UMA ECONOMIA HUMANIZADA

Se a primeira revolução industrial se caracterizou pelo emprego da máquina em substituição do trabalho manual nas manufaturas de toda a ordem, o que caracteriza essencialmente a segunda revolução industrial dos nossos dias é a aplicação da ciência na solução de todos os problemas tecnológicos, tanto nos problemas da indústria como nos problemas da economia agrária.
A verdade é que a Agricultura, dia a dia, se transforma numa verdadeira Indústria com todos os seus problemas também equacionados cientificamente. Esse sentido de uma nova economia mundial, na qual a Agricultura e a Indústria não se contrapõem nas suas atividades criadoras, mas ao contrário se complementam e se integram na unidade de um mesmo complexo econômico, cria uma nova perspectiva na análise dos problemas da economia agrária. E impõe ao estudioso desses problemas uma atitude bem diferente daquela em que largo fosso separava o campo da economia agrícola do da economia industrial, considerados pelos economistas de então como campos quase antagônicos na exploração de recursos naturais. É nesta nova perspectiva, e dentro dos princípios científicos que integraram o fato agrícola na economia do mundo moderno, que Mr. Hubert D'Herouville leva a efeito este estudo sobre o problema da economia dos cereais. Estudo de categoria econômica, mas longe de se limitar a uma análise estrita dos dados estatísticos e à sua interpretação numérica, procura correlacionar o fenômeno econômico com aspectos biológicos e sociais que constituem a própria essência da sua realidade vital. A verdade é que o estudo de Mr. D'Herouville ultrapassa os limites da economia ortodoxa para ser um ensaio de ecologia social – de análise das influências e das repercussões do fenômeno econômico sobre as estruturas sociais vigentes. Tem toda a razão o autor quando afirma que não é possível estudar-se a evolução econômica dos fenômenos tão complexos, e principalmente tão intimamente entrelaçados na textura econômico-social do mundo moderno, isolando-os didaticamente, cortando-lhes as raízes dos quadros naturais e culturais onde esses fenômenos florescem, para analisá-los dum só ângulo – do ponto de vista do agrologista ou do especialista em alimentação. Uma visão real do problema exige muito mais do que isto. Exige este sentido correlacionista que se originou no seio da geografia moderna. Sentido que é um produto dos nossos tempos, heterodoxos e pós-revolucionários, desde que surgiu como uma das manifestações mais patentes da revolução social dos nossos dias.
Como uma demonstração de que o autor se encontra perfeitamente identificado com o espírito da época, sendo o seu trabalho de palpitante atualidade apesar de tratar de um problema milenar, basta ressaltar o fato de que ele desenvolve as suas idéias em torno de um aspecto fundamental do problema dos cereais – o problema do seu consumo. Nos economistas clássicos estes estudos giraram sempre em torno da produção, porque a produção era o fenômeno fundamental da Era do Homem Econômico, hoje superada pela Era do Homem Social. Foi mesmo essa atitude doutrinária da economia clássica que muito contribuiu para que o mundo ocidental se lançasse tão avidamente na produção em massa, sem se preocupar em analisar mais detidamente se as condições existentes seriam propícias ao consumo em massa, necessário para o equilíbrio das suas temerárias empresas.
O Sr. D'Herouville analisa com uma clareza cartesiana bem própria do espírito francês, os elementos que influenciam o consumo de cereais no mundo: a sua composição química, o seu alto valor nutritivo, a sua conservação fácil, enfim, todas as qualidades econômicas e a sua posição no que ele chama a hierarquia dos valores alimentares, tanto para a alimentação humana como para a alimentação dos animais.
Estuda o autor, a seguir, o fenômeno da produção nos seus fatores fundamentais. São dignas de nota, neste capítulo, as considerações que ele formula sobre o problema da produtividade. Noção esta que, ainda um tanto imprecisa, se vai constituindo no entanto como motivo central de uma nova mística econômica, até certo ponto não isenta de certos perigos e de possíveis desapontamentos. É, portanto, muito útil que se procure esclarecer bem a essência da noção de produtividade na qual alguns põem uma confiança quase cega, enquanto outros mais prudentes procuram mostrar que nem sempre a maior produtividade constitui um acréscimo ao progresso social e ao bem-estar coletivo. Basta lembrar o caso em que o aumento da produtividade é obtido à custa de um acréscimo de investimentos que ultrapassa os limites do equilíbrio econômico da produção.
Passando aos problemas de adaptação da produção às exigências do consumo – aspecto essencial da política agrícola – o autor apresenta-nos um abundante acervo de informações de alta categoria científica. Das considerações judiciosas por ele formuladas chega-se à evidência de que, apesar da integração que a ciência vai promovendo das diferentes formas de exploração econômica, ainda é grande o desequilíbrio existente em diferentes setores da economia no mundo moderno quando se compara a evolução da produção agrícola com a da produção industrial. Enquanto a primeira cresce num ritmo relativamente lento, a segunda se desenvolve num dinamismo bem mais acentuado. Quando se medita que a produção dos cereais desempenha um papel indispensável na manutenção das sociedades humanas e representa um recurso fundamental na luta contra a fome, compreende-se facilmente a necessidade de restabelecer o equilíbrio intensificando a produção agrícola para que ela acompanhe o ritmo mais acelerado da produção industrial.
Na luta contra a fome em que se encontra empenhada toda a nossa civilização, são indispensáveis os estudos de base como este levado a efeito pelo Sr. D'Herouville. É bem verdade que há quem afirme com certa acrimônia que já conhecemos demais o problema, que estamos fartos de saber porque há fome no mundo. Que há mesmo certo excesso de estudos e de planos em contrastes com a exigüidade de medidas realmente efetivas à escala internacional. Mas é bem possível que a falta de ação efetiva seja, pelo menos em parte, provocada pelo desconhecimento dos caminhos a serem seguidos – caminhos que conduzem a soluções satisfatórias um problema de tamanha complexidade. É bem possível que os organismos internacionais encarregados da solução do problema, ainda não se sintam solidamente firmados em bons alicerces de pesquisas e indagações para levantar as estruturas da sua política de combate universal ao flagelo da fome. Ou pelo menos não firmados num espesso lastro de razões em oposição às forças que entravam a sua ação construtiva na busca da paz e do bem-estar dos povos.
Trabalhos como este do Sr. D'Herouville, levado a efeito com espírito científico e isento de preconceitos, constituem uma preciosa contribuição para reforço desta base de resistência, desta trincheira de combate contra a fome e a miséria que hoje assolam dois terços da humanidade.