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Nome: Edson Fonseca de Queiroz Júnior
Escola: Colégio Liceu Albert Einstein
Cidade: Uberaba – MG
Professor: Não Houve
Categoria: Ensino Médio
Classificação: 2º lugar

FOME EM XEQUE-MATE

Infinitas vezes a fome bate à minha porta: Dona, tem pão?, qualquer resto de comida serve. Não tem hora, nem tempo ruim. Debaixo do sol quente, na chuva, na noite. Todo dia, todo sagrado dia a fome bate à minha porta. Ai Josué de Castro para onde foram seus ensinamentos, seus livros, suas pesquisas, tantos caminhos traçados, incansavelmente traçados para o combate a fome?

Um dos princípios fundamentais da nossa Constituição é a dignidade da pessoa humana. Vem daí a minha confusão: se a Constituição é lei e é a maior, então a quem mais recorrer quando a fome bate à minha porta? O que fazer quando a dignidade humana é colocada em xeque-mate? Ai Josué de Castro, cadê você nessa hora de fome? Ainda criança conheceu a fome nos mangues de Recife, sua terra natal, onde via homens se arrastarem pela lama em busca de caranguejo. Pobre criança, era tanta lama, miséria e fome que não mais sabia quem era bicho quem era homem. Dos olhos para o coração tanta tristeza se fez em grito de guerra e desde então esse menino de alma grande travou a luta sem trégua contra a fome. Em seus livros Geopolítica da Fome, Geografia da Fome, O Livro Negro da Fome não poupou esforços para mapear, rastrear, erradicar a fome do nosso país e do mundo. Com suas pesquisas demonstrou que a fome é uma manifestação do subdesenvolvimento econômico e a partir desta orientação iniciou a cruzada da fome para a libertação do homem deste mal social.
Aqui no Brasil existe um programa social para acabar com a fome, é o FOME ZERO, graças a Deus! Mas a campainha grita aos meus ouvidos, fome, fome, fome. Não tem dia, não tem hora, nem tempo ruim. Ai Josué de Castro que tão alto subiu, Presidente da Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas – FAO, cadê você nessa hora de fome? Morreu aos 65 anos no exílio francês em 1973, mas sua luta não foi em vão, derrubou barreiras, foi um homem universal e universal foi sua luta. A ditadura que o exilou não tirou de nós a nobreza dos seus ensinamentos e nem foi obstáculo em sua determinação na busca de um mundo sem fome.
Fome, fome, fome, não tem hora, nem tempo ruim, todo dia, todo sagrado dia. Ai Josué de Castro, quando é que essa gente grande vai ler suas obras e descobrir tantos caminhos desbravados em história, geografia, sociologia, medicina, nutrição, antropologia, todos norteados para um único fim: acabar com a fome. Observou contrastes como o caso das inundações periódicas dos rios da Amazônia e a seca do Nordeste, modelos incontestáveis de desequilíbrio social, analisou modelos políticos e econômicos, caso do colonialismo e dos latifúndios de cana-açucareira no Brasil, patamares para o subdesenvolvimento e conseqüentemente para a fome. Consagrou a influência dos indígenas e dos negros em nossa alimentação. Enumerou e demarcou áreas geográficas da fome no Brasil e no mundo, diagnosticou distúrbios nutricionais e suas causas e mais, muito mais. Enveredou-se por todos os campos do conhecimento humano numa vida completamente vivida para acabar com a fome.
Eis que abro a porta do mundo e me deparo com a fome: olhos fora da órbita, esqueletos andantes, farrapos de gente. Grito surdo de socorro, indignação da nossa alma. Ai Josué de Castro, cadê você nessa hora de fome? Médico, professor, cientista e escritor selou uma carta para o mundo – O nosso planeta será um grande celeiro com uso de tecnologia, muitas mãos, muitas terras, terras e terras para plantar e colher o nosso alimento e o grito do homem: fome nunca mais.