Sr. Presidente:
Vive o Nordeste brasileiro, na hora presente, um dos seus trágicos
dramas de época de calamidade: o trágico drama da
fome e da miséria que assolam as populações
sertanejas.
Através da imprensa, do rádio e dos comentários
de toda ordem, da tribuna desta Casa, tem sido projetado por todos
os horizontes do País este trágico e melancólico
drama nordestino.
As cores negras com que ele é pintado têm impressionado
emocionalmente um povo como o nosso de tendência predominantemente
sentimental. Mas, a meu ver, mais do que com sentimentalismo, devemos
encarar este problema com objetividade.
É por isso que me animei a subir a esta tribuna depois de
aqui ter sido comentado largamente, em magníficos discursos,
o problema da seca do Nordeste, para, mais uma vez, repisar o assunto,
no sentido de não encará-lo apenas em seu aspecto
restrito, em seu aspecto regional, em sua singularidade local, mas
estudá-lo em sua correlação com o problema
da carestia da vida e da crise econômica e social por que
atravessa o País inteiro.
É com este intuito que pretendo trazer o meu depoimento,
procurando pôr nele um pouco mais de rigorismo técnico
e de objetividade do que a maior parte dos comentários que
aparecem na imprensa leiga e que não dão uma idéia
exata, uma idéia clara e precisa de quais os fatores que
determinaram esse estado de coisas, quais as causas que condicionam
essa miséria e essa fome que vêm avassalando as populações
do Nordeste do Brasil.
Foi neste sentido que procurei visitar aquela região, donde
regressei há quatro dias. E lá vi, diretamente, as
cores com que esse drama vem sendo representado. Através
da análise direta do problema, e do estudo, como dizia, da
correlação de sua realidade local ou regional com
a estrutura e a conjuntura econômica nacionais, é que
me animo a formular aqui algumas considerações que
são, ao mesmo tempo, uma advertência e um apelo ao
Governo, ao Poder Executivo e aos meus nobres colegas desta Casa,
para que nos unamos no afã de obter, para o problema do Nordeste
brasileiro, soluções que não sejam apenas paliativos,
que não sejam de pura emergência, ditadas pelo sentimentalismo
do drama calamitoso, mas que sejam soluções de base
e profundidade, capazes de resolver ou, senão, de minorar
as conseqüências periódicas, cataclísmicas
e devastadoras das chamadas secas do Nordeste, que vêm inferiorizando,
deprimindo e desgastando o capital humano dessa região, não
permitindo que ela se desenvolva de maneira adequada, mas se arraste
num ritmo econômico estagnante ou em marcha ronceira, num
verdadeiro marasmo.
Daí o interesse que peço ponham os ilustres colegas,
nas modestas palavras que desejo pronunciar neste momento, com a
convicção de que a simples contribuição
que aqui trago deverá ter alguma repercussão no sentido
da busca de solução que, espero, não seja apenas
para o Nordeste, para os problemas de nossa região, mas seja
solução útil à economia, à estabilidade
social, ao progresso econômico e ao bem-estar das populações
do País inteiro.
Na visita que realizei à região nordestina, tive oportunidade
de atravessar uma área assolada pelas secas. Mas não
encontrei o Nordeste com uma daquelas secas calamitosas que abrangem
a região inteira do Polígono das Secas, esturricando
todo o revestimento vegetal, fazendo arrastar pelos ventos, sob
a forma de pó, os resíduos das folhas e pondo a descoberto
o solo árido, seco, cinzento daquela zona geo-econômica.
Não vi o Nordeste assolado por um cataclismo como o que se
observou na famosa seca de 1877, quando, segundo os anais da História,
não ficou, nessa época, uma planta viva na região
do sertão, nem na seca de 1915, também de infausta
repercussão na história social do Brasil; nem na seca
de 1932, que observei diretamente, promovendo estudos sobre condições
de vida das populações, então acossadas pelo
flagelo.
O que notei, no momento, no Nordeste, foi um ano de seca relativa,
não de seca intensiva, mesmo porque não está
abrangendo o Nordeste inteiro, mas partes dessa região.
No meu Estado – Pernambuco – observei que, se em municípios
como aqueles ribeirinhos do São Francisco, aqueles próximos
da bacia desse rio – Tararatu, Coripós, Petrolina –
a seca é intensiva, noutros municípios da região
norte do sertão, como Afogados da Ingazeira, Flores, Triunfo,
Ouricuri, aí tem chovido relativamente, de maneira que não
há, propriamente, uma seca de alta categoria, assim, caracterizada
pelos meteorologistas, mas, sim, o que se poderia chamar um ano
de chuvas escassas, de chuvas irregulares, de chuvas retardadas,
um ano ruim na linguagem do sertanejo – o que não é
a exceção, mas quase a regra, numa região chamada
semi-árida, caracterizada, primordialmente, pela incerteza,
inconstância e irregularidade de suas chuvas.
