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Nome: Renato de Castro Lopes
Escola: Colégio Marista São Luís
Cidade: Recife – PE
Professor: Morgana Soares e Gisela Moraes
Categoria: Ensino Fundamental – 5ª a 8ª séries
Classificação: 3º lugar

UM MUNDO SEM FOME

Assim Josué de Castro descrevia sua infância:

“... durante muitos anos, morávamos numa velha casa colonial com a madeira das janelas toda descascada, fincada à beira do rio, como uma fortaleza trepada em altos batentes, ficando, em tempo de cheia, inteiramente cercada de água, com caranguejos subindo pelas paredes até o terraço, os mais ousados entrando sala adentro. Bem do lado da casa, começava um bairro de mocambos, verdadeiras cumbucas negras parecendo boiar sobre as águas dos mangues”.

À imagem dos mangues, Josué passou a compreender o fenômeno da fome. Percebeu a estranha semelhança entre os moradores do mangue e os caranguejos ambos cobertos de lama, famintos e não adaptados à vida na cidade. Os homens sobreviviam catando os caranguejos e os caranguejos com os dejetos humanos.
Em 5 de setembro de 1908, nascia Josué Apolônio de Castro, filho único de Manoel Apolônio de Castro e de Josepha Carneiro de Castro, na cidade de Recife. O pai de Josué veio com a família de Cabeceiras, no alto sertão paraibano, durante a grande seca de 1877. Era proprietário de terras e mercador de gado e leite. Josepha Carneiro também conhecida como “Dona Moça”, era filha de senhor de engenho da zona da mata pernambucana, e tornou-se professora em Recife.
Pernambuco estava estagnado economicamente e com sua gente sofrida. A situação agravou-se com as terríveis secas que se sucederão no final do século XIX. Só na grande seca de 1877 a 1879, a qual os pais de Josué vivenciaram, morreram cerca de 300 mil pessoas. As secas continuaram em 1888/1889 e 1898/1900. Com a economia em crise, alguns buscaram migrar para outras regiões do país.
Com sacrifício, os pais de Josué queriam que seu filho estudasse medicina na Bahia. Lá, ele permaneceu por três anos e concluiu a Faculdade no Rio de Janeiro em 1929.
Durante o período em que estudou, na Faculdade da Bahia, ao ver um estudo de Arthur Ramos, um colega da Faculdade, publicado nas páginas de “O Jornal”, o jovem Josué se sentiu motivado a escrever seu primeiro ensaio, A Literatura moderna e a doutrina de Freud, publicado na “Revista de Pernambuco”.
De volta a Recife, o jovem médico e professor casa-se em 1934 com sua ex-aluna, Glauce Rego Pinto, com quem veio a ter três filhos: Josué Fernando, Anna Maria e Sonia.
A partir de 1936, Josué passa a lecionar Antropologia na Universidade do Distrito Federa e, em 1946, participa da fundação e torna-se o primeiro diretor do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Trabalhando como médico em uma grande fábrica, pela primeira vez, pôde avaliar as conseqüências da fome, em episódio narrado por ele:
“Comecei, também, a trabalhar numa grande fábrica e a verificar que os doentes não tinham uma doença definida, mas não podiam trabalhar. Eram acusados de preguiça. No fim de algum tempo, compreendi o que se passava com os enfermos. Disse aos patrões: sei o que meus clientes têm. Mas não posso curá-los porque sou médico e não diretor daqui, A doença desta gente é fome. Pediram que eu me demitisse. Saí. Compreendi, então, que o problema era social. Não era só do Mocambo, não era só do Recife, nem só do Brasil, nem só do continente. Era um problema mundial, um drama universal”.

Percebendo a evidente limitação da Medicina para tratar da doença da fome, Josué procurou outras áreas de conhecimento e atuação relacionando-as com o conhecimento e atuação relacionando-as com o conhecimento médico, o que se tornou a marca de suas futuras obras.
O brilhantismo intelectual de Josué de Castro foi reconhecido internacionalmente após a publicação de Geografia da Fome, em 1946.
Em 1948, Josué participa, como delegado do Brasil, da Primeira Conferência Latino-Americana de Nutrição, em Montevidéu, promovida pela FAO, Órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, e é escolhido como membro do Comitê Consultivo Permanente de Nutrição deste órgão. Em 1950, Josué organiza a Segunda Conferência Latino-Americana de Nutrição da FAO em Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro.
Em 1952, Josué foi eleito Presidente do Conselho Executivo da FAO, sediado em Roma, permanecendo no cargo por dois mandatos sucessivos, até 1956. Durante sua gestão, Josué promoveu a realização da Terceira Conferência Latino-Americana de Nutrição, em 1953, na Venezuela. Também idealizou uma “reserva internacional contra a fome” para ajudar países em situação emergencial.
A voz política de Josué de Castro foi silenciado no País após o golpe militar de 1964, que interrompeu sua carreira de, então Embaixador do Brasil junto à ONU. Seus direitos políticos foram cassados por dez anos, com a edição do Ato Institucional 1º 1 de 9 de abril.
No exílio, em Paris, apear de sua contínua atividade, era visível a sua crescente tristeza com o afastamento imposto pelo Regime Militar. Josué Montello percebeu isto e registrou em seu livro de memórias a visão de Josué de Castro nas ruas de Paris:
“Nunca esquecerei o encontro que tive no Boulevard Saint Germain, numa fria tarde de outono, por entre folhas caídas e vento áspero, sobretudo, o passo vagaroso, o olhar ensimesmado e distraído. Vinha vindo pela calçada fronteira, como se não soubesse em que se ocupar na tarde cinzenta, longe de sua pátria, longe de seus livros, longe se seus amigos. Para mim, que o conhecera extrovertido e fluente, sua figura alta e triste impressionou. Dir-se-ia que o exílio tinha-lhe tocado a fonte da vida”.
Em Paris, falece no dia 24 de setembro de 1973. Com discurso do amigo Barbosa Lima Sobrinho, seu corpo foi enterrado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Aos poucos o Brasil começa a resgatar a obra do homem que ousou sonhar com UM MUNDO SEM FOME.