ASSOCIAÇÃO MUNDIAL DE LUTA CONTRA A FOME

Não se pense que julgamos possível resolver o problema da fome universal apenas com a criação de um organismo especializado que viria, num passe de mágica, apagar da fisionomia de nossa civilização este traço negro. Não somos tão ingênuos nem tão otimistas. Sabemos que estão bem fincadas, nas estruturas econômicas do mundo, as raízes desse problema que só poderá ser extirpado, revolvendo-se profundamente toda a estrutura deste solo pantanoso de nossa civilização, onde a fome encontrou condições as mais favoráveis ao seu desenvolvimento.
Não estamos, pois, diante de uma moléstia a ser combatida isoladamente pela ação fulminante de um remédio específico. Não existe um específico para a fome. O que existe são catalisadores capazes de apressar as reações sociais que conduzirão o organismo social à depuração desta impureza ou resíduo dos tempos do feudalismo e da escravidão. É esta ação catalítica que julgamos indicada para o organismo cuja criação preconizamos: agir como um catalisador que acelere a transformação de um vasto conjunto ou complexo social no qual está indissoluvelmente englobado o fenômeno da fome. Agindo como força catalisadora poderíamos dispensar as estruturas monumentais e os recursos espetaculares, proporcionais ao imenso volume de problemas a encarar.
Como bem acentuou em carta que nos dirigiu sobre o assunto o nosso colaborador Noel Tynaire, não é a amplitude dos meios que é o fundamental, mas a definição precisa das condições catalisadoras. A primeira dessas condições impunha que o nosso organismo pudesse agir com completa independência das injunções políticas de toda ordem: que não estivesse sob a tutela dos governos de países com suas inevitáveis limitações de índole nacional, e com suas deformadas visões patriocêntricas de sobrevivência da era de Ptolomeu. Organismo capaz de pautar sua linha de conduta e a diretriz de suas atividades, num plano acima dos interesses particularistas de grupos, partidos, governos e blocos de países, no interesse exclusivo da humanidade. Deste modo, pareceu-nos que a forma mais indicada para este novo organismo era a de uma Fundação Internacional, instituição que, sem visar a lucros ou proveitos individuais de qualquer categoria, concentrasse e coordenasse os esforços de um certo número de indivíduos numa força coletiva capaz de interferir de maneira construtiva na dinâmica social do mundo. Internacional, por seu campo de atuação, mas supranacional em seu comportamento, a Associação Mundial de Luta Contra a Fome - a ASCOFAM - poderia captar o interesse e os recursos postos à disposição de personalidades e instituições realmente preocupadas pela solução de tão grave problema, em todos os países do mundo, sem nenhuma exceção.
As finalidades desta Associação estão claramente expostas nos seus Estatutos, onde se lê o seguinte:
"A Associação terá por fim promover, encorajar e organizar no mundo a luta contra a fome, notadamente despertando, desenvolvendo, apoiando, difundindo, preparando, supervisionando, realizando, direta ou indiretamente, estudos, pesquisas, iniciativas, atividades e ações de natureza a fazer conhecer, diminuir ou eliminar, direta ou indiretamente, a fome no mundo, isto sem nenhuma limitação. A palavra fome é tomada aqui no seu sentido mais amplo, compreendendo tanto a fome aguda, como a fome crônica, mesmo oculta, a fome quantitativa, como a fome energética, e a fome epidêmica, como a fome endêmica".
Para realização de suas finalidades, a ASCOFAM procurou concentrar sua ação em quatro setores de atividades, considerados essenciais:
1. Atividades visando a sensibilizar e a despertar a consciência universal acerca da significação e da expressão social do problema da fome;
2. Realização de pesquisas, investigações e inquéritos que permitam o conhecimento integral do problema da fome, de suas causas e efeitos, em diferentes quadros geográficos e dos meios mais eficazes de remover os fatores que entretêm esta calamidade social;
3. Formação de pessoal capacitado para as múltiplas tarefas que se impõem aos planos de desenvolvimento das regiões subdesenvolvidas do mundo, onde grassa a fome em massa;
4. Elaboração de projetos específicos de âmbito nacional ou regional, visando a incrementar o desenvolvimento econômico e a melhorar as condições de vida e de alimentação dos grupos humanos mal alimentados.