Portanto, o que notei lá, não foi uma seca intensiva,
mas relativamente branda em comparação com outros
quadros da seca que tive oportunidade de presenciar.
O Sr. Aurélio Viana – V. Exa. permite um aparte?
O SR. JOSUÉ DE CASTRO -–Tem o aparte o nobre deputado.
O Sr. Aurélio Viana – Acredito que V. Exa. não
esteve nos sertões alagoanos, porque as notícias que
recebemos das Alagoas nos pintam um quadro verdadeiramente dantesco.
Há anos não atravessa aquela região do Nordeste
brasileiro uma época de seca tão tenebrosa. Muito
gado morreu. E se não morreu gente foi porque o sertanejo
fugia para as cidades ou procurava outros Estados. Temos verdadeiros
manifestos, cartas tocantes de famílias que abandonaram a
terra, a terra ressequida. Também a lavoura, quase toda ela,
lá no sertão, está perdida, completamente perdida.
Conseqüentemente, acredito que nas Alagoas o fenômeno
da seca foi dos mais terríveis dos últimos anos. E
o meu companheiro, o nobre Deputado Seixas Dória, está
aqui ao lado dizendo: Em Sergipe também. Era a colaboração
que queria trazer ao discurso de V. Exa., douto como todos que pronuncia.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Agradeço a contribuição
que me traz o nobre colega Aurélio Viana, com seu depoimento
acerca do que se passa no Estado de Alagoas.
Devo ressaltar, contudo, que eu dissera que o fenômeno não
abrangia toda a área da seca, mas era limitado e Alagoas
representa pequena parcela do Polígono das Secas.
O Sr. Aurélio Viana – Exato.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Ademais, é preciso separar
bem os efeitos da calamidade, da calamidade em si. É possível
que Alagoas esteja sofrendo o trágico efeito da fome e da
miséria, que é associado, sem muita base, ao fenômeno
da seca como está ocorrendo no Estado de Pernambuco.
Ao chegar ao Recife, falaram-me que Buíque era um grande
centro de calamidades. As populações já invadiam
aquela cidade. Havia ameaças de perturbação
da ordem pela angústia, pela revolta e pela miséria
que aquelas populações sofriam, conseqüentes
da seca. Fui à cidade de Buíque e lá verifiquei
a existência de miséria, de fome, de angústia,
mas não encontrei a seca. É que as causas do mal não
decorrem apenas da seca. Este, aliás, será o objetivo
do meu discurso.
Sr. Presidente, não nego a existência da seca. Nego
seja ela a causa do fenômeno, porque a seca é causa
secundária, subsidiária, que veio agravar o estado
de coisas provocado, determinado por outras causas, mais sociais
do que naturais.
É este o sentido que desejo dar à minha tese agradecendo
a contribuição de V. Exa. Quero deixar bem claro este
ponto de vista, a fim de não ser mal interpretado porque,
como nordestino, como homem da região das secas, como filho
de homem do sertão e neto de retirante da seca de 77, não
nego a existência do fenômeno. É mister, também,
não se explore a questão, dizendo que a culpada de
tudo é a seca, quando há outros culpados e mais do
que ela. Meu pensamento é esclarecer – e tenho a coragem
de dizer que não é a seca que determina a fome: mas
outras causas determinantes necessitam ser removidas – e aconselhar,
sugerir um plano que anule essas causas, a fim de evitar a persistência
do fenômeno de miséria e fome que assola grande área
da extensão do território nacional.
O Sr. Seixas Dória – Há três anos, praticamente,
não existe inverno em Sergipe. Pelo menos, o inverno tem
sido escasso, como observou V. Exa. No sertão de Sergipe,
não choveu neste inverno. Em pleno inverno, além de
toda a agricultura se achar prejudicada, está morrendo em
massa o gado. Se vier a chover agora, ainda poderemos salvar a pecuária,
mas a agricultura já está perdida.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO - Agradeço o aparte de V. Exa.
Sr. Presidente, continuando, desejo explicar que ocorrem, como disse,
anos de chuvas escassas e retardadas, mas não há 3
ou 4 anos, pois, desde 1950, vem o nordestino sofrendo o acúmulo
desses anos maus como aconteceu em 1951, 1952 e 1953. Apenas em
1954, choveu com abundância desusada para o sertão.
