Parece-me ingênuo,
mesmo sem nenhuma significação, o furor de certos críticos
contra a literatura que chamam de intencional. Literatura acusada
por eles de sectarista por despertar idéias num determinado
sentido de busca para a solução dos nossos problemas
sociais.
A impressão que eu tenho de que esse furor não tem nenhum
fundamento decorre de que não acredito em literatura neutra,
literatura sem tendências, enquistada no absoluto dos cânones
da arte. Sem contactos estranhos, sem raízes, sem ligações
com os outros aspectos sociais que definem uma cultura. E, no entanto,
o que é curioso, eu sou daqueles que crêem na arte pela
arte, enquanto criação consciente, individual do artista.
Não vejo necessidade para o poeta, de andar metrificando sua
ideologia, nem para o romancista, de jogar nas suas estórias
os argumentos filosóficos de suas atitudes políticas.
Sou contra os romances de tese. O artista verdadeiro não é
obrigado a ser conscientemente um libelista, porta-voz dos sentimentos
recalcados de angústia e de revolta dos oprimidos de uma determinada
situação histórico-social. Exigir isto dele seria
acabar com a arte como expressão de espontaneidade. Seria tirar
exatamente o caráter de originalidade que o individual revela
em suas criações. O artista pode ver e sentir o mundo
livremente, sem compromissos diretos com quaisquer princípios
filosóficos. Na ignorância absoluta de todos os sistemas
de interpretação das verdades cósmicas. Um único
compromisso, e este de vida ou de morte, é o que deve manter
o artista para consigo mesmo, para com suas próprias impressões
sensoriais, para com sua experiência sensível. Sem esta
unidade individual entre a inteligência que exprime e a sensibilidade
que fornece o material plástico de expressão não
pode haver manifestação de arte verdadeira. Chamo a
este um compromisso de vida ou de morte porque, de sua existência
ou não resulta ou a arte verdadeira, que é eternamente
viva ou o artifício do puro intelectualismo que já nasce
morto e embalsamado, como cortes de matéria viva dos quais
os cientistas alteram a estrutura, matando-os com corantes artificiais
para obter belas imagens ao microscópio. Artifício que
constitui uma grande massa do que se imprime por aí afora,
páginas com frases arrebicadas e enfeitadas de adjetivos deslumbrantes.
Literatura de efeitos artificiais, tendo para as pessoas de pensamento
o significado dum zumbido confuso de insetos impertinentes. Agora,
acontece que eu não chamo a isto literatura, embora não
sinta constrangimento em chamar a seus risonhos fabricantes a “literatos”.
Esta concepção de que a arte é o fruto exclusivo
dum compromisso de sinceridade me conduz de maneira categórica
à idéia de que a arte é sempre tendenciosa, pois
encerra em todas as suas expressões a reação
do humano diante das forças circundantes e esta reação
tem que ser necessariamente também uma força, e não
há força sem diretriz. E quem diz diretriz, diz tendência.
Este ponto de vista, a que indutivamente a meditação
nos conduz, está absolutamente de acordo com as concepções
atuais acerca da evolução histórico-cultural.
É esta uma idéia que já dormia intacta, completa,
dentro do conceito da teoria da organicidade da cultura, de Frobenius.
Dentro da concepção de que a evolução
cultural se processa como num organismo, com suas fases de crescimento
de maturidade e de velhice. Cada cultura sendo levada num sentido
irremovível por esta força diretriz que a domina por
cima dos acidentes humanos e das vontades impotentes, traçando
o seu ciclo de ascendência, de estagnação e de
decadência final. Dentro do conceito fundamental de que o característico
de um determinado momento histórico é a intensidade
impulsiva de sua diretriz cultural.
Os aspectos radicalmente diversos, nos quais se apresentaram aos historiadores
do século passado, os vários ambientes culturais, dando-lhes
o falso conceito de diferentes psicologias raciais, foram simplesmente
o resultado da comparação absurda entre culturas que
estavam em diferentes estádios do seu ciclo. Foi o que condicionou
o erro do psicólogo francês Dallaye, quando quis caracterizar
psicologicamente as três raças: a. branca, a negra e
a amarela, através duma expressão temporal momentânea
de sua história e afirmou que o branco vive no futuro, o negro
no presente e o amarelo no passado, dando a entender através
dessa psicologia estática das raças que eles sempre
viveram e viverão assim. Ignorando, portanto, Dallaye, a noção
dos ciclos de cultura que, sobre o material de pesquisas de Frobenius,
Spengler desenvolveu com uma argumentação genial. A
cultura abrange em seu organismo todas as manifestações
sensíveis e espirituais do humano: a beleza artística,
a verdade científica, o conceito filosófico, a estrutura
política, a fé religiosa; tudo isto se exprimindo numa
interpenetração orgânica dentro do princípio
biológico da solidariedade das partes para a manutenção
do todo.