Desde sua fundação em Paris, em janeiro de 1957, que a ASCOFAM vem encontrando um apoio sensível de variados círculos e grupos humanos, os quais cada vez mais se alargam, constituindo uma verdadeira rede de militantes pelo mundo afora. Este apoio material e intelectual nos tem permitido avançar sem desfalecimentos na conquista de nossos objetivos.
Conta a ASCOFAM para a execução de suas tarefas, desde o seu início, com dois organismos especializados, que embora mantendo sua autonomia administrativa são funcionalmente filiados à nossa organização, trabalhando dentro de um plano de ação comum. São estes organismos, o IRAM, fundado sob a inspiração de Abbé Pierre e o IRFED, fundado e dirigido pelo Padre Joseph Lebret. Para que se possa bem compreender como se vem desenvolvendo a ação da ASCOFAM e seus organismos associados vale a pena inserir neste documento algumas palavras explicativas sobre cada um destes organismos especializados.
"Nasceu o IRAM da experiência do Abbé Pierre e das comunidades dos trapeiros de Emmaús. Entre as lições que se depreenderam destas realizações, havia uma fundamental que ultrapassava o simples problema do alojamento que deu origem a esta experiência e que alcançava os limites de preocupações de caráter internacional. O reagrupamento de alguns homens, selecionados entre as vítimas de um mal social e o exemplo do esforço empreendido por eles, constituíam, ao mesmo tempo, um começo de solução de um choque eficaz para suscitar iniciativas semelhantes noutros campos de ação e provocar medidas efetivas. Através do mundo, nos setores os mais desfavorecidos, encontravam-se homens em face de problemas análogos (a fome, o desemprego, a ignorância, a doença). Procurando aplicar a mesma idéia fundamental, eles tomaram contato com os grupos de trabalho orientados pelo Abbé Pierre e assim iniciou-se o IRAM. Entretanto, parece que durante muitos meses, esta Instituição procurou, com dificuldade, abrir o seu caminho: a verdade é que não era fácil encontrar o meio eficaz de lutar contra esses fatores negativos dentro das estruturas sociais vigentes. Daí a dificuldade dos colaboradores de Abbé Pierre em fixar as diretrizes e a própria estrutura fundamental deste novo organismo. Ora, a primeira reflexão que sugere o início de ação do IRAM e que devia servir de base na definição dos encargos futuros, era que o IRAM fora fundado para reunir, num mesmo esforço conjugado, pessoas animadas do mesmo espírito fundamental, sejam por estarem ligadas diretamente a iniciativas análogas as de Abbé Pierre, em diferentes setores econômicos e sociais do mundo seja, porque, num plano teórico se interessassem essas pessoas por esses problemas. Reagrupadas no seio do IRAM, estas pessoas punham em comum, através do mútuo enriquecimento, suas experiências e suas reflexões e permitiam dessa forma uma ação que poderia se manifestar bastante fecunda. Desta forma, o IRAM iniciou suas atividades através de três diferentes direções:
1. Provocar realizações semelhantes às suas em seu espírito e em seu método, criando um verdadeiro movimento de intervenções de base.
2. Difundir suas preocupações comuns para que a partir dessas realizações seja criada uma consciência mundial desperta, em face das diligências de um serviço imediato aos povos desfavorecidos.
3. Convencer os homens, de todas as técnicas e competências, da urgência de criação desse serviço e decidi-los a levar em caráter temporário ou definitivo, mas sempre num espírito desinteressado, seu auxílio necessário às regiões subdesenvolvidas.