Mas, em 1955, voltou o rigorismo das chuvas escassas e, em 1956,
tivemos ausência de chuvas em algumas zonas e raridade de
chuvas em outras. Mas isso, repito, é a regra no sertão.
A agricultura, no sertão, é jogo de azar, é
aventura. Quem a ela se dedica apenas espera que chova numa terra
em que não costuma chover. Daí dizer que outras causas
provocam desequilíbrio tão tremendo como o que se
nota atualmente, porque, com pouca chuva, quase sem chuva, quase
sem água, o sertanejo consegue sobreviver, no seu regime
de subsistência mínimo e aí permanecer sem chegar
às raias do desespero e da revolta, sem emigrar aos magotes
de retirantes, como está ameaçando de fazer agora
e já o está fazendo, porque a seca se associa a alguma
coisa mais, o que torna insuportável sua permanência
e sua sobrevivência no sertão nordestino.
E quais são esses outros fatores?
Para este ponto peço a atenção da Casa.
A meu ver, a fome que o Nordeste está atravessando, a miséria
aguda, que se exterioriza mais gritante, mais negra e mais trágica
nesta época de calamidade, é mais fenômeno de
ordem social do que natural. Mais do que a seca, o que acarreta
esse estado de coisas é o pauperismo generalizado, a proletarização
progressiva do sertanejo, sua produtividade mínima, insuficiente,
que não lhe permite possuir nenhuma reserva para enfrentar
as épocas difíceis, as épocas das vacas magras,
porque já não há lá, nunca, épocas
de vacas gordas. Mesmo quando chove, sua produtividade é
miserável, sua renda é mínima, de maneira que
ele está sujeito a viver na miséria relativa ou na
miséria absoluta, segundo haja ou não inverno na região
do sertão.
E que causas determinam esse estado social, esse estado de estagnação
econômica e de proletarização progressiva da
região do sertão? A meu ver, a causa essencial, central,
contra a qual temos de lutar todos, é o regime inadequado
da estrutura agrária da região, o regime impróprio
com o grande latifundiarismo, ao lado do minifundiarismo, reinantes
no Nordeste do Brasil. Sendo esta uma região, por excelência
agrícola, desde que 75% das populações do Nordeste
vivem de atividades rurais, 50% da renda sendo retirados da agricultura,
ele só poderia sobreviver e desenvolver-se, se a agricultura
fosse compensadora, fosse produtiva. Infelizmente, não o
é. Porque o latifúndio é o irmão siamês
do arcaísmo técnico. Nessas áreas latifundiárias,
se pratica uma agricultura primária, uma proto-agricultura,
sem assistência técnica, sem adubação,
sem seleção de sementes, sem a mecanização,
e pelos processos mais rudimentares, exaurindo a força do
pobre sertanejo para produzir menos do que o suficiente para matar
sua fome.
O latifúndio nessa região é representado pelo
fato estatístico significativo de que, de 1940 a 1950, de
acordo com o Recenseamento demográfico e agrícola,
longe de diminuir o tamanho médio da propriedade agrícola,
no Nordeste, este tamanho aumentou e vem aumentando de tal forma
que, hoje, no Nordeste, apenas 20% dos habitantes das regiões
rurais possuem terra; 80% trabalham como arrendatários, como
parceiros ou como colonos, porque a terra é monopolizada
por pequeno grupo.
Para mostrar a que extremo chega esse monopólio, basta referir
o fato de que 50% da área total do Nordeste são açambarcados
por 3% dos proprietários rurais.
Por outro lado, encontramos mais de 50% das propriedades contendo
mais de 500 hectares. Há centenas de propriedades de mais
de 100.000 hectares.
O Sr. Aurélio Viana – V. Exa. concede um aparte?
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Permita o nobre colega que
termine o desenvolvimento deste raciocínio.
Ao lado disto, como dizia, há o minifúndio, pequenos
retalhos de terra dos quais o trabalhador nada consegue tirar para
seu sustento nem para o sustento de sua família. E que resulta
dessa estrutura agrária defeituosa? Resulta a subcapitalização
da economia agrária da região. Por quê? Porque
o grande proprietário não investe em sua terra, nem
tem interesse em fazê-lo. Possuindo terras em abundância,
poderá obter, através da renda – pois o rendeiro
lhe paga quantias exorbitantes – suficiente compensação.
Daí deixar a terra dormir improdutiva.
Por outro lado, o parceiro, o arrendatário, o posseiro e
o lavrador não dispõem de capitais e mesmo que dispusessem
não quereriam investi-los numa terra que não lhes
pertence, desde que os beneficiamentos decorrentes voltariam, esgotado
o contrato de arrendamento, aos grandes proprietários da
terra.
