| Nome: Pedro Carvalhaes Vieira
Escola: Colégio Santo Antônio
Cidade: Belo Horizonte – MG
Professor: Não Houve
Categoria: Ensino Médio
Classificação: 1º lugar
O JOSUÉ DE CASTRO QUE EXISTE EM CADA UM DE NÓS
Como fazia diariamente, Zeca saiu da escola ao meio-dia e foi para casa almoçar. Seu estômago já estava inquieto e ele não via a hora de comer um delicioso bife de boi, com muito arroz e feijão, que já devia estar sendo preparado por sua mãe. Ao mesmo tempo em que fazia o trajeto, pensava na redação que iria escrever sobre a vida do pernambucano Josué de Castro para concorrer ao prêmio do Projeto Memória, organizado pela Fundação Assis Chateaubriand. Havia pesquisado muito sobre o tema e tinha a certeza de que iria fazer um bom trabalho.
No meio do caminho, enquanto andava apressado, viu uma cena corriqueira nas grandes cidades brasileiras: um menino e sua mãe pedindo esmolas para se alimentarem. Como muitos fazem, decidiu ignorar a situação e passar direto. Estava já a alguns metros dos pedintes quando começou a pensar no que havia lido sobre a trajetória de Josué Apolônio de Castro.
Brasileiro de origem humilde, nascido em Recife no ano de 1908, Josué consagrou-se internacionalmente como um dos maiores estudiosos e ativistas contra o flagelo da fome. Em 1929 formou-se em medicina pela Universidade do Brasil e, em pouco tempo, tornou-se professor de diversas universidades do País (e mais tarde do mundo), lecionando matérias ligadas ao estudo das sociedades e do homem.
Zeca também se lembrou de que Josué foi um escritor de grande talento, tendo publicado inúmeros livros, que vão desde obras de ficção como “Homens e Caranguejos” (onde o autor, voltando à sua infância, procura demonstrar como a sua convivência com a população carente de Recife o fez descobrir o problema da fome), até a cartilha “A Festa das Letras” (escrita juntamente com a poetisa Cecília Meirelles, onde o público infantil é alertado sobre a importância de uma alimentação saudável), passando pela obra prima dos estudos sobre a fome, o livro “Geografia da Fome” (que rendeu à Josué o notável Prêmio José Veríssimo, da Academia Brasileira de Letras) publicado em 1946. Não por acaso, seus escritos foram traduzidos em 25 idiomas.
Zeca achava importante frisas em seu texto a coragem com a qual Josué abordava temas polêmicos, como a precária alimentação da população carente brasileira, numa época onde assuntos como esse eram tratados como “matérias proibidas” e ignorados por todos. Sua redação não poderia deixar de dizer que Castro desenvolveu uma verdadeira ciência do problema da fome e do subdesenvolvimento, de cunho explicativo, cartesiano (com a elaboração de mapas e gráficos) e ao mesmo tempo poético (o que se comprova em parábolas como a do “Ciclo do Caranguejo”, onde o autor filosofa sobre a importância do crustáceo na vida dos habitantes dos mangues do Capibaribe). Certo mesmo, é que Zeca não deveria deixar de escrever que os estudos sociais podem ser divididos em antes e depois de Josué de Castro.
Para o estudante, o grande diferencial do pernambucano em relação aos escritores e estudiosos contemporâneos foi o poder de colocar suas idéias em prática, com o intuito de sanar os problemas sobre os quais escrevia. Josué idealizou (e dirigiu) programas e entidades como o Serviço Central de Alimentação (de 1939 a 1941), a Sociedade Brasileira de Alimentação (entre 1942 e 1944) e ocupou a presidência da Associação Mundial de Luta Contra a Fome. Em agosto de 1947 Josué foi enviado pela Food and Agriculture Organization para a Conferência de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas como Delegado do Brasil. Tantos foram os feitos de Josué, que uma só redação não seria suficiente para o estudante enumerá-los. Prova disso é que durante toda a sua vida Castro recebeu diversas premiações (nacionais e internacionais) pelo seu trabalho, como o Prêmio Internacional da Paz, em 1954, e o título de Oficial da Legião de Honra concedido pela França em 1955.