Tem-se insistido muito sobre a importância de um espírito próprio ao IRAM. Não é fácil definir em que consiste este espírito próprio e fundamental e, no entanto, ele aparece claramente a todos aqueles que consideram que sem esta marca especial não havia razão de ser para a criação desse organismo. Encontra-se na sua própria origem esta razão de ser. Encontra-se na inspiração essencial daqueles que concretizaram essa idéia. As comunidades de Emmaús tiraram sua força de criação e sua eficácia humana e social no exemplo da própria realidade humana, na sua capacidade de resistência e nas suas inesgotáveis possibilidades. Foi, pelo fato de que um punhado de homens vindos do próprio mal que eles queriam combater, se tivessem engajado conjuntamente e sem outros meios que suas pobres energias humanas numa luta que parecia ultrapassar de muito as suas forças, que se produziu em torno dessas pessoas uma solidariedade daqueles que até então restavam na apatia ou na impotência. Esse esforço inicial desproporcionado ao gigantismo das tarefas a resolver, provocando, entretanto, um choque psicológico coletivo, veio trazer a adesão de todos e as decisões dos responsáveis pelo poder. O próprio começo do IRAM, nascido das comunidades de Emmaús, marca pois de um signo característico e particular o seu trabalho. De uma parte, a perspectiva na qual os membros se agrupam e encaram as suas tarefas sai absolutamente dos modelos clássicos das instituições de beneficência e dos empreendimentos de assistência social.
O IRAM não procura coletar meios materiais e humanos nas proporções dos problemas que aborda. Isto é feito pelas organizações internacionais já existentes. O papel essencial do IRAM se situa neste plano muito particular, onde as iniciativas fazendo apelo, a princípio, à animação humana preparam o terreno e mostram a possibilidade e a necessidade de ações bem mais vastas com meios mais importantes. Sem excluir o rigor técnico, as realizações do IRAM e suas pesquisas se definem como demonstrações de ações de choque: ações capazes de reincutir a esperança nas populações já desesperadas e marcar a primeira etapa do desenvolvimento econômico. O IRAM prepara, dessa forma, as condições de base que tornem possíveis as soluções adequadas ao problema desse desenvolvimento. É finalmente mais o espírito e os métodos do que os próprios meios postos em ação que caracterizam o trabalho do IRAM. As suas tarefas são de três ordens: intervenções, formação e informação, envio de auxiliares e voluntários às áreas necessitadas. O problema da formação e da informação constitui a pedra de toque, através do qual a idéia se dissemina e cada vez mais se agrupam militantes desta política desinteressada de elevação dos níveis humanos. Esta tarefa específica do IRAM, de recrutar indivíduos, não consiste apenas num despertar transitório de consciência, mas na criação de uma verdadeira rede de pesquisas e de amizades internacionais de caráter militante capaz de elevar e de concentrar esforços sobre as experiências de animação humana já existentes por toda parte para enriquecê-las mutuamente, de fazê-las conhecidas através do mundo e, sobretudo, para delas nos servirmos para novas realizações.
Dentro destes princípios orientadores vem o IRAM realizando uma obra de alta significação no que diz respeito à promoção do desenvolvimento econômico encarado como um objetivo fundamental para elevação da condição humana. Em vários países do mundo, principalmente nos países da África, este Continente que ora desperta, vem; a sua ação se fazendo sentir de maneira sensível. Como exemplo das atividades do IRAM, desejo citar o caso de Marrocos. Há cerca de três anos, fomos convidados oficialmente por Sua Majestade Mahomed V., sultão daquele país, para estudar as condições de vida e a situação econômico-social do Marrocos, logo após a sua independência. Elaboramos um relatório sobre a matéria, preconizando a necessidade imediata de um grande plano de ação capaz de estimular, através de uma rede cerrada de animadores rurais, a produção agrícola do país que se mostrava com terrível insuficiência para atender às necessidades alimentares deste povo. Em nossa viagem ao Marrocos, tivemos ocasião de verificar o terrível problema do desemprego e das grandes massas de populações marginais que formavam as favelas em torno das grandes cidades do país. As sugestões do nosso relatório foram em grande parte aceitas e, através do IRAM, se constituiu a primeira experiência de formação de animadores sob a direção de Ives Goussault. Esta experiência frutificou e foram se disseminando pelo país os animadores rurais que têm contribuído certamente, de maneira sensível, para melhorar a situação de vida das populações nativas do Marrocos. Aí está um tipo de exemplo do que pode realizar, com pequenos recursos, mas sob a animação de um espírito de verdadeira cooperação e solidariedade humana, uma Instituição como é o IRAM filiado à Associação Mundial de Luta Contra a Fome."