Quando Taine dizia que sem filosofia o sábio não passa
de um obreiro e o artista, de um diletante, referia-se intuitivamente
à necessidade de que o individual esteja preso ao consenso
universal, através de quaisquer interpretações,
para que suas expressões tenham um significado de verdades
ou de belezas. Através de interpretações que,
como sabemos hoje, nascem dos anseios explicativos individuais, no
momento em que o inconsciente coletivo dos estados pré-culturais
em comoção os cristaliza numa concepção
sintética, que passa a ser o “símbolo primário”,
o retrato figurado do universo de uma determinada cultura. A filosofia
a que se refere Taine jaz no inconsciente individual como emanação
da alma da cultura – o “Paideuma” de Frobenius.
Agora já se pode destacar dum determinado rosto cultural, desligando-se
e renegando suas outras expressões, para se comprazer no belo
absoluto, isento das contingências humanas. Exatamente da maior
das contingências, que é a necessidade de uma tendência,
de uma diretriz a seguir. Não pode haver vida social sem tendências.
O estilo político, moral e estético é o resultado
do esforço do humano num determinado sentido a que o impulso
cultural o levou. No momento em que este estilo se gasta e perde sua
significação, está morto e logo recomeça
a criação de um outro, porque a humanidade só
pode viver dentro de algum estilo que lhe dê forma orgânica.
Assim nascem e morrem os vários ciclos culturais. Dentro desse
imperativo de sinceridade a que o artista é compelido, ele
será sempre tendencioso, porque o seu mundo interior não
poderá ser nunca uma paisagem inanimada; será sempre
uma paisagem humana, em marcha, em contínua transformação,
a cada momento tendendo a alguma coisa, eternamente vindo a ser…
* * *
A literatura brasileira como expressão de arte foi, durante
muito tempo, em sua grande maioria, um desmentido categórico
a este ponto de vista. É que grande maioria equivalia, realmente,
a uma expressão de arte. Era, apenas, um artifício
de preciosismo. Nos primeiros tempos de colonização,
o elemento europeu, ainda inteiramente desvinculado no meio, prestou-se
admiravelmente a este torneio literário, onde o mérito
consistia em movimentos complicados e o belo residia no rebuscado,
no difícil. Literatura de calembur, de glosas, de trocadilhos.
Arte de paciência como a de Brito e Lima “que escreveu
não sei quantas oitavas sobre o número cinco”.
Se no começo foi assim, pouca mudança foi havendo
até perto dos nossos dias. O nosso romantismo foi puramente
de importação, influência tardia de Byron e
Musset sobre os nossos homens de letras de olhos voltados para a
Europa melancólica. O mesmo se deu com os chamados parnasianos,
impressionistas e simbolistas, todos artificialistas da palavra,
escravos do intelectualismo. Fizeram exceção alguns
poucos criadores de nossa arte verdadeira: um Machado de Assis,
um Aluísio de Azevedo, um Lima Barreto, um Raul Pompéia,
um Manuel Almeida, que, escrevendo as audaciosas “Memórias
de um Sargento de Milícias”, criou, sem dúvida,
o primeiro romance proletário no Brasil. Nestes, é
claro que se sente um sentimento social vinculado ao nosso meio.
Infelizmente, foram poucos estes espíritos criadores, para
dar relevo e força de projeção à arte
brasileira. A força de sinceridade deles diluiu-se no largo
mar cintilante de artifícios; e o romance brasileiro continuou
a não existir como arte autêntica, mas, apenas, como
processo literário.
* * *
Estava a coisa neste pé quando irrompeu a fumarada vulcânica.
Desabafo quase de brutalidade, expressão dum cataclismo que
muito pouca gente pressentiu. Foi no meio da planície parada
do Nordeste contemplativo que reboou a explosão. Do meio
daquela gente de cordatos e conformados que sempre esteve de acordo
com o resto do Brasil em política, idéias e vestuário
e principalmente em filosofia e estética, saltou um grupo
de rebelados. Grupo que cantou alto, noutro tom, que desafinou do
coro, que desconcertou a banda. Foi esta, a explosão vulcânica
no meio da planície silenciosa. Saiu do Nordeste resignado,
a primeira fornada de verdadeiros romancistas brasileiros. Romancistas
chamados de proletários, porque se meteram por lugares escusos
onde só os pobres penetram e de lá vieram com um cheiro
travoso de vida. Cheiro irritante e desagradável para os
meios limpos e corretos. Romancistas que substituíram as
mulheres fatais, os heróis bem acabados e o amor impossível,
pela vida simples, mas esgravatada a fundo, espremida, desmascarada,
sem constrangimentos hipócritas. Gente sem-cerimônia
e principalmente sem belas mentiras convencionais. Gente que cumpre
com o compromisso de sinceridade a que me referi e cria naturalmente
arte verdadeira.
