprometido com a erradicação dos males sociais do seu tempo – da fome em particular -, Josué de Castro acreditava firmemente que só havia um tipo verdadeiro de desenvolvimento: “o desenvolvimento do homem” . (15) Caso ainda estivesse no reino dos vivos, é de se imaginar que ficaria triste ao ver que as habitações dos miseráveis continuam se proliferando nas margens do Rio Capibaribe do seu amado Recife e que apenas mudam de nome – agora são palafitas -, porque “a cidade não pára, a cidade só cresce”, (16) mas permanece excludente. Certamente ficaria horrorizado perante a constatação de que a pobreza ainda se alastra por esse país afora, (17) e que parece ser insolúvel a questão da reforma agrária, (18) logo ele que considerava a distribuição de terras um imperativo nacional. “A pobreza é a carga autodestrutiva máxima de cada homem”, escreveu um entusiasmado Glauber Rocha. (19) “Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, é porque tudo o mais já lhe foi negado”, gritou aos brasileiros o trabalhador Herbert de Souza, o Betinho, outro exemplo grandioso de pessoa altruísta. (20) Num momento em que o mundo atravessa – ao que parece, isso é uma crise de paradigmas, evocar Josué de Castro é descortinar nossas janelas a fim de nortearmos com seu pensamento o horizonte de um futuro desejado: “É urgente restabelecer o equilíbrio econômico do mundo aterrando o largo fosso que separa os países bem desenvolvidos dos países subdesenvolvidos, sem o que é bem difícil que se consiga a verdadeira paz e tranqüilidade entre os homens”. (21) Eis a senha.

Notas

1. Franz Kafka. Um artista da Fome. São Paulo: Editora Martin Claret, 1999. Pp. 73/74. A lembrança do artista Abelardo da Hora além de oportuna neste trabalho que escrevemos com tantos sentimentos conflitantes – com antipatia e revolta, sobretudo -, é uma maneira de homenagear esse contemporâneo de Josué de Castro que soube, como poucos, fazer uso de sua veia artística para denunciar a pobreza e a fome que circundam a capital pernambucana; sua série de trabalhos Meninos do Recife, compõe um retrato pungente do espanto de um homem – e não apenas de um artista – diante do aparente inexplicável absurdo da miséria humana. Abelardo da Hora, lhe foram suficientes para a construção de suas obras fundamentais; aquelas imagens permaneceram presas, digamos, por um garfo de indignação em seu prato-vida.
A faca. A experiência de examinar parte da bibliografia produzida por Josué de Castro nos levou, logo que percorremos completamente as páginas de um de seus trabalhos, a perceber que sua missão intelectual era guiada por um firme objetivo: desconstruir determinismos, desfazer concepções que julgava errôneas. (9)
Podemos dizer que todo o pensamento castriano a cerca da fome e de suas implicações para os seres humanos, bem como o seu empenho no combate a esse mal e a outros modos de exclusão social, foram reunidos nesse livro. Em geografia da fome, Josué de Castro traçou, através dos quadros regionais brasileiros, o itinerário do fenômeno da fome que, segundo ele, produz mais estragos do que as calamidades das guerras e das epidemias juntas; e que se mantém à custa de interesses econômicos de minorias dominantes. (11) A obra, evidentemente, não se apresenta como um mero discurso de um intelectual profundamente conhecedor do assunto que estava expondo; muito mais do que isso, era um libelo contra o absurdo de existir milhões de pessoas impossibilitadas de ter acesso a algum tipo de alimento; de existir milhões de indivíduos sofrendo de doenças provadas pela desnutrição ou pela má alimentação, (12) como beribéri, escorbuto, anemias, raquitismo e pelagra que não podiam ser chamados de cidadãos, uma vez que estavam impossibilitados de exercerem sua cidadania.
Como livro-denúncia, geografia da fome não se ateve a mostrar a existência dos famintos nos quatro cantos de um país que figura entre os maiores exportadores mundiais de alimentos, mas também em enumerar os porquês da situação: as grandes lavouras monoculturas que historicamente ocuparam e ocupam extensões imensas do Brasil, causando impedimento a uma maior diversidade de produção de alimentos – “A monocultura é uma grave doença da economia agrária”, dizia ele -; some-se a isso os efeitos das condições climáticas sobre as lavouras nas diferentes regiões brasileiras impedindo o cultivo de qualquer tipo de lavoura, mas culturas específicas; a falta de políticas públicas visando o desenvolvimento das áreas mais pobres do país; a concentração dos latifúndios nas mãos de poucos, quando uma reforma agrária deveria equacionar o problema dos excluídos do banquete da terra – Castro já usava o termo “sem-terra”; ele defendia não uma simples distribuição de terras mas “um processo de revisão das relações jurídicas e econômicas, entre os que detêm a propriedade agrícola e os que trabalham nas atividades rurais”-; a tirania do desemprego, aumentando o número de pessoas sem nenhum poder de compra; e nem mesmo os que tendo o que comer, possuindo um regime alimentar que não lhes fornecia nem a quantidade nem os tipos de nutrientes necessários para a manutenção de uma vida saudável. Do alto de sua humanidade, Castro concluiu que o que escrevera fora tão-somente um livro “e não um programa de governo”. (13)
Em 1947 Josué de Castro se tornou membro do Comitê Consultivo Permanente de Nutrição do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO); em 1952 assumiu o cargo de Presidente Executivo desta entidade, permanecendo na função durante quatro anos.