Vejamos agora qual a estrutura e as finalidades do outro organismo que trabalha sob a inspiração e filiação de nossa Associação, que é o IRFED.
"O IRFED - Centro Internacional de Formação e de Pesquisa para o Desenvolvimento Harmônico - foi fundado a 27 de março de 1958, sob a forma de uma Associação declarada sem fins lucrativos, através da lei de 1º de julho de 1901, da França.
Conforme seus estatutos, ele se propõe a um quádruplo fim:
1. A orientação e a seleção de técnicos, assistentes e peritos, propondo-se a trabalhar a serviço dos países sub-equipados.
2. A informação e a formação dessas diversas categorias de pessoas, homens e mulheres, originados dos países bem desenvolvidos e dos países sub-equipados, a fim de que se encontrem aptos para participar eficazmente nos diferentes setores do desenvolvimento harmônico desses países.
3. A pesquisa com os especialistas de diversas disciplinas dos métodos mais adequados para assegurar um desenvolvimento que respeite as diversas civilizações e culturas.
4. A livre ação com os antigos alunos da Instituição a fim de auxiliá-los em sua ação e a beneficiar, com a sua experiência, as regiões necessitadas associando-os à pesquisa e à formação.

O desenvolvimento encarado aqui é o desenvolvimento integral e harmônico, isto é, ao mesmo tempo econômico, técnico, social e humano permitindo a valorização do conjunto dos recursos e das possibilidades. Na conjuntura mundial atual, uma tal atividade tornou-se um dever essencial de cooperação, entre países desenvolvidos e países menos desenvolvidos. É igualmente nessa perspectiva de cooperação que deve se situar hoje todo o esforço de implantação industrial, de atividade financeira ou comercial nos países insuficientemente equipados. O IRFED deseja trazer sua participação à solução dos problemas do desenvolvimento integral e harmônico dentro do respeito aos valores de cada civilização. Deixando aos Institutos mais especializados o ensino de certas disciplinas de base que são necessárias ao auxiliar, ao assistente e ao técnico ou aos Institutos que escolheram deliberadamente um estudo mais intensivo de certos aspectos do desenvolvimento, o IRFED concentra suas atividades na análise das necessidades das populações e das possibilidades de dar-se atendimento a essas entidades, assim como sob os princípios da arbitragem em vista de objetivar orientações e decisões a serem tomadas pelas autoridades competentes. Procura, assim, essa Instituição assegurar aos futuros assistentes e auxiliares dos planos de desenvolvimento os seguintes requisitos:
1. Uma formação psicológica e ética, a fim de que os alunos sejam não somente especialistas capacitados, mas que sejam animados de um intenso desejo de bem-estar social para os países a desenvolver e que eles saibam compreender civilizações diferentes e simpatizar com as populações às quais eles devem levar a sua colaboração.
2. Um alargamento de visão lhes permitindo melhor colocar seus próprios trabalhos na perspectiva geral do desenvolvimento.
3. A aptidão a empreender estudos locais ou regionais ou nacionais permitindo às autoridades e às elites melhor perceber as condições de desenvolvimento mais adequados para seus países.
4. A aptidão a estudar as estruturas, o emprego e as modalidades de passagem de uma situação de subemprego a de emprego mais intensivo em função das necessidades e das possibilidades de desenvolvimento.