Zeca também queria citar uma frase de Josué de Castro que para ele sintetizava toda a sua essência humanista: “Sou um homem interessado no espetáculo do mundo”. Na verdade, o mundo também se interessou por Josué e seus trabalhos, tendo ele sido admirado por milhares de pessoas ao redor do globo, dentre elas figuras ilustres como o antropólogo Darcy Ribeiro que, certa vez, afirmou que Castro era a pessoa mais brilhante que ele já havia conhecido. Gênios da escrita como Raquel de Queiroz e Jorge Amado também exaltaram publicamente as qualidades de Josué, elogiando sua atuação como cientista, político e escritor. Em 1958, a escritora Pearl Buck, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura, expressou publicamente sua admiração pela racionalidade presente nas idéias de Castro, dizendo que seus escritos representavam uma “renovada esperança para a humanidade”. Até mesmo o jornal inglês “The Sunday Sun” afirmou, em artigo assinado por R.K. Gerrie, que o livro “Geopolítica da Fome”, outra brilhante publicação de Josué, poderia se tornar um dos maiores documentos humanos da história.
O menino sabia que era importante mostrar que Josué de Castro não se dedicava apenas ao estudo da fome, mas também a todos aqueles que diziam respeito ao Brasil e ao mundo de sua época. Josué acreditava que a reforma agrária deveria ir além da simples desapropriação e redistribuição das terras. Julgava necessária uma verdadeira revisão das relações jurídicas e econômicas entre aqueles que detinham a propriedade agrícola e aqueles que trabalhavam nas atividades rurais. “Com certeza se a reforma agrária fosse feita no passado de acordo com as idéias de Castro, atualmente não teríamos tantos conflitos fundiários” concluiu Zeca.
Nesse momento o estudante parou em frente a uma banca de revistas e reparou nas manchetes dos principais jornais: “GOVERNO DOS EUA MANDA MAIS TROPAS PARA O IRAQUE”, “ATAQUE TERRORISTA MATA DEZENAS EM ISRAEL”, “PALESTINOS PROTESTAM CONTRA O ATAQUE DE ISRAEL A CIVIS” e “EUROPA REFORÇA A SEGURANÇA EM SEUS AEROPORTOS”. O mundo do século XXI havia se transformado numa tragédia grega, muito diferente do espetáculo que Josué havia sonhado em assistir. Logo se lembrou que ele também havia escrito muito sobre a questão da guerra em seu tempo, uma vez que vivenciou as principais delas no século XX. Nas suas obras, defendia a transformação desta “economia de guerra” (que ainda perdura no mundo) numa “economia de paz”, com a utilização dos recursos financeiros poupados no desenvolvimento pacífico e igualitário dos países necessitados. Castro também se preocupava com os problemas ambientais, que ainda assolam o mundo através de fenômenos como o “efeito estufa” e o “El Niño”, frutos da negligência do homem em relação à natureza ao longo do século passado. Certa vez, afirmou que a solução única para os problemas do meio ambiente no planeta seria a junção dos países, formando uma “instância planetária e soberana” para impor regras internacionais que visassem à preservação da natureza. De fato, desde a segunda metade do século XX, os países “conscientes” vêm organizando conferências e protocolos, como a “Rio-92”, para a discussão dos problemas ambientais.
Zeca também se recordou de que deveria contar que Josué teve intensa participação na vida política do Brasil de seu tempo, tendo sido eleito Deputado Federal pelo Estado de Pernambuco (de 1954 a 1962) e nomeado Embaixador do Brasil na ONU, em Genebra (de 1962 a 1964). Nesse ano, em virtude do golpe militar, foi afastado de suas funções como Embaixador do Brasil na Suíça, tendo seus direitos políticos injustamente cassados em abril, através do Ato Institucional nº 1. Seguiu então para o seu exílio na França (país que escolheu dentre muitos outros convites), onde permaneceu como professor universitário até a sua morte em 24 de setembro de 1973. Durante esse tempo em Paris, Josué viveu deprimido e saudoso de sua pátria, saudade que conforme ele mesmo afirmou “também mata”.
