O NORDESTE E O ROMANCE BRASILEIRO

Parece-me ingênuo, mesmo sem nenhuma significação, o furor de certos críticos contra a literatura que chamam de intencional. Literatura acusada por eles de sectarista por despertar idéias num determinado sentido de busca para a solução dos nossos problemas sociais.
A impressão que eu tenho de que esse furor não tem nenhum fundamento decorre de que não acredito em literatura neutra, literatura sem tendências, enquistada no absoluto dos cânones da arte. Sem contactos estranhos, sem raízes, sem ligações com os outros aspectos sociais que definem uma cultura. E, no entanto, o que é curioso, eu sou daqueles que crêem na arte pela arte, enquanto criação consciente, individual do artista. Não vejo necessidade para o poeta, de andar metrificando sua ideologia, nem para o romancista, de jogar nas suas estórias os argumentos filosóficos de suas atitudes políticas. Sou contra os romances de tese. O artista verdadeiro não é obrigado a ser conscientemente um libelista, porta-voz dos sentimentos recalcados de angústia e de revolta dos oprimidos de uma determinada situação histórico-social. Exigir isto dele seria acabar com a arte como expressão de espontaneidade. Seria tirar exatamente o caráter de originalidade que o individual revela em suas criações. O artista pode ver e sentir o mundo livremente, sem compromissos diretos com quaisquer princípios filosóficos. Na ignorância absoluta de todos os sistemas de interpretação das verdades cósmicas. Um único compromisso, e este de vida ou de morte, é o que deve manter o artista para consigo mesmo, para com suas próprias impressões sensoriais, para com sua experiência sensível. Sem esta unidade individual entre a inteligência que exprime e a sensibilidade que fornece o material plástico de expressão não pode haver manifestação de arte verdadeira. Chamo a este um compromisso de vida ou de morte porque, de sua existência ou não resulta ou a arte verdadeira, que é eternamente viva ou o artifício do puro intelectualismo que já nasce morto e embalsamado, como cortes de matéria viva dos quais os cientistas alteram a estrutura, matando-os com corantes artificiais para obter belas imagens ao microscópio. Artifício que constitui uma grande massa do que se imprime por aí afora, páginas com frases arrebicadas e enfeitadas de adjetivos deslumbrantes. Literatura de efeitos artificiais, tendo para as pessoas de pensamento o significado dum zumbido confuso de insetos impertinentes. Agora, acontece que eu não chamo a isto literatura, embora não sinta constrangimento em chamar a seus risonhos fabricantes a “literatos”.
Esta concepção de que a arte é o fruto exclusivo dum compromisso de sinceridade me conduz de maneira categórica à idéia de que a arte é sempre tendenciosa, pois encerra em todas as suas expressões a reação do humano diante das forças circundantes e esta reação tem que ser necessariamente também uma força, e não há força sem diretriz. E quem diz diretriz, diz tendência.
Este ponto de vista, a que indutivamente a meditação nos conduz, está absolutamente de acordo com as concepções atuais acerca da evolução histórico-cultural. É esta uma idéia que já dormia intacta, completa, dentro do conceito da teoria da organicidade da cultura, de Frobenius. Dentro da concepção de que a evolução cultural se processa como num organismo, com suas fases de crescimento de maturidade e de velhice. Cada cultura sendo levada num sentido irremovível por esta força diretriz que a domina por cima dos acidentes humanos e das vontades impotentes, traçando o seu ciclo de ascendência, de estagnação e de decadência final. Dentro do conceito fundamental de que o característico de um determinado momento histórico é a intensidade impulsiva de sua diretriz cultural.
Os aspectos radicalmente diversos, nos quais se apresentaram aos historiadores do século passado, os vários ambientes culturais, dando-lhes o falso conceito de diferentes psicologias raciais, foram simplesmente o resultado da comparação absurda entre culturas que estavam em diferentes estádios do seu ciclo. Foi o que condicionou o erro do psicólogo francês Dallaye, quando quis caracterizar psicologicamente as três raças: a. branca, a negra e a amarela, através duma expressão temporal momentânea de sua história e afirmou que o branco vive no futuro, o negro no presente e o amarelo no passado, dando a entender através dessa psicologia estática das raças que eles sempre viveram e viverão assim. Ignorando, portanto, Dallaye, a noção dos ciclos de cultura que, sobre o material de pesquisas de Frobenius, Spengler desenvolveu com uma argumentação genial. A cultura abrange em seu organismo todas as manifestações sensíveis e espirituais do humano: a beleza artística, a verdade científica, o conceito filosófico, a estrutura política, a fé religiosa; tudo isto se exprimindo numa interpenetração orgânica dentro do princípio biológico da solidariedade das partes para a manutenção do todo.