5. A capacidade de indicar, depois dessas análises, quais os estudos que devem ser realizados sobre tal ou tal problema ou sobre tal ou tal território.

No espírito que criou o IRFED, a formação humana não deve ser separada da pesquisa aplicada, levada a efeito por sua vez em íntima ligação com pesquisadores já formados no próprio terreno e com os antigos alunos já colocados. O IRFED procura, antes de tudo, adaptar esta formação a cada candidato, segundo suas capacidades próprias e as necessidades particulares dos países que mais o atraem. O Centro prepara técnicos de tanta especialização, selecionados em vista de sua atividade nos países a desenvolver, em todos os planos de ação que comporta o desenvolvimento. É preciso segui-los um a um em função de suas capacidades e de suas tendências vocacionais, orientando-os para o campo de maior rendimento do seu trabalho. É preciso, ainda, segui-los durante seu trabalho nos países a desenvolver. Um dos fins do Centro é preparar equipes polivalentes de zona homogênea, de região e de Nação, compreendendo equipadores complementares.
Em seu ensino direto o IRFED prepara principalmente:
1. para o trabalho em equipes polivalentes, compreendendo equipadores dos países a desenvolver;
2. para a análise sistemática das situações e das necessidades das populações por camada social ou por zona homogênea;
3. para estudos das potencialidades e possibilidades em face dessas necessidades;
4. para arbitragem de importância ou de urgência entre as necessidades e as intervenções que possam responder a essas necessidades;
5. a direção de estudos regionais em vista do aproveitamento racional dos territórios.

Trata-se no total de uma formação global do conjunto dos aspectos econômico-sociais para compreensão e para respeito dos valores humanos das populações e das civilizações diferentes. O objetivo final a atingir é a passagem por uma população determinada, de uma fase menos humana a uma fase mais humana, no ritmo mais rápido possível e ao menor custo possível, levando-se em conta a solidariedade entre todos os componentes e entre todas as populações. O IRFED deseja cooperar estreitamente com todos os organismos que se consagram à pesquisa, tirando as conclusões dos estudos já efetivados sobre o terreno por seus membros e dos estudos que serão feitos ulteriormente pelos assistentes orientados e preparados sob seus cuidados. Enfim, o IRFED deseja, graças às suas conclusões e à pesquisa aplicada, contribuir para a elaboração de uma dinâmica do desenvolvimento, das fases do desenvolvimento e das condições de utilização nas quais se encontram os países a desenvolver. O IRFED, em suas perspectivas, é essencialmente um centro de orientação, de estudos e de ensino a serviço de pessoas de quaisquer nacionalidades que desejam levar o seu concurso, terminado o período, às populações dos países ou às frações de países ainda insuficientemente desenvolvidos."

Aí estão, em linhas gerais, as atividades desses dois organismos filiados à ASCOFAM.

Além das atividades desenvolvidas através destes dois organismos que têm sido de indiscutível eficácia, a ASCOFAM tem contribuído diretamente para melhorar as condições alimentares dos grupos humanos através de uma ação polivalente. Por sua iniciativa, foram elaboradas várias publicações esclarecendo aspectos particulares dos problemas da fome e filmes documentários que mostram a realidade social em diferentes regiões do mundo. Neste setor de atividade, cumpre-me ressaltar a inestimável cooperação que temos recebido de várias organizações de rádio e televisão, tais como a televisão francesa, a italiana, a suíça, a canadense, que organizaram grandes reportagens acerca deste fenômeno, ajudando, extraordinariamente, o trabalho de educação da opinião pública.
Também inúmeras publicações periódicas organizaram números especiais dedicados ao problema da fome universal, divulgando e propagando conhecimentos e ensinamentos sobre a matéria. Cito, a título de exemplos, a publicação de um número especial da Revista Italiana "Ulysses", da revista francesa "AGRO", da Revista "Science et Humanité", da Associação Mundial de Trabalhadores da Ciência, etc.