A falta de capitalização, nessas regiões, é
que determina sua proletarização, sua produtividade
ínfima, seu pauperismo, sua miséria. Os grandes latifundiários
que obtêm grandes rendas, em muitos casos, são absenteístas,
lá não vivem. Retiram suas rendas e vêm investi-las,
como capitais especulativos, em outros ramos como a indústria
imobiliária, em zonas que não as do Nordeste, que
cada vez mais se depaupera, cada vez mais se aniquila neste ciclo
vicioso de miséria por falta de produtividade, acarretada
pela própria miséria orgânica, pela fome de
suas populações.
Este, o quadro negro condicionado pela defeituosa estrutura agrária
do Nordeste, que se agravou ainda mais com a expansão econômica
de outras regiões do País, em desproporção
com a estagnação dessa região.
O desenvolvimento industrial do País vem sendo bem mais intensivo
do que o desenvolvimento agrícola, tanto que, no qüinqüênio
de 49 a 54, enquanto a indústria aumentou de 185%, a agricultura
aumentou apenas de 41%. Evidentemente, com esta expansão
industrial, com o aumento do custo de vida, com as conseqüências
da inflação, ainda se tornou mais trágico o
desnível econômico entre o Nordeste e outras regiões.
Daí, a impossibilidade de levantarem essas populações
seu nível de vida. Daí seu baixo poder aquisitivo,
que não lhes permite sequer adquirir os gêneros alimentícios
que os impeçam de morrer de fome.
O Sr. Yukishigue Tamura – Quero dar, neste momento, meu depoimento
sobre a zona do Polígono das Secas, especialmente na parte
banhada pelo Rio São Francisco. Faço-o com conhecimento
de causa, porque lá estive na semana passada, em companhia
de vários colegas, entre outros os nobres deputados Gurgel
do Amaral e Ostoja Rogusky, no cumprimento da missão que
nos impunha a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre
Turismo. Tratamos, de um lado, de turismo, pesquisando as possibilidades
que nos oferecem os Estados banhados pelo Rio São Francisco;
de outro lado, deparou-se-nos o espetáculo doloroso da seca,
da falta de alimentação daquele povo. Mas, preso à
argumentação de V. Exa., poderia dizer, neste momento,
com os argumentos dos técnicos que trabalham na usina elétrica
de São Francisco, que aquela zona, hoje quase abandonada
no terreno agrícola, poderá ser, em futuro muito breve,
um centro industrial dos mais promissores do País, capaz
de sobrepujar até o Estado de São Paulo. Só
a Companhia Hidroelétrica do São Francisco poderá
abastecer de energia elétrica vasta zona, num raio, não
de 450 quilômetros, mas até de 500 quilômetros.
De sorte que quando V. Exa. alerta os poderes públicos da
Nação e o povo sobre as deficiências daquela
zona agrícola e o contínuo êxodo dos lavradores
para o Sul, poderemos também fazer um apelo aos poderes públicos,
para que desenvolvam a capacidade de industrialização
daquela zona.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Pediria a V. Exa. fosse breve,
porque vou tratar exatamente deste assunto, se o tempo permitir.
O Sr. Yukishigue Tamura – Sabe V. Exa. que no Nordeste se
está produzindo atualmente 180.000 kw…
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Examinaria este aspecto posteriormente.
O Sr. Yukishigue Tamura – …e apenas 80.000 estão
sendo aproveitados. O resto se desperdiça. Este, o depoimento
que queria deixar no brilhante discurso de V. Exa.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Agradeço a valiosa contribuição
de V. Exa.
Sr. Presidente, a meu ver, o fenômeno é de natureza
estrutural, a começar pela má distribuição
da propriedade agrária, devido ao regime latifundiário
altamente defeituoso, associada a certo descaso pela região,
acrescida da má aplicação das inversões
destinadas ao Nordeste.
Devo dizer que, infelizmente, as chamadas obras contra as secas,
tendo-se limitado, exageradamente à luta contra as secas,
com o simples acúmulo de águas em barragens, não
resolveu o problema. A questão é muito mais complexa
e precisa ser encarada essencialmente em seu aspecto humano. Precisamos
dar ao homem da região possibilidades de produzir e, produzindo,
de poder afastar esta situação de insegurança
em que vive.
Mais secas do que o Nordeste, sofrem inúmeras outras regiões
do mundo, onde as populações sobrevivem in loco, porque,
tendo meios de subsistência, economia desenvolvida, podem
importar os gêneros alimentícios de outras áreas
do país.
