Ensaios de Geografia Humana


APRESENTAÇÃO

La vérité est la poésie de la science.
Jean Giraudoux

É este um ensaio de geografia urbana, orientado pelos métodos e princípios da moderna ciência geográfica. Para levá-lo a efeito, lançamos mão de pesquisas de campo e de pesquisas bibliográficas, com o fim de obter documentação segura acerca da fisionomia da cidade e do conjunto de fatores que possibilitaram a sua fundação e interferiram na sua evolução e diferenciação funcional.
Para colher os elementos indispensáveis a uma análise objetiva da matéria, realizamos uma viagem de estudo à cidade do Recife e à região circunvizinha, e uma outra viagem, mais longa, aos países de origem dos grupos humanos que mais trabalharam na fundação, e no crescimento desse núcleo urbano.
É bem verdade que a viagem à cidade foi curta, mas suficiente para reavivar na memória do autor os traços mais significativos da paisagem cultural, já anotados durante os longos e largos anos vividos no Recife – durante os primeiros anos de sua vida, de sua formação mental e de suas primeiras experiências literárias. Realizando esse estudo, associamos à tarefa profissional de geógrafo o prazer espiritual de reviver, num trabalho de criação, a paisagem humana da cidade onde nascemos. Não foi, pois, casual a escolha da cidade do Recife para exemplo de localização de uma cidade em terras tropicais. Pesou, de certo, na escolha, o sentimento do filho da terra, desterrado pelos acasos da vida, mas sempre amoroso de sua paisagem e sempre vivendo, intelectualmente, as experiências nela adquiridas.
Nesta fase excitante e saborosa de investigação e de seleção dos materiais de estudo, tivemos a sorte de contar com a preciosa colaboração de certo número de pessoas identificadas com esse gênero de pesquisas, as quais muito nos ajudaram no trabalho de observação, de seleção e de utilização dos documentos históricos e geográficos que serviram de base a este estudo.
Sejam, pois, nossas primeiras palavras, de profundo agradecimento para com todos aqueles que trouxeram sua valiosa ajuda à realização deste projeto. Desejamos mesmo aqui consignar os seus nomes como expressão do nosso reconhecimento. A Olimpio Costa Filho e Francisco Barreto Caheté, da Biblioteca do Estado de Pernambuco, agradecemos a prestimosa colaboração que nos deram nas pesquisas, em bibliotecas, que ali realizamos em busca de documentação acerca da vida da cidade; documentação realmente valiosa e que tanto serviu para dar maior consistência a muitas de nossas idéias. Devemos também nossa gratidão a José Maria de Albuquerque Melo, Diretor do Museu do Estado de Pernambuco, pela inestimável contribuição prestada, permitindo a confecção de cópias fotostáticas de alguns mapas e gravuras antigas da cidade, que fazem parte do patrimônio daquele museu. Igual sentimento, temos para com Mário Melo, Secretário do Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco, onde encontramos magnífica coleção de mapas do período holandês no Brasil, muitos deles, ainda hoje, não comentados nem utilizados em estudos de interpretação histórica ou geográfica. A José Cézio Regueira Costa, da Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura Municipal do Recife, somos gratos, não só por ter posto à nossa disposição todos os arquivos daquela Diretoria, como, ainda, por ter tomado a seu cargo a elaboração de cópias fotostáticas de documentos cartográficos de valor inestimável. Indicações e conselhos preciosos em matéria de bibliografia e de documentação iconográfica foram-nos dados por Sousa Barros, da Diretoria de Estatística da Prefeitura, e pelos escritores pernambucanos Sílvio Rabelo e Estêvão Pinto, aos quais somos infinitamente gratos. Ao saudoso escritor pernambucano Mário Sette - saboroso cronista histórico da cidade – agradecemos a extrema amabilidade de nos ter confiado os originais ainda inéditos do seu trabalho “Arruar”, no qual evoca, com especial carinho, aspectos da vida social no Recife de outros tempos. À Ivanise Marinho Rêgo, a nossa gratidão por se ter dado ao trabalho de copiar, a nosso pedido, documentos e trechos de livros existentes na Biblioteca do Estado.
Mas não foi só no Brasil que encontramos tanta colaboração e simpatia por nossos projetos. Também no estrangeiro, numerosos foram aqueles que se tornaram credores de nossa gratidão. Procurando, também, melhor documentação, no que diz respeito às influências culturais que intervieram decisivamente na localização e na evolução da cidade, aproveitamos a oportunidade de uma viagem à Europa para recolher, em Portugal e na Holanda, alguns subsídios para nosso trabalho. Subsídios oriundos não só de uma visão direta da paisagem cultural daqueles países, das peculiaridades e singularidades geográficas de algumas de suas cidades, como também da coleta a ser procedida em livros e documentos existentes em bibliotecas e museus daqueles dois países, aos quais o Recife teve a sua vida tão ligada desde o momento de sua fundação. Graças à excepcional gentileza do nosso eminente amigo, o jornalista português Nuno Simões, que em Lisboa nos pôs em contacto com um grande círculo de estudiosos, conseguimos retirar o máximo de rendimento de nossa passagem por Portugal. Cumpre-nos ainda referir à boa vontade dos dirigentes do Centro de Estudos Geográficos de Lisboa, que se prontificaram a nos ajudar na busca de materiais ilustrativos. Na Holanda, tivemos os nossos objetivos grandemente facilitados pela espontânea colaboração que nos prestou o saudoso professor H. N. Ter Veen, então Catedrático de Geografia. Humana da Universidade de Amsterdã, e profundo conhecedor dos problemas de Geografia Urbana. Devemos salientar quanto significou, como ajuda à nossa tarefa, o oferecimento espontâneo do Ministro Alencastro Guimarães, Cônsul Geral do Brasil em Amsterdã, de nos acompanhar em nossas visitas através da Holanda, nas quais surpreendemos traços culturais da maior significação para o estudo das possíveis influências holandesas na paisagem cultural do Nordeste do Brasil.
Ao nosso eminente amigo, o Prof. Max Sorre, chefe da escola francesa de Ecologia, apresentamos os nossos agradecimentos pelas sugestões que nos fez acerca da Geografia das cidades e pela indicação de uma útil lista bibliográfica sobre o assunto. Não devemos omitir destas referências as gentilezas que devemos a Srta. Emmanuelle, bibliotecária do Instituto de Geografia de França, a qual muito nos ajudou nas consultas bibliográficas a que ali procedemos.
Foi graças à colaboração de todos esses amigos, colegas e auxiliares, que se nos tornou leve e agradável a tarefa de levar a efeito, à luz dos documentos e das realidades geográficas presentes, o estudo das correlações entre a cidade do Recife e a sua paisagem natural.
J. C.