Várias universidades e instituições culturais organizaram também simpósios, cursos e congressos sobre este mesmo tema e na maioria dos casos estas iniciativas são levadas a efeito em cooperação com a ASCOFAM. Destacamos por sua importância, o curso da Escola de Verão da Universidade do Chile que, sob a orientação do Prof. Hernan Santa Cruz, estudou o problema da fome no século XX, e o curso da Universidade Internacional de Estrasburgo que encarou o estudo do mesmo problema e suas implicações políticas, econômicas e sociais. Os Encontros Internacionais de Genebra, em 1960, tiveram também como tema de debates a Fome.
A verdade é que nunca se falou tanto em fome no mundo, embora a fome seja uma coisa tão velha quanto a humanidade. É a sua tomada de consciência universal. O Presidente Eisenhower visitando a Índia lançou o plano "Alimentos para a Paz" e Kruschev ao visitar os E.U.A. convidou o governo norte-americano a juntar-se com a U.R.S.S. para que juntas, estas duas grandes potências declarassem uma guerra de extermínio à fome e à miséria universais.
Aproveitando este clima favorável à propagação do assunto, a ASCOFAM vai semeando por toda parte os princípios de uma filosofia de ação à base da qual está a convicção de que a fome pode ser vencida e exterminada pela vontade e determinação dos grupos humanos.
Em vários países do mundo a ASCOFAM instalou seus comitês nacionais, os quais vão, em diferentes níveis, trabalhando no sentido de cooperar com os governos na tarefa de combater a fome e a subnutrição. Como exemplo da ação em escala nacional damos aqui um resumo das atividades do Comitê Brasileiro da ASCOFAM, ou seja, a ASCOFAM brasileira, que, até bem pouco, fora presidida pelo saudoso estadista, o Embaixador Oswaldo Aranha, recentemente falecido. Sobre as atividades da ASCOFAM no Brasil transcrevo, pois, trechos do documento preparado pelo Secretário-Geral da mesma, o Prof. Sousa Barros, e apresentado ao seu Conselho Diretor:
"Dentre as iniciativas que teve a ASCOFAM brasileira destacamos a seguir aquelas de maior significação e de maior interesse como exemplos demonstrativos do tipo de ação que desenvolve a ASCOFAM:
Seminário de Endemias e Desnutrição - A realização do Seminário de Endemias e Desnutrição do Nordeste, na cidade de Garanhuns, Pernambuco, merece especial destaque. Este conclave científico contou com a participação de uma centena de médicos, através dos órgãos mais destacados de Saúde, Higiene e Assistência do País.
A maneira objetiva com que foram conduzidos os trabalhos e o alto nível científico dos relatórios apresentados e dos debates estabelecidos conduziram esta reunião ao seu pleno êxito, ultrapassando todas as expectativas.
O aspecto mais significativo dessa reunião e que merece um registro especial foi a perspectiva em que se colocaram os homens de ciência que dele participaram em face da situação econômico-social da região do Nordeste.
Não procuraram esconder a sua feia realidade, escamoteando dados e fatos científicos, mas encararam o quadro sombrio da desnutrição e das doenças endêmicas como decorrências naturais do subdesenvolvimento econômico desta região brasileira.
Organização de um filme sobre o "Drama das Secas" - A ASCOFAM internacional resolveu documentar a calamidade das secas do Nordeste. Realmente, este filme se pode capitular como o primeiro documentário com orientação científica sobre o "Drama das Secas", no Nordeste brasileiro, mostrando as repercussões do problema sobre as populações de diversos Estados, pertencentes ao chamado Polígono das Secas. O interesse do filme foi comprovar, sobretudo, que o Nordeste é recuperável e que a miséria de suas populações é mais dependente da estrutura econômica do que das calamidades. O filme foi incisivo em mostrar que os oásis já criados em plena zona seca provam a possibilidade da vida humana e do desenvolvimento da própria agricultura para fixar as suas populações e aumentar, de certo modo, a sua densidade. Isto sem falar nos aspectos de desenvolvimento que podem ser norteados do ponto de vista da exploração dos minérios, recursos estes que a Região detém em condições apreciáveis dentro do quadro brasileiro. Sendo a única região brasileira com disponibilidade de energia elétrica, e com abundante mão-de-obra ociosa que pode ser facilmente transferida de sua agricultura incipiente para o campo da indústria, o filme vem provar à sociedade que o programa das metas oficiais deve alcançar o Nordeste e levar-lhe os recursos que a sua população reclama, para integrar esta área no plano de desenvolvimento do País.
