UM HOMEM DE MÚLTIPLAS ATIVIDADES

Foto de formatura de Josué de CastroO Médico
Graduado em medicina, pôde, sob o aspecto biológico, conhecer o homem e compreender suas carências e necessidades. Esta foi a sua porta de entrada para o mundo da ciência. No início da década de 1930, começou a clinicar em Recife. Chegou à nutrição por acaso. É ele mesmo quem afirmava:

"Eu, na realidade queria ser psiquiatra mas o Ulhoa Cintra (outro médico) tinha dois aparelhos de metabolismo. Me vendeu um e resolvi fazer nutrição. Um só livro O Tratado de Umber figurava na biblioteca. As doenças da nutrição eram cinco na época: obesidade, magreza, diabete, gota e reumatismo. Como era coisa nova, passei a ter uma clínica brutal, apesar de minha cara de menino que assustava os primeiros clientes".

Começou também a trabalhar como médico em uma grande fábrica. Foi nesta fábrica que pela primeira vez pôde avaliar as conseqüências da fome, em episódio por ele narrado:Diploma de médico

"Comecei, também, a trabalhar numa grande fábrica e a verificar que os doentes não tinham uma doença definida, mas não podiam trabalhar. Eram acusados de preguiça. No fim de algum tempo, compreendi o que se passava com os enfermos. Disse aos patrões: sei o que meus clientes têm. Mas não posso curá-los porque sou médico e não diretor daqui. A doença desta gente é fome. Pediram que eu me demitisse. Saí. Compreendi, então, que o problema era social. Não era só do Mocambo, não era só do Recife, nem só do Brasil, nem só do continente. Era um problema mundial, um drama universal".

Ficou evidenciada a limitação da Medicina para tratar da doença da fome, o que levará o inquieto Josué a procurar outras áreas de conhecimento e atuação relacionando-as com o conhecimento médico, o que será a marca de suas futuras obras.

A partir de sua prática realiza, em 1932, o inquérito As condições de vida das classes operárias do Recife, o primeiro do gênero no país, onde Josué assinala a gravidade dos efeitos da fome, na época ocultada por explicações baseadas em preconceitos raciais e climáticos. Pela primeira vez são estabelecidas relações diretas entre a produtividade do trabalhador e sua alimentação, bem como são examinadas suas condições de vida, seu tipo de moradia e seu salário. Este trabalho pioneiro foi um divisor de águas para a história da nutrição no Brasil. A partir de sua publicação já era possível identificar nos jornais notícias sobre o que se denominou “alimentação racional do povo”. Este inquérito acabou sendo uma das bases para a institucionalização do salário mínimo no governo de Getúlio Vargas, em 1940.
No Rio de Janeiro, abre seu consultório médico como clínico e especialista em doenças de nutrição em 1936, e o manterá até 1955.

Josué foi professor em várias Universidades

O Professor
Homem profundamente inteligente, metódico e determinado construiu uma sólida base científica que pôde exercitar, principalmente, na atividade docente que, sem sombra de dúvida, foi a que mais lhe trouxe satisfação, quer pelo contato com os jovens ou por lhe permitir produtivo trabalho de pesquisa.

Em 1932, Josué torna-se livre-docente em Fisiologia na Faculdade de Medicina do Recife com a tese O problema fisiológico da alimentação no Brasil, publicado no ano seguinte, na qual aborda as necessidades específicas da alimentação no contexto brasileiro.

No ano seguinte, participa do grupo que idealiza e funda a Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais do Recife, onde trabalha como professor de Geografia Humana.

Jamesson Ferreira de Lima descreve os méritos do jovem professor:

"Corria o ano de 1934 e com ele a fama de um docente de fisiologia, bem moço, da Faculdade de Medicina do Recife, no Derby, dizendo-se que a magia de sua palavra imobilizava os ouvintes.

E um dia, naquele tempo, Aloysio André Gomes retirou da sombra do arvoredo copado, no oitão da escola, “O Casíno” – como era chamado – um grupo de colegas seus, do segundo ano curricular, para ouvir o professor da palavra encantada, que se chamava Josué de Castro.

Fui, com ele, Luiz Montenegro Chaves, ao lado de outros e nos deparamos na sala de aula, com um jovem moreno, na casa dos vinte, magro e alto, de calças escuras e paletó pesado, cinzento esverdeado, estilo europeu, falando sobre metabolismo basal.

O assunto pouco tinha de particularmente agradável. Ao contrário, era meio difícil e técnico. Mas o conteúdo decorria em prosa ágil, viva, e a figura do expositor se situava numa contradição entre o ar pretensioso e a maneira simpática e eloqüente da preleção".



No Rio de Janeiro, Josué prossegue sua carreira de professor, a partir de 1936, lecionando Antropologia na Universidade do Distrito Federal.