Antes disso, porém, ele publicou, em 1948, seu segundo grande, livro-denúncia: Geografia da Fome. Se no estudo anterior ele se propusera a dissecar o drama da fome em nosso país, neste outro ele se dispôs a divulgar, num ato de muitíssima coragem, que o mal não era privilégio exclusivo do Brasil e das demais nações pobres do mundo, mas que se constituía numa quase metástase a se propagar em todas as direções apontadas pela rosa-dos-ventos. Sim, um ato de extrema coragem. Castro, que escreveu o livro por encomenda de uma diretora norte-americana, a Little Brown & CO., lançou num momento em que
2. Josué de Castro escreveu dois roteiros para o cinema escreveu dois roteiros para cinema: Le Cri, que foi desenvolvido na França, e O drama das secas, como aquele, filmado em 1958, mas sendo este dirigido pelo cineasta Rodolfo Nanni. Ainda na década de 1950, conta-nos Camilo Soares, o renomado diretor italiano Roberto Rossellini esteve no Brasil a fim de coletar informações para o seu projeto de filmar Geografia da Fome, que acabou engavetado. In: O cinema de Josué de Castro. Revista Continente Multicultural, Recife, outubro de 2001. Pp. 32/37. Como ficcionista Castro publicou o romance Homens e caranguejos, em 1965.
3. Orlando Parahym. Considerações sobre a fome. Revista do Conselho Estadual de Cultura (Edição especial), Recife, s. d., 121.
4. Rui Castro. Ela é carioca: uma enciclopédia de Ipanema. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. O verbete Josué de Castro na página 200.
5. Através da imprensa, alguns intelectuais buscaram denegrir a imagem de Josué de Castro, tomando como mote a vinda de Roberto Rossellini ao Brasil, em agosto de 1958. Eis dois desses registros:
“A burguesia progressista [...] é aquela que concorda em abrir para o comunismo as portas da sociedade. Essa burguesia é a do Sr. Josué de Castro, cujo livro o Sr. Roberto Rossellini, no crepúsculo de sua atividade de diretor cinematográfico, vem filmar no Brasil para exportar ao mundo a obra de um charlatão” (Carlos Lacerda, O Globo, 09 de agosto de 1958). Por seu lado o Jornal do Brasil publicou que Rosselini viera ao nosso país “colher documentação sobre o livro que não teve entre nós a menor repercussão” Apud. Camilo Soares. Op. cit., p. 36.
6. Guia Social do Recife. Recife: Oficinas Gráficas da Imprensa Oficial, 1943. P.01. De acordo com esta publicação, um levantamento realizado em 1938 contatou que existiam 45.581 dessas construções na capital, abrigando 164.837 pessoas (p.02).
7. Dulce Chaves Pandolfi. Pernambuco de Agamenon Magalhães – Consolidação de uma elite política. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, 1984. O processo de reintegração se daria com a construção de casas populares que poderiam ser adquiridas a longo prazo, de acordo com os salários dos seus ocupantes; e, também, com a criação de certos educativos, grupos escolares, cursos de arte culinária e de corte e costura, postos de assistência médica e dentária, áreas de lazer, etc. (p.61). Esse modelo vigorou plenamente até pelo menos 1945, ano de encerramento do mandato de Agamenon.
8. Zélia de Oliveira Gominho. Veneza Americana X Mucambópolis – O Estado Novo na Cidade do Recife. Recife: CEPE, 1998. Segundo a autora, já no governo do antecessor de Agamenon, Carlos de Lims Cavalcanti, em 1934, foram decretadas “medidas visando inibir e extinguir” a mucambaria da capital (p.33).
9. Percebemos isso, principalmente, no seu estudo Fatores de localização da Cidade do Recife – Um ensaio de Geografia Urbana (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1948). Desta obra selecionamos este trecho, bastante exemplar sobre a questão que levantamos, no qual Castro ataca a concepção do determinismo geográfico; nos diz ele: “A cidade é sempre um produto das possibilidades geográficas e da capacidade de utilização das mesmas pelo grupo humano local, e nela se refletem sempre as influências do meio natural e as influências do grupo cultural [...] Enfim, o que não se pode negar é que a cidade se projeta na paisagem como um signo de vitória do cultural sobre o natural [...]” (pp. 10 e 11).