Enfim Zeca passou em frente aos mendigos, quando o menino se dirigiu a ele:
— Moço, me ajuda porque a minha mãe está com muita fome e eu também! – disse sem esperanças.
As palavras do menino tocaram o estudante. Depois de tudo o que havia lido sobre a vida de Josué de Castro não podia continuar ignorando o problema da fome. Sabia que não poderia acabar com a fome no mundo, mas espelhado no exemplo de Josué, resolveu fazer a sua parte:
— Meu nome é Zeca! Também estou com fome, vocês não querem ir lá em casa almoçar comigo?! – indagou contente.
Os pedintes ficaram assustados, pois nunca ninguém os havia tratado daquela forma. Já haviam recebido cestas de alimentação, pães velhos e dinheiro, mas nunca haviam sido convidados para almoçar na casa de alguém. Sentiram-se importantes e dignos, como há muito tempo não se sentiam. Aceitaram o convite e foram para a casa de Zeca. Chegando lá, o estudante explicou tudo a sua mãe que, num primeiro momento, ficou aterrorizada com a idéia:
— Meu filho você enlouqueceu? Essa gente é perigosa, vão roubar nossa casa, nos matar, nos fazer reféns!
— Está vendo mãe, a senhora está agindo como o “um terço da população que não dorme com medo daqueles que têm fome”, como dizia o Josué de Castro!
— Josué de Castro? É algum novo cantor, artista de novela ou participante de “reality show”?
— Não, mãe! Se a senhora soubesse um pouquinho só sobre Josué de Castro, não estaria dando esse ataque e concordaria comigo em ajudar aquela família! Pense bem, poderia ser nós dois!
— Está certo! Você venceu! Chame-os aqui para cima, afinal eles são tão gente quanto a gente, não é?
— É! E não pense que a senhora vai dormir sem saber quem foi um brasileiro “faminto” em ajudar o Brasil.
Naquele dia, de certo modo Zeca interferiu na fome do mundo. Fazendo sua parte, conseguiu apaziguar a perturbação fisiológica que fazia uma mãe e seu filho, brasileiros, seres humanos, sofrerem como não mereciam. Pelo menos por algumas horas eles não precisariam sentir a dor e a aflição de serem “devorados” por ela. Zeca não cruzou os braços, inerte, na espera das ações de governantes ou de terceiros. Não se enganou pensando que o problema daqueles pedintes não era seu também. Agiu de maneira correta e cidadã, provando ser mais consciente do que muitos adultos, embora ações como distribuições de cestas básicas, refeições gratuitas (ou a preços acessíveis) e doações de dinheiro para pessoas carentes, mesmo sendo importantes, apenas remediam esta doença social chamada fome, que só será erradicada com a inserção destes excluídos sociais no mercado de trabalho, com acesso à educação de qualidade para seus filhos.
O combate à fome deve tornar-se uma cruzada pessoal para cada um de nós, assim como ele o foi para Josué Apolônio de Castro. Devemos tomar conhecimento de que a fome gera e alimenta muitos outros males, como a grave violência que impera nos grandes centros urbanos, minando e destruindo a vida dos cidadãos. É preciso também compreender que a melhora das condições alimentícias da população carente não é um feito utópico, mas sim uma vitória que pode ser obtida com atos simples do cotidiano, aliados às ações em grande escala de nossos governantes. Ao ajudar aquela família, Zeca demonstrou que dentro dele, Josué ainda vivia. Acabar com a fome no Brasil é, sem dúvida, despertar o Josué de Castro que existe dentro de cada brasileiro! E então? Vamos começar?
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