INTRODUÇÃO


O estudo analítico das cidades constitui, na verdade, uma das concepções mais típicas da Geografia Humana – disciplina que analisa o organismo urbano como um produto de cristalização da vontade dos homens, atuando em face das possibilidades geográficas do meio. Nenhum traço, nenhum elemento da paisagem reflete, com mais eloqüência e nitidez, a ação do homem como fator geográfico do que o organismo urbano. Nenhum estudo poderia, pois, interessar mais a uma disciplina como a Geografia Humana, cujo objetivo central é o estudo da humanização da paisagem, do que o estudo de uma cidade dentro do ponto de vista geográfico, procurando destacar a ação dos fatores naturais e dos fatores culturais que determinaram a sua fundação, a sua evolução e a sua expressão singular. Está, pois, fora de dúvida que a Geografia Urbana, o estudo geográfico deste tipo especial de paisagem cultural que se chama uma cidade, constitui um dos capítulos de maior atualidade e de mais fecundas possibilidades da moderna Geografia Humana.
Sendo este um ensaio de Geografia Urbana, não constitui, no entanto, um estudo monográfico da cidade do Recife – um estudo completo e exaustivo do seu organismo urbano, analisado em sua expressão fisionômica e em sua dinâmica geográfica, ou, como prefere chamar Bryan , em sua Anatomia e em sua Fisiologia urbanas. O nosso ensaio é bem mais limitado em seus objetivos, concentrando todo seu interesse em correlacionar o organismo urbano com a paisagem natural onde ele assenta, procurando explicar este ato de posse do grupo humano que a fundou e a fez crescer, e procurando revelar quais os fatores que mais interferiram na preferência de sua localização e na sua evolução em determinados sentidos. É, pois, um ensaio muito mais interpretativo do que descritivo, limitando o estudo de sua morfologia urbana e de sua diferenciação funcional ao mínimo indispensável à demonstração da tese explicativa. Tese que teve sua origem e tomou corpo como uma explicação ao estudo das cidades, da orientação correlacionista, que procura reivindicar, para o campo de estudo da Geografia Humana, não apenas os traços culturais da paisagem, reveladores da atuação criadora do homem, mas também os seus traços naturais, que condicionam e dirigem, até certo ponto, esta ação do fator humano – que procura reivindicar, numa palavra, o estudo da paisagem integral, com suas realidades e suas singularidades geográficas. Foi dentro deste sentido ecológico – de análise das correlações entre o quadro geográfico natural e o fenômeno artificial, que se exprime como uma cidade dentro desse quadro, que resolvemos estudar a cidade do Recife e a sua localização geográfica. O que pretendemos fazer, em última análise, é um estudo de natureza ecológica da paisagem urbana do Recife, procurando mostrar a dinâmica geográfica que condicionou a sua atual expressão urbana.
Fomos levados a essa limitação prévia de nossos objetivos, procurando seguir os modernos rumos que tomou a ciência geográfica, limitando, sempre que possível, os seus campos de estudo, para melhor aprofundar as suas indagações e fugir assim à acusação que, até há pouco, lhe faziam os representantes de outros campos de atividades científicas, de que a Geografia, por ser demais extensiva, se evidenciava sempre extremamente superficial: ciência de superfície, sem penetração, sem mergulhos suficientemente demorados na essência dos fenômenos que pretende estudar. Acusação essa que, dia a dia, perde sua razão de ser, porque a Geografia, depois de se ter tornado a mais universalista das ciências e de ter conquistado, com esse seu conhecimento universal dos fatos e fenômenos, uma amplitude de visão e uma densidade de percepção incomparáveis, começa hoje a limitar-se voluntariamente e a dominar os impulsos imperialistas, que a levaram de início a invadir o campo das atividades de todas as disciplinas naturais , procurando, nessa sua limitação, penetrar mais a fundo, com sua visão aguçada e disciplinada por sua estratégia específica, a essência de fenômenos que se processam em campos restritos de análise, em áreas concentradas de estudo. Desta nova tendência dos estudos geográficos, originou-se um fecundo renascimento da Geografia Regional, do estudo minucioso e aprofundado de todos os fenômenos e fatos que se processam dentro de uma determinada zona.