Projeto de enriquecimento da farinha no Nordeste - O enriquecimento de alimentos pobres em valor nutritivo já é uma prática consagrada pelos nutricionistas de todo o mundo. Organizações internacionais, como a FAO, OMS, ASCOFAM, etc, dedicam grandes esforços no sentido de tornar eficientes os processos de enriquecimento, através de princípios gerais que possam surtir efeito a curto ou longo prazo.
Se bem que, sob o ponto de vista da técnica do enriquecimento, não haja mais contestação, desde que observados os princípios de saúde pública, vários são, no entanto, os problemas que surgem, quanto aos aspectos sociais e econômicos.
No caso brasileiro, por exemplo, poucos poderiam ser os alimentos passíveis de enriquecimento e que, pela sua geral aceitação e utilização pelo povo, determinassem visíveis melhorias no status nutritivo das nossas populações, principalmente rurais.
Logo após a sua instituição, a Comissão Nacional de Alimentação iniciou, sob a orientação do Prof. Josué de Castro, estudos em torno do assunto, inclusive através do envio de técnicos aos Estados Unidos, para sua especialização.
Após a criação da Associação Mundial de Luta Contra a Fome, o assunto vem tomando cada vez mais corpo, já que o enriquecimento de produtos da dieta popular, especialmente o da farinha de mandioca, é um dos pontos altos do programa de realização desta Associação.
Criando-se a Delegacia do Nordeste foram estabelecidos postos de enriquecimento no Recife, em Caruaru e em Araripina.
Apesar de não termos conseguido, nessa primeira fase, a introdução do produto enriquecido, na escala desejada, uma vez que tivemos de lutar com inúmeros óbices, serviu o Convênio realizado com a Legião Brasileira de Assistência para lançar, definitivamente, no País, a idéia de um plano de enriquecimento de produtos pobres em teor protéico e sais minerais, como é o caso da farinha de mandioca, de uso tão generalizado na dieta popular. Vimos, ainda, como a promoção da ASCOFAM, ajudada pela Legião Brasileira de Assistência, pôde despertar, em organismos vários e mesmo no seio da iniciativa privada, a atenção para esse problema, resultando daí pedidos de Associações Paroquiais, Prefeituras Municipais, Organizações mantidas por alguns Bispados e mesmo firmas comerciais que procuram instruir-se sobre o processo e pedem ajuda da ASCOFAM, neste particular.
Várias firmas comerciais se propõem, não só a enriquecer a farinha, como a preparar concentrados de alto teor protéico com a própria folha da mandioca para esse enriquecimento, que é outra experiência divulgada pela ASCOFAM.
Ao lado do lançamento da farinha enriquecida, em locais como Postos do Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), Mercadinhos da Comissão de Abastecimento e Preços (COAP), hospitais, abrigos e instituições de caridade, cantinas militares, refeitórios fabris etc, lançamos uma experiência, testemunho dos resultados da farinha enriquecida entre pessoas com graves carências alimentares. Trata-se da experiência levada a efeito em Surubim (Pernambuco), cujo relatório publicado no Boletim da ASCOFAM, evidencia os ótimos resultados obtidos.
Estudos de Estrutura Agrária - Em princípios de 1959, criou-se a Equipe para Estudos de Estrutura Agrária Brasileira, a qual realizou uma série de pesquisas em torno deste importante problema, de cuja solução depende, em grande parte, a emancipação alimentar das populações brasileiras.