Quando Taine dizia que sem filosofia o sábio não passa de um obreiro e o artista, de um diletante, referia-se intuitivamente à necessidade de que o individual esteja preso ao consenso universal, através de quaisquer interpretações, para que suas expressões tenham um significado de verdades ou de belezas. Através de interpretações que, como sabemos hoje, nascem dos anseios explicativos individuais, no momento em que o inconsciente coletivo dos estados pré-culturais em comoção os cristaliza numa concepção sintética, que passa a ser o “símbolo primário”, o retrato figurado do universo de uma determinada cultura. A filosofia a que se refere Taine jaz no inconsciente individual como emanação da alma da cultura – o “Paideuma” de Frobenius.
Agora já se pode destacar dum determinado rosto cultural, desligando-se e renegando suas outras expressões, para se comprazer no belo absoluto, isento das contingências humanas. Exatamente da maior das contingências, que é a necessidade de uma tendência, de uma diretriz a seguir. Não pode haver vida social sem tendências. O estilo político, moral e estético é o resultado do esforço do humano num determinado sentido a que o impulso cultural o levou. No momento em que este estilo se gasta e perde sua significação, está morto e logo recomeça a criação de um outro, porque a humanidade só pode viver dentro de algum estilo que lhe dê forma orgânica. Assim nascem e morrem os vários ciclos culturais. Dentro desse imperativo de sinceridade a que o artista é compelido, ele será sempre tendencioso, porque o seu mundo interior não poderá ser nunca uma paisagem inanimada; será sempre uma paisagem humana, em marcha, em contínua transformação, a cada momento tendendo a alguma coisa, eternamente vindo a ser…

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A literatura brasileira como expressão de arte foi, durante muito tempo, em sua grande maioria, um desmentido categórico a este ponto de vista. É que grande maioria equivalia, realmente, a uma expressão de arte. Era, apenas, um artifício de preciosismo. Nos primeiros tempos de colonização, o elemento europeu, ainda inteiramente desvinculado no meio, prestou-se admiravelmente a este torneio literário, onde o mérito consistia em movimentos complicados e o belo residia no rebuscado, no difícil. Literatura de calembur, de glosas, de trocadilhos. Arte de paciência como a de Brito e Lima “que escreveu não sei quantas oitavas sobre o número cinco”.
Se no começo foi assim, pouca mudança foi havendo até perto dos nossos dias. O nosso romantismo foi puramente de importação, influência tardia de Byron e Musset sobre os nossos homens de letras de olhos voltados para a Europa melancólica. O mesmo se deu com os chamados parnasianos, impressionistas e simbolistas, todos artificialistas da palavra, escravos do intelectualismo. Fizeram exceção alguns poucos criadores de nossa arte verdadeira: um Machado de Assis, um Aluísio de Azevedo, um Lima Barreto, um Raul Pompéia, um Manuel Almeida, que, escrevendo as audaciosas “Memórias de um Sargento de Milícias”, criou, sem dúvida, o primeiro romance proletário no Brasil. Nestes, é claro que se sente um sentimento social vinculado ao nosso meio. Infelizmente, foram poucos estes espíritos criadores, para dar relevo e força de projeção à arte brasileira. A força de sinceridade deles diluiu-se no largo mar cintilante de artifícios; e o romance brasileiro continuou a não existir como arte autêntica, mas, apenas, como processo literário.

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Estava a coisa neste pé quando irrompeu a fumarada vulcânica. Desabafo quase de brutalidade, expressão dum cataclismo que muito pouca gente pressentiu. Foi no meio da planície parada do Nordeste contemplativo que reboou a explosão. Do meio daquela gente de cordatos e conformados que sempre esteve de acordo com o resto do Brasil em política, idéias e vestuário e principalmente em filosofia e estética, saltou um grupo de rebelados. Grupo que cantou alto, noutro tom, que desafinou do coro, que desconcertou a banda. Foi esta, a explosão vulcânica no meio da planície silenciosa. Saiu do Nordeste resignado, a primeira fornada de verdadeiros romancistas brasileiros. Romancistas chamados de proletários, porque se meteram por lugares escusos onde só os pobres penetram e de lá vieram com um cheiro travoso de vida. Cheiro irritante e desagradável para os meios limpos e corretos. Romancistas que substituíram as mulheres fatais, os heróis bem acabados e o amor impossível, pela vida simples, mas esgravatada a fundo, espremida, desmascarada, sem constrangimentos hipócritas. Gente sem-cerimônia e principalmente sem belas mentiras convencionais. Gente que cumpre com o compromisso de sinceridade a que me referi e cria naturalmente arte verdadeira.