O que se passa na região do Nordeste, no momento, é
que essas populações proletarizadas não têm
poder aquisitivo para adquirir os alimentos. Esse fenômeno
faz com que a escassa, a pequena produção regional
seja drenada para outras áreas. Os poucos alimentos ali produzidos
são, muitas vezes, levados, para os centros urbanos e para
outras regiões do país, porque no sertão do
Nordeste, não há quem possa comprá-los.
Ocorre no Nordeste do Brasil fenômeno idêntico aos verificados
na Índia e na China – terras de fome. A Índia
viu morrer de fome, nos últimos vinte anos do século
passado, trinta milhões de indivíduos e, durante esses
anos, aquele país exportou milhares de toneladas de trigo
para a Europa. Por quê? Porque, o hindu não tinha capacidade
aquisitiva para comprar esses cereais, que, então, eram exportados
para outros centros. Assim, a seca existia, mas era possível
sobreviver a ela, sem implorar a caridade pública, como fazem
os Estados nordestinos, se lá houvesse estrutura da uma economia
regional mais consolidada, e não a incipiente e primária
economia agrícola, baseada no latifundiarismo daquela região.
Como disse no começo deste discurso, fui até Buíque
para analisar de perto as conseqüências da seca. Lá
ouvi um sertanejo dizendo que iriam morrer todos de fome nesta seca.
E foi aí que lhe perguntei se achava realmente que tinha
havido uma grande seca no sertão, ao que me respondeu num
tom de dúvida: “e a fome que aí está?”
A fome eu a vejo, respondi-lhe, mas também vejo a paisagem
verde, bem diferente da paisagem esturricada das quadras de verdadeiras
secas. São a fome e a miséria reinantes que deformam
a realidade e fazem atribuir à seca o que tem causas mais
profundas e principalmente mais inexplicáveis e mais indesculpáveis.
Os prefeitos angustiados diante de situações econômicas
desesperadoras forçam um pouco o tom dramático da
seca para obterem alguns recursos. Os governadores do Nordeste,
levados pela mesma onda sentimental, afinam pela mesma nota e os
parlamentares aqui no Sul fazem coro. E fica assim a seca, como
o cavalo de batalha em cujos costados se põe toda a culpa
da miséria nordestina.
Não me parece justo, nem produtivo que façamos tanta
ênfase em torno deste fenômeno da seca. Porque há
coisas muito piores do que a seca no Nordeste: o latifundiarismo
e o feudalismo agrário, por exemplo. A seca é um fenômeno
transitório, mas o pauperismo do Nordeste é permanente.
Não bastam, portanto, medidas transitórias de emergência,
contra a suposta seca: são necessárias medidas de
profundidade, medidas estruturais que modifiquem realmente os alicerces
econômicos da região nordestina…
O Sr. Abguar Bastos – Permite-me um aparte?
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – …reduto do feudalismo
trazido pelos colonos portugueses, atrasados, no seu medievalismo
de dois séculos e que ainda lá existe nas relações
de trabalho entre o proprietário e o verdadeiro colono da
região do Nordeste.
Tem o aparte o nobre Deputado Abguar Bastos.
O Sr. Abguar Bastos – O brilhante discurso de V. Exa. vem
trazer valiosa peça sobre a urgente necessidade do debate
do problema agrário. Tenho chamado a atenção
da Casa e do Governo, anotando que o Governo da República
está ainda descuidado de enfrentar a reforma agrária.
Os subsídios que V. Exa. oferece, com a competência
e a capacidade com que investiga essas questões, ratificam,
mais uma vez, a premência de planejarmos uma ação
comum para solução do problema agrário nacional.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Agradeço o honroso aparte
de Vossa Excelência.
O Sr. Seixas Dória – Apresentei ao exame da Câmara
o projeto de lei visando a um auxílio para os Estados subdesenvolvidos.
Dizia, então, dessa tribuna, como V. Exa. agora afirma, que
a proposição deveria interessar tanto a São
Paulo como aos Estados que serão beneficiados, justamente
porque precisamos criar, no Brasil, nos Estados subdesenvolvidos,
a capacidade de poder adquirir, de poder comprar, formando então
mercados para os Estados realmente produtores.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Agradeço a V. Exa.
Prosseguindo, Sr. Presidente, e para terminar o diagnóstico
da situação, direi que o que se vê é
a seca como a nota dominante desse drama, quando não é
mais do que uma melodia a ressoar de tempos em tempos, sob a nota
predominante, persistente e contínua do pauperismo, da miséria,
da exploração do homem, da escravização
do homem à terra.