10. Senador Joel de Holanda. Josué de Castro, pioneiro no combate à fome e à desnutrição. Brasília: Senado Federal, 1997. Discurso. P.03.
11. Josué de Castro. Geografia da Fome – O dilema brasileiro: pão ou aço. 4ª ed. Rio de Janeiro Civilização Brasileira, 2004. Pp. 12 e13. Castro dividiu o mapa brasileiro em cinco áreas alimentares, apontando três delas como zonas de fome: Área do Nordeste açucareiro e a Área do sertão nordestino. As outras duas são: Extremo Sul e Centro-Oeste. “Consideramos áreas de fome aquelas em que pelo menos a metade da população apresenta nítidas manifestações carenciais no seu estado de nutrição, sejam estas manifestações permanentes (áreas de fome endêmica), sejam transitórias (áreas de epidemia da fome)” (p.35).
12. Ibid., p. 18. O autor faz uma diferenciação entre os dois tipos de fome: uma seria a fome absoluta, quando o indivíduo é privado de qualquer tipo de alimento; o outro seria a fome relativa – fome parcial ou oculta, conforme as expressões que ele utilizou -, que ocorre quando são ingeridos alimentos que não tem todos os nutrientes necessários para a manutenção da vida.
13. Para a construção desse parágrafo utilizamos as seguintes páginas da citada obra: lavouras monoculturas (86, 87, 95 e 105); condições climáticas (199, 202 e 204); Falta de políticas públicas (271 e 272); os latifúndios (284, 285 e286); o desemprego (124, 126 e 244); alimentação deficiente (954, 58, 65, 71, 122, 139, 140, 192, 249, 251, 252, e 260). As citações textuais conforme a ordem em que aparecem, estão nas páginas 109, 286 e 289.
14. Josué de Castro. Geografia da fome – Ensaios sobre os problemas de alimentação e de população do mundo. Rio de Janeiro: Editora Casa do estudante do Brasil, 1951. Para a construção desse parágrafo utilizamos as seguintes páginas: 18, 20, 21, 27, 28, 29 e 30. De acordo com as teorias formuladas pelo economista inglês Robert Malthus, em fins do século XVIII, as populações humanas crescem em progressão aritmética (por adição), o que resultaria em um volume de pessoas bem maior do que a capacidade de alimentá-las. Malthus acreditava num crescimento populacional sempre em escala ascendente, sem baixa das taxas de natalidade em todos os lugares; não levou em consideração as calamidades naturais, as guerras, as epidemias e quaisquer outras formas de ceifamento de vidas; segundo Castro, a própria história desmentiu essa previsão. Entendemos que, ao combater o pensamento dos neomalthusianos, Castro queria pôr fim ao acento tendencioso de eles falarem em crescimento populacional descontrolado atribuindo o resultado disso aos países pobres, como querendo dizer que o estado de miséria dessas nações era gerado por elas mesmas, isentando os países ricos de qualquer culpa sobre isso.
15. Josué de Castro. Fome: um tema proibido. Últimos escritos. Organização: Anna Maria de Castro. 4ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 105.
16. Chico Science e Nação Zumbi. Da lama ao caos (disco). Rio de Janeiro: Sony Music Brasil, 1994. O Movimento Mangue Beat, surgido em Olinda e no Recife, na década de 1990, foi inspirado no paralelo castriano homem e caranguejos. O verso citado é da canção A cidade.
17. Monica Weinberg. A multiplicação da pobreza. Revista Veja, São Paulo, junho de 2004. pp. 82/86. Segundo a reportagem, um dado extraído do Censo Demográfico do ano 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicou que na década passada a população de favelas aumentou a um ritmo de 2,4% ao ano, média quase três vezes superior à brasileira que foi de 0,74%.
18. João Gabriel de Lima. O MST ataca o Brasil que dá certo. Revista Veja, São Paulo, junho de 2004. pp. 44/46. De acordo com a reportagem, um levantamento realizado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário arrolou que existem 71 entidades do gênero do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) agindo no país; esse número nos dá a dimensão da questão da reforma agrária em andamento no Brasil.
19. Glauber Rocha escreveu dois manifestos: Eztetyka do sonho (1971) e Eztetyka da Fome (1965), do qual foi retirada a citação. Apud. Ivana Bentes. Apocalipse estético: Ameryka da fome, do sonho e do transe. Revista Cult, São Paulo, março de 2003. pp. 61/65.
20. Carla Rodrigues e Herbet de Souza. Ética e cidadania. São Paulo: Editora Moderna, 1994. Coleção Polêmica. p. 22. Como Josué de Castro, Betinho, que coordenou, na década de 1990, um dos maiores movimentos sociais a que esse país já assistiu, o Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, com o intuito de fazer chegar comida aos despossuídos, acreditava que a “alma da fome é política”.
21. Josué de Castro. Fome: um tema proibido. Op. cit., p. 131.