Josué na inauguração do Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil/RJEm 1946, participa da fundação e torna-se o primeiro diretor do Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil, atual Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Efetiva-se, em 1948, através de concurso, como professor da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, para a cátedra de Geografia Humana, defendendo a tese Fatores de localização da cidade do Recife, publicada no mesmo ano. Permanecerá professor até 1964.

Em 1950 recebe condecorações como professor Honoris-Causa da Universidade de San Domingos, na República Dominicana, e da Universidade de San Marcos, no Peru.

No exílio em Paris, é designado, em 1969, Professor Estrangeiro Associado ao Centro Universitário Experimental de Vincennes (Universidade de Paris VIII), como responsável pela cadeira de Geografia dos Países Subdesenvolvidos. Também participa do corpo docente de pós-graduação no Instituto de Altos Estudos para a América Latina, da Universidade de Paris.


Josué com o físico americano OppenheimerO Cientista
Um aspecto que merece destaque, na sua formação, é a extrema sensibilidade que Josué desenvolveu e que foi capaz de lhe permitir a perfeita análise e interligação de fatos, aparentemente distantes do ponto de vista científico. Foi desta forma, considerando conceitos multi e interdisciplinares, que concebeu seus principais estudos.
Para compreender a fome, seu principal objeto de estudo, entendia que eram necessários conhecimentos fisiológicos articulados com conhecimentos das ciências sociais. Vale-se da Geografia Humana para ordenar as características regionais de alimentação.

As Ações Públicas

O êxito de suas investigações, além de sua grande capacidade de comunicação, levaram Josué a uma posição de destaque na organização de políticas públicas para a nutrição.

Em 1940, participa da Sociedade Brasileira de Alimentação, composta de futuros dirigentes do Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), criado no mesmo ano. Entre as ações do SAPS destacam-se a criação de restaurantes populares, o fornecimento de alimentos por alguns empregadores e a participação na educação alimentar:

No mesmo ano é criada a Sociedade Brasileira de Nutrição, da qual Josué foi um dos fundadores e presidente por dois anos. Esta sociedade buscava colaborar com o Estado na execução de políticas públicas e promover estudos e pesquisas que tratassem da alimentação como uma questão social.

Vários países da América Latina o convidam para colaborar com a elaboração de projetos para a alimentação.

Em 1943, idealiza e é designado Diretor do Serviço Técnico de Alimentação Nacional (STAN) que surge no contexto da desestruturação da economia mundial durante a II Guerra. O STAN realizou pesquisas e experimentos na área de tecnologia alimentar e publicou o periódico Arquivos Brasileiros de Nutrição, a partir de 1944.

Em 1945, O STAN é substituído pela Comissão Nacional de Alimentação (CNA), que Josué de Castro passa também a dirigir até 1954. Era um órgão do Conselho Federal de Comércio Exterior que tratava de dar um caráter mais permanente às atividades iniciadas pelo STAN: educação alimentar e assistência à indústria nacional de alimentos.Josué no lançamento da Comissão Nacional de Bem-Estar Social (CNBS)

Em 1951, é idealizada a Comissão Nacional de Bem-Estar Social (CNBS) sob a presidência do Ministro do Trabalho e a vice-presidência de Josué
de Castro.

Castro é eleito Presidente do Conselho Executivo da FAO, Órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, sediado em Roma, ocupando este cargo entre 1952 a 1956.
A partir das conclusões resultantes da da Terceira Conferência Latino-Americana de Nutrição, em 1953, Josué apresenta no Brasil o Plano Nacional de Alimentação, sob a responsabilidade da Comissão Nacional de Alimentação.

Eleito Deputado Federal por Pernambuco, assume o mandato em 1955, quando torna-se vice-líder do PTB e Presidente da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados. Graças ao empenho de Josué, foi implantada a Campanha Nacional de Merenda Escolar, subordinada ao MEC.

Josué toma posse na presidência do Conselho Executivo da FAO, Órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação Em 1957, participa da fundação e preside a Associação Mundial de Luta Contra a Fome (Ascofam). No Brasil, uma série de ações visando o conhecimento e o combate à fome foram realizadas pela Ascofam, entre elas o I Seminário sobre Desnutrição e Endemias Rurais, na cidade de Garanhuns, em 1958, e o filme O Drama das secas, dirigida por Rodolfo Nanni, a partir de um roteiro de Josué de Castro.

É reeleito Deputado Federal por Pernambuco, em 1958, desta vez sendo o mais votado do Nordeste. Na Câmara dos Deputados, apresenta o projeto de lei que “define os casos de desapropriação por interesse social e dispõe sobre sua aplicação”, sua proposta para uma reforma agrária, em 1959.

É eleito, em 1960, Presidente do Comitê Governamental da Campanha Mundial de Luta Contra a Fome, uma iniciativa da FAO.

Josué e Abbé PierreEm 1962, é designado Embaixador-chefe da delegação do Brasil junto à ONU, em Genebra, cargo que será forçado a abandonar em 1964 pelo arbítrio do regime militar.



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