Precisamos libertar o homem da escravidão da terra. Acabamos
no Brasil com a escravidão do homem pelo homem, mas deixamo-lo
em regiões como as do Nordeste, inteiramente escravizado
ao regime da terra. Não nos deixemos iludir pela impressão
coletiva de que a seca é tudo. Ouvi de uma autoridade do
Nordeste, esta frase expressiva: “Como está chovendo
agora no Nordeste, por toda parte!” Quando choveu em Petrolina,
disse-me ele: “Caiu, pois, o nosso último bastião
da seca – Petrolina”!
Ora, Srs. Deputados, pode chover em abundância no Nordeste,
mas a chuva, apenas, não resolverá o drama da miséria
daquela região. Por isso faço desta tribuna apelo
aos nobres colegas, primeiro aos das bancadas do Nordeste e do Norte
– as áreas mais subdesenvolvidas deste País
subdesenvolvido: unamo-nos no sentido de projetar um plano de ação
que promova o desenvolvimento econômico e social dessas regiões,
não no interesse exclusivo delas, mas no do Brasil inteiro.
Este meu apelo se alarga ao Governo Federal, ao Sr. Presidente da
República, que em discursos sucessivos vem manifestando o
desejo de promover o desenvolvimento econômico e social do
País. Não é possível promover esse desenvolvimento
unilateralmente. É necessário, que ao mesmo tempo
que se promova a expansão industrial, que se intensifique
a produção agrária, sob pena de ser desarmônico
e monstruoso esse desenvolvimento, constituindo verdadeiro salto
no abismo, salto que o país talvez não possa dar sem
quebrar as pernas, pois seria empreender uma aventura industrial
sem criar a base agrícola indispensável à consistência
de uma industrialização que teria de possuir forma
econômica de modo a produzir por preços acessíveis
à capacidade aquisitiva do nosso povo.
Neste sentido é que desejo exortar a Casa para que nos concentremos
em alguns trabalhos, e ao Governo para que cuide essencialmente
de encaminhar os planos exigidos pela reforma agrária necessária
ao Nordeste e ao País inteiro. Exorto ao governo para que
envie à Câmara, com a mensagem, o anteprojeto de lei
que permite o acesso do homem à terra própria, elaborado
há tempos pela Comissão Nacional de Política
Agrária, à qual tenho a honra de pertencer, ante-projeto
que não sei por qual motivo até hoje não foi
submetido à consideração do Parlamento. Ao
lado disso, que encaminhe também à nossa apreciação
a lei que regulamenta o arrendamento da terra.
Srs. Deputados, as estatísticas mostram que cerca de 200.000
propriedades agrícolas no Brasil estão arrendadas.
Sendo a média da família rural de 5 ou 6 pessoas,
temos um milhão de indivíduos que vivem no regime
do arrendamento extorsivo.
Daí a necessidade de uma lei que regulamente de maneira humana
o arrendamento da terra, feito hoje em base desumana.
Seria também útil e oportuno que o Governo enviasse
a esta casa o anteprojeto de criação de um órgão
de proteção aos recursos naturais renováveis,
anteprojeto também elaborado pela Comissão Nacional
de Política Agrária e que beneficiaria o Nordeste,
uma das regiões do Brasil mais erodidas, mais desgastadas
pelo uso intempestivo da terra, principalmente na área da
monocultura da cana. Bem se sabe que a cana não é
planta que intensifique a erosão. Ao contrário, protege
o solo pelo seu sistema radicular e pelo seu manto de vegetação
que, recobrindo o solo, abriga-o das intempéries e dos excessos
dos fatores erosivos. Mas a monocultura da cana destruiu as florestas
e com essa destruição desorganizou o regime hídrico
da região, propiciando a intensificação dos
fatores erosivos.
Esses anteprojetos, desde que trazidos a esta Casa e considerados
por este Parlamento, poderiam se transformar nas leis que iriam
beneficiar, de muito, o Nordeste, não como um paliativo,
não como medida sentimental ou paternalista, sob forma de
caridade pública para com os famintos, os esfomeados retirantes,
que pedem a ajuda da região mais rica, do Sul, mas como um
plano verdadeiro de integração econômica do
País, de sadio nacionalismo econômico, no sentido de
que nacionalismo deve ser o aproveitamento adequado dos recursos
econômicos para o bem-estar da maior parte da coletividade
de um País.
Ao lado dessas medidas, seriam necessárias outras, que trariam,
certamente, para o Nordeste e para o Brasil, benefícios inestimáveis.