Foi o clima humano do Nordeste que amadureceu o sentido do verdadeiro brasileirismo, na consciência dos intelectuais. É que o Nordeste é, de todo o território brasileiro, a zona que contém maior sentido de tragédia. Keyserling diz que o habitante do deserto tem consciência, antes de tudo, do trágico da vida, e o sertanejo do Nordeste é habitante dum deserto geográfico e demográfico, vivendo, pois, embebido deste sentido que cria no espírito uma grande força latente, recalcada. Força que, num momento dado, pode transformar o sentido trágico num sentido heróico e alcançar supremas realizações. Uma dessas superações é o romance brasileiro, escrito no Nordeste. De há muito sentia o Nordeste a sua tragédia, mas só agora, através da experiência cultural, ele compreendeu esta tragédia. O romance do Nordeste foi a revelação brusca deste momento de compreensão e interpretação humanas – de unificação da inteligência e da sensibilidade brasileiras.
A atitude de aparente comodismo, em que o Nordeste se arrastou durante muito tempo, dando a impressão de verdadeira decadência intelectual, foi apenas a fermentação criadora e condensadora do clima humano capaz de produzir esta leva de romancistas brasileiros, possuidores dum sentido integral do nosso povo e da nossa terra. Romancistas como Graciliano Ramos, o grande mestre da narração, identificado de corpo e alma com a tragédia da miséria nordestina; como Jorge Amado que se injetou de sentimento negro até se contaminar por completo, agir intelectualmente como símbolo da raça; como Jorge de Lima mergulhando na lama humana da Lagoa de Mundaú; como José Américo que foi durante certo tempo duma sinceridade comovedora, sentindo até à medula, a tragédia da serra nordestina; como Raquel de Queirós, com o corpo solto pelas ruas, mas com o coração sempre conscientemente batendo dentro das grades das cadeias, de encontro a outros corações sentenciados; como José Lins do Rêgo, que se mostrou nos seus primeiros livros um bom desenhista da paisagem humana na área da cana do açúcar; como Amando Fontes, como Permínio Asfora. Esta gente tola, chamada, por certos críticos, de sectária, de intencional num sentido pejorativo. Os críticos mais desabusados e mais enfurecidos, largando mão das metáforas, chamando-os logo de extremistas. Extremistas porque não usam um cristal verde diante dos olhos como Nero nos circos romanos ou como os verdadeiros extremistas obcecados por uma utopia. Ou porque não confiaram muito na História do Brasil dos livros, foram ver mesmo como era, e escreveram então uma história do Brasil diferente ou uma história diferente do mesmo Brasil, segundo a gente concorde ou discorde deles. Alguns ensaístas inteligentes e cautelosos elogiam a obra, reconhecem sua sinceridade como documento humano, mas, na hora de aplaudir publicamente, dizem que, como ideologia, estão inteiramente em desacordo com o romancista e, por isso, condenam a obra. Ninguém perguntou por isto, ninguém falou em ideologias. Não é preciso ser católico para reconhecer o talento poético dos srs. Vinicius de Morais e Murilo Mendes. Também no romance o talento criador desses homens veio dar à nossa literatura um caráter de sinceridade e de absoluta seriedade. E isto é que é essencial. Artisticamente, pouco importa que eles sejam socialistas ou democratas, comunistas ou católicos, desde que mostrem sinceramente a realidade brasileira. Com esta sinceridade que arrasta naturalmente o drama a uma expressão lírica impressionante.
Não gostar de “O Quinze”, do “Jubiabá”, do “Corumbas” por serem livros tendenciosos me parece uma atitude boba, muito parecida com a daquele camarada que assistia numa igreja, com a cara impassível, a um sermão tão eloqüente e humano que toda a igreja soluçava; e como um devoto ao seu lado lhe perguntasse curioso se não lhe vinha vontade de chorar, respondera com um tom de quem apresenta razões supremas: – “Pois, se não sou desta paróquia”.