O CICLO DO CARANGUEJO

Josué sempre voltou ao mangueAssim Josué de Castro descrevia o cenário de sua infância:

"…durante muitos anos moramos numa velha casa colonial com a madeira das janelas toda descascada, fincada à beira do rio, como uma fortaleza trepada em altos batentes, ficando, em tempo de cheia inteiramente cercada de água, com caranguejos subindo pelas grades até o terraço, os mais ousados entrando sala a dentro. Bem do lado da casa começava um bairro de mocambos, verdadeiras cumbucas negras parecendo boiar sobre as águas dos mangues".


A imagem dos mangues atravessará a vida de Josué, sendo seu primeiro campo de inquietação social, a partir do qual passou a compreender o fenômeno da fome. Percebeu desde a infância a estranha semelhança entre os moradores do mangue do rio Capibaribe e os caranguejos, ambos recobertos de lama, não adaptados à vida na cidade e famintos. Os homens sobreviviam catando caranguejos enquanto os caranguejos se nutriam com os dejetos humanos.Homens se misturam à lama para pegar caranguejo

Em 1935 escreve o conto O ciclo do caranguejo, onde descreve em prosa poética a vida de uma família de habitantes dos mangues de Recife. Originária do sertão nordestino, a família migrou para a cidade fugindo dos efeitos da seca, acreditando nas promessas de uma vida melhor na cidade. Sem condições de sustentar-se, só resta para a família a opção de instalar-se no mangue, onde “o terreno não é de ninguém. É da maré.”

"Agora, quando o cabloco sai de manhã para o trabalho, já o resto da família cai no mundo. Os meninos vão pulando do jirau, abrindo a porta e caindo no mangue. Lavam as ramelas dos olhos com a água barrenta, fazem porcaria e pipi, ali mesmo, depois enterram os braços de lama a dentro para pegar caranguejos. Com as pernas e os braços atolados na lama, a família Silva está com a vida garantida. Zé Luís vai para o trabalho sossegado, porque deixa a família dentro da própria comida, atolada na lama fervilhante de caranguejos e siris".

Anos mais tarde, desenvolve seu único romance, Homens e caranguejos, de 1966, onde retorna ao cenário de sua infância, fundamental para a formação de seus conhecimentos e de sua personalidade.

Homens pensando e vivendo como caranguejos
"Procuro mostrar neste livro de ficção que não foi na Sorbonne, nem em qualquer outra universidade sábia, que travei conhecimento com o fenômeno da fome. O fenômeno se revelou espontaneamente a meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade de Recife: Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta é que foi a minha Sorbonne: a lama dos mangues do Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejos".


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