Lembro, por exemplo, que o Governo da República poderia,
considerando os planos das Nações Unidas, de assistência
técnica às regiões subdesenvolvidas, utilizar
os excedentes alimentares como elemento de financiamento para projetos
de desenvolvimento econômico do Nordeste.
A Índia tem hoje em andamento um projeto piloto neste sentido
e tive a felicidade de nele colaborar, quando presidente da Organização
de Alimentação e Agricultura das Nações
Unidas. E vejo que, atualmente, essa idéia prospera na Índia.
O Sr. Plácido Rocha – Teria imensa satisfação
em discutir com V. Exa. os problemas do Nordeste. Nordestino como
V. Exa., discordo inteiramente da opinião geral dos meus
nobres colegas nesta Casa, os nobres Deputados nordestinos. Todos
eles pugnam no sentido de que o Governo deve demonstrar interesse
magno nos problemas do Nordeste, principalmente no das secas.
Quero repetir, mais uma vez, porém, que sou nordestino tanto
quanto V. Exa. e amo minha terra tanto quanto V. Exa. e talvez mais.
Estou afastado do Nordeste há mais de 20 anos, muito embora
todos os anos tenha a satisfação de visitar minha
terra. Entendo que V. Exa., como todos os Deputados do Nordeste,
não estão colocando nos devidos termos a solução
dos problemas daquela região. O que devemos fazer é
retirar das regiões como Cabaceiras, na Paraíba, Cabrobó
na terra de V. Exa. e outras do Nordeste, aquela gente toda e levar
para lugares onde chova, como Goiás, Mato Grosso, Paraná,
Amazonas. Fora daí, é poesia de V. Exa., e dos demais
colegas. Devemos encarar o problema com objetividade, irrigar as
terras marginais do São Francisco. Se V. Exa. propusesse
isso, aí, sim, teria razão, mas querer dar assistência
ao lavrador em lugares onde não há chuva, é
utopia, e nesse ponto V. Exa. não tem razão.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Agradeço o aparte, mas
desejo dizer o seguinte: o que V. Exa. chama de poesia, é
o que tem feito a conquista de grandes áreas de extensão
territorial; com o que V. Exa. chama de poesia, é que se
está conquistando o Deserto do Saara; com o que V. Exa. chama
de poesia é que se está trabalhando na terra de Israel,
em lugares onde não cai uma gota de chuva e que hoje produzem
grandes colheitas agrícolas, com o orvalho da madrugada;
o que V. Exa. chama de poesia é a técnica que deve
ser usada em benefício da coletividade.
O Sr. Plácido Rocha – Mas, Senhor Deputado…
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – V. Exa. me permita responder
ao seu aparte.
Devemos aplicar no Nordeste esses conhecimentos. O Nordeste é
rico. Tem grandes recursos naturais. Possui recursos a serem explorados
pela indústria extrativa, e sua agricultura, pela irrigação,
promoverá um tipo de algodão de fibra igual ou superior
ao do Egito.
Precisamos encaminhar para o Nordeste capitais, para ali serem aplicados.
Os Deputados que não trabalham pelo Nordeste são aqueles
que, em lugar de fazer planos de desenvolvimento dessa região,
fazem emendas eleitoralistas para seus municípios, sejam
do Nordeste ou de outra qualquer zona do Brasil.
É o apelo que faço a esta Casa: se continuarmos como
Deputados eleitoralistas, destinando 80% do nosso tempo ao empreguismo,
a dar empregos e resolver problemas individuais; se fizermos uso
do Orçamento para atender a interesses puramente locais,
não resolveremos nem a situação do Nordeste
nem a do Brasil.
Deslocar para outras áreas as populações do
Nordeste seria ato impatriótico e errado.
Seria condensar em regiões já de alta densidade demográfica
excessos de população improdutiva.
O que temos de fazer é fixar o homem à terra. Para
isso, bastam leis e capitais bem orientados. E estes existem, a
par da capacidade dos nordestinos, que, quando vêm para outras
regiões, fundam, como fundaram em São Paulo, cidades
que nasceram como cogumelos e cresceram como florestas e hoje esplendem
na economia desse Estado.
É neste sentido que protesto contra as acusações
de V. Exa. àqueles deputados que defendem o Nordeste, porque,
defendendo o Nordeste defendem eles a integridade do Brasil.
Um dos perigos do desequilíbrio econômico nacional
é a ameaça de separatismo, a ameaça de agitação
social. É isso que devemos evitar e não o conseguiremos
enquanto houver regiões de riqueza e de miséria; de
fome e de luxo; de abandono e de privilégio. O Nordeste tem
sido uma zona abandonada, por culpa do Parlamento, não porque
não o defenda, mas porque não o tem feito da maneira
pela qual devia fazê-lo.