Foi o clima humano do Nordeste que amadureceu o sentido do verdadeiro
brasileirismo, na consciência dos intelectuais. É que
o Nordeste é, de todo o território brasileiro, a zona
que contém maior sentido de tragédia. Keyserling diz
que o habitante do deserto tem consciência, antes de tudo,
do trágico da vida, e o sertanejo do Nordeste é habitante
dum deserto geográfico e demográfico, vivendo, pois,
embebido deste sentido que cria no espírito uma grande força
latente, recalcada. Força que, num momento dado, pode transformar
o sentido trágico num sentido heróico e alcançar
supremas realizações. Uma dessas superações
é o romance brasileiro, escrito no Nordeste. De há
muito sentia o Nordeste a sua tragédia, mas só agora,
através da experiência cultural, ele compreendeu esta
tragédia. O romance do Nordeste foi a revelação
brusca deste momento de compreensão e interpretação
humanas – de unificação da inteligência
e da sensibilidade brasileiras.
A atitude de aparente comodismo, em que o Nordeste se arrastou durante
muito tempo, dando a impressão de verdadeira decadência
intelectual, foi apenas a fermentação criadora e condensadora
do clima humano capaz de produzir esta leva de romancistas brasileiros,
possuidores dum sentido integral do nosso povo e da nossa terra.
Romancistas como Graciliano Ramos, o grande mestre da narração,
identificado de corpo e alma com a tragédia da miséria
nordestina; como Jorge Amado que se injetou de sentimento negro
até se contaminar por completo, agir intelectualmente como
símbolo da raça; como Jorge de Lima mergulhando na
lama humana da Lagoa de Mundaú; como José Américo
que foi durante certo tempo duma sinceridade comovedora, sentindo
até à medula, a tragédia da serra nordestina;
como Raquel de Queirós, com o corpo solto pelas ruas, mas
com o coração sempre conscientemente batendo dentro
das grades das cadeias, de encontro a outros corações
sentenciados; como José Lins do Rêgo, que se mostrou
nos seus primeiros livros um bom desenhista da paisagem humana na
área da cana do açúcar; como Amando Fontes,
como Permínio Asfora. Esta gente tola, chamada, por certos
críticos, de sectária, de intencional num sentido
pejorativo. Os críticos mais desabusados e mais enfurecidos,
largando mão das metáforas, chamando-os logo de extremistas.
Extremistas porque não usam um cristal verde diante dos olhos
como Nero nos circos romanos ou como os verdadeiros extremistas
obcecados por uma utopia. Ou porque não confiaram muito na
História do Brasil dos livros, foram ver mesmo como era,
e escreveram então uma história do Brasil diferente
ou uma história diferente do mesmo Brasil, segundo a gente
concorde ou discorde deles. Alguns ensaístas inteligentes
e cautelosos elogiam a obra, reconhecem sua sinceridade como documento
humano, mas, na hora de aplaudir publicamente, dizem que, como ideologia,
estão inteiramente em desacordo com o romancista e, por isso,
condenam a obra. Ninguém perguntou por isto, ninguém
falou em ideologias. Não é preciso ser católico
para reconhecer o talento poético dos srs. Vinicius de Morais
e Murilo Mendes. Também no romance o talento criador desses
homens veio dar à nossa literatura um caráter de sinceridade
e de absoluta seriedade. E isto é que é essencial.
Artisticamente, pouco importa que eles sejam socialistas ou democratas,
comunistas ou católicos, desde que mostrem sinceramente a
realidade brasileira. Com esta sinceridade que arrasta naturalmente
o drama a uma expressão lírica impressionante.
Não gostar de “O Quinze”, do “Jubiabá”,
do “Corumbas” por serem livros tendenciosos me parece
uma atitude boba, muito parecida com a daquele camarada que assistia
numa igreja, com a cara impassível, a um sermão tão
eloqüente e humano que toda a igreja soluçava; e como
um devoto ao seu lado lhe perguntasse curioso se não lhe
vinha vontade de chorar, respondera com um tom de quem apresenta
razões supremas: – “Pois, se não sou desta
paróquia”.
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