O estudo da Geografia Urbana, hoje tão florescente em países como a Inglaterra, a França e os Estados Unidos constitui um dos aspectos mais vivos da moderna Geografia Regional, desde que o que domina no estudo geográfico de uma cidade é a análise das correlações entre o elemento humano que cria e entretém esse organismo artificial e os fundamentos naturais que possibilitam a sua existência. Constitui, pois, o estudo geográfico de uma cidade, um exemplo típico de Geografia Regional, em muitos pontos idêntico a um estudo geográfico de uma região rural. A diferença fundamental entre os dois tipos de paisagem – a urbana e a rural – é que, na primeira, os produtos de elaboração humana atingem um máximo de concentração, deixando quase que apagados os traços de paisagem natural , enquanto que, na paisagem rural, os motivos naturais predominam sobre os traços culturais. Questão, pois, geograficamente, mais de quantidade do que de qualidade. Em nosso ensaio, visamos a demonstrar como é complexa a trama dos fatores que intervêm na elaboração criadora desse organismo artificial – uma cidade –, desde a escolha do seu assentamento até as manifestações mais singulares de sua vida econômica e social. Procuraremos, com o estudo concreto de uma cidade, mostrar as correlações diretas e remotas que se estabelecem entre condições naturais e elementos histórico-culturais, determinando um contínuo reajustamento do grupo ou grupos humanos em contato, numa determinada área geográfica, onde se precipita esse tipo característico de complexo cultural que se chama uma cidade. Através da análise circunstanciada dos fatores de categoria natural e dos fatores de categoria cultural, que trabalharam na origem e na formação do núcleo urbano do Recife, verifica-se como é ingênuo e precário qualquer ponto de vista tomado a priori, unilateralizado pelas limitações teorizantes que busquem dar predominância a um desses grupos, na interpretação do fato geográfico observado. A cidade é sempre um produto das possibilidades geográficas e da capacidade de utilização das mesmas pelo grupo humano local e nela se refletem sempre as influências do meio natural e as influências do grupo cultural. Embora seja, como resultante, um organismo artificial, a cidade é, ao mesmo tempo, uma expressão do natural e do humano: a mais complexa e grandiosa expressão material da ação do homem como fator geográfico. Produto de uma tal força expressiva, que alonga sempre a sua influência além dos seus limites materiais, mudando o fácies regional em seus mais profundos recônditos, impregnando a região inteira dessa realidade sutil mas tenaz, a alma da cidade – realidade psicológica capaz de dar outro sentido a toda a vida de uma região, de um país, de uma civilização. Há quem afirme que a grande metrópole é uma expressão simbólica de civilização, considerada como a fase final de evolução de uma cultura . Enfim, o que não se pode negar é que a cidade se projeta, na paisagem, como um signo de vitória do cultural sobre o natural e merece sempre a mais cuidadosa atenção daqueles que se dedicam a ler, nas amplas páginas vivas da superfície da terra, a interminável história que a Humanidade ali escreve, ininterruptamente. História cuja leitura cabe, mais do que a ninguém aos estudiosos desta disciplina, um tanto pretensiosamente denominada Geografia Humana.