O Sr. Plácido Rocha – Continuo considerando o discurso
de V. Exa. poético e literário. A meu ver, as populações
nordestinas devem permanecer onde lhes for possível, cabendo
ao Governo dar-lhes toda a assistência. Os locais onde não
chove, como ocorre em muitos lugares, no Estado de V. Exa. e no
meu, devem ser abandonados temporariamente. Nos Estados Unidos,
as regiões assoladas pela seca só foram cuidadas convenientemente
quando o governo dispunha de meios para emprego da técnica
agrícola, quando podia efetuar irrigação, enfim,
fazer agricultura como deve ser. No mais, estou de acordo com V.
Exa.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – Agradeço o aparte do
nobre colega.
No Egito, na região do Nilo, não chove e, no entanto,
existe agricultura. No Nordeste existe o São Francisco, rio
exótico como o Nilo. No subsolo existe água e, com
poços tubulares, extrairemos essa água. Não
é hora de discutir esse processo.
O Sr. Oswaldo Lima Filho – Água do subsolo raramente
é aproveitável no Nordeste.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – O que desejo, para terminar,
se Vossas Excelências me permitem, é chamar a atenção
da Câmara para o caso do Nordeste, que deve servir de exemplo
e de lição. Não é possível, em
meados do século XX, que um País tido como civilizado,
deixe morrer de fome grande parcela de sua população.
O Sr. Oswaldo Lima Filho – V. Exa. me permite um aparte?
O SR. JOSUÉ DE CASTRO - Lamento, mas não posso mais
conceder apartes, uma vez que disponho de apenas 5 minutos.
O Sr. Oswaldo Lima Filho – É rápido, nobre colega.
No Município de Surubim, em Pernambuco, foram perfurados
10 poços. De nenhum se conseguiu água potável,
embora as perfurações atingissem 150 metros.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – No Saara V. Exa. pode perfurar
muitas vezes mil metros sem conseguir encontrar água. Isso
não quer dizer, porém, que se deva abandonar o traba1ho.
O Sr. Oswaldo Lima Filho – Mas Surubim não é
o Saara.
O SR. JOSUÉ DE CASTRO – No entanto, V. Exas. Estão
querendo que seja pior do que o Saara.
Como dizia eu, Senhores, é necessário que se mude
o rumo de nossa atuação parlamentar. Não é
possível continuarmos sem encarar o problema. Não
sou profeta de desgraças, mas, um realista. Acredito, como
Roland, que a mentira heróica é covardia. Devemos
dizer a verdade, arrostar com a verdade, ver o mundo como ele é
e amá-lo da mesma maneira. Amo o meu País. Amo o Nordeste.
Mas acho que o Brasil só se salvará da grave crise
econômica que atravessamos se pudermos fazer alguma coisa
que vença esse terrível desnível econômico.
Desnível que está ameaçando o porvir com uma
convulsão social.
Sobre esta ameaça desejo, a título de exemplo, ler
uma página das Origens da França contemporânea,
de Taine, onde ele descreve os dias que antecederam à Revolução
Francesa em 1789. A página é a seguinte:
“Na noite de 14 para 15 de julho de 1789, o Duque de La Rochefoucauld-Liancourt
acordou Luís XVI para lhe anunciar a tomada da Bastilha.
Então, é uma revolta? Perguntou o rei.
Sim, respondeu o Duque, é uma revolução.”
O acontecimento era ainda mais grave – e ele descreve, então,
a revolução. Diz:
“Duas causas excitaram a revolta popular: a primeira foi a
carestia que, permanente, prolongada durante dez anos e agravada,
pela violência, exagerou até à loucura todas
as paixões populares. Quando um rio corre até sua
borda, é suficiente pequena cheia para que ele transborde.”
Sr. Presidente, o rio, em sentido paradoxal, é a miséria
nordestina, que alcançou seu limite. Com pequena seca, transborda
e a miséria ameaça o País com uma agitação
social.
Devemos despertar com consciência, para, com consciência,
defender a democracia, trabalhando pelo desenvolvimento econômico
e social do Brasil, no sentido harmônico e equilibrado. E
isso só pode ser feito por uma reforma de base, que mude
a infra-estrutura econômica nacional. Para tanto, é
necessária a participação do Parlamento. Não
basta acusar o Governo de não tomar providências, porque
somos, também governo, na nossa qualidade de representantes
do povo.
Precisamos colaborar com o Executivo, compelindo-o a realizar as
medidas de salvação nacional.
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