Entre os trabalhos realizados, convém destacar: uma Bibliografia sobre Estrutura e Reforma Agrária; o Balanço dos Projetos de Lei referentes aos problemas da terra; o lançamento da pesquisa sobre reforma agrária no Brasil e o Estudo do economista Moacir Paixão sobre um projeto de reforma agrária brasileira, baseado num critério econômico, ou seja, no custo real desta reforma, e onde o assunto é encaminhado pela primeira vez, com possibilidades de efetivação, dentro de um prazo de 5 anos. O projeto de Moacir Paixão será brevemente publicado pela ASCOFAM.
Plano Nacional de Complementação Protéica dos Grupos Vulneráveis - Congregando todos os órgãos de Governo que se preocupam com alimentação no Brasil, lançou o presidente da Associação Mundial de Luta Contra a Fome, através da ASCOFAM nacional, esse plano de complementação protéica, da alimentação brasileira, a começar pela alimentação das populações mais carenciadas. Este plano compreende:
1. Estudos para o aproveitamento de nossas fontes de proteínas vegetais de primeira qualidade (soja, amendoim, castanha de caju etc.);
2. Estudos para o aproveitamento de proteínas de animais (sangue, vísceras, peixe etc.);
3. Projeto de industrialização de produtos ricos em proteínas;
4. Fomento à produção de rações balanceadas destinadas a animais".

No que diz respeito à intervenção no plano econômico, a ASCOFAM tem procedido a elaboração de projetos, entre os quais julgamos oportuno destacar dois deles: o Plano Verde Internacional e o Projeto de Proteínas para a América Latina.
O Plano Verde Internacional visa à conquista dos desertos e sua transformação em regiões cultiváveis, para ajudar a luta contra a fome.
Para a realização desse projeto tem-se em vista utilizar uma faixa desértica, como zona demonstrativa, e nela se aplicar as mais modernas aquisições da ciência nos seus diferentes ramos, da agrologia à hidráulica, para neutralizar os fatores inibitivos que têm provocado a formação dos desertos. Nosso fim nesse projeto é demonstrar um certo número de princípios que dominam nossa ação de luta contra a fome:
1. A princípio provar que os desertos são perfeitamente cultiváveis, no momento, pela aplicação dos conhecimentos da ciência e que o único obstáculo à sua utilização é que o preço de custo desse empreendimento é relativamente elevado. Se se escolher faixas desérticas estrategicamente colocadas, em face das zonas de consumo e bem escolhidas de acordo com certo número de condições naturais que podem permitir a obtenção da água, cuja ausência constitui o fator inibitivo habitual nas zonas de desertos quentes, pode-se perfeitamente obter culturas nos desertos em bases econômicas.
2. Pode-se, em seguida, provar que pela incorporação das regiões desérticas e semidesérticas é perfeitamente possível integrar às terras cultivadas um enorme potencial de cultura que pode transformar inteiramente a situação alimentar no mundo.
3. Podemos também provar que é perfeitamente possível obter no campo da ciência e da técnica uma cooperação efetiva entre os dois mundos, o Ocidental e o Oriental, entre os quais o nosso planeta está até o momento socialmente dividido.

Verifica-se através desta rápida exposição que a ação da ASCOFAM se fez sentir pelo mundo afora, do Canadá à China, do Chile à Índia. Durante os últimos 3 anos visitamos países de todos os continentes e por toda parte encontramos uma consciência preparada para enfrentar o problema. Através de suas atividades, principalmente através do impacto dos elementos de informação que a ASCOFAM vem difundindo por toda parte, a sua ação deve ter contribuído com alguma eficácia para que maior atenção fosse dada ao problema de combate à fome, não em termos paternalistas, mas em termos de equilíbrio econômico do mundo. O seu rendimento não pode e não deve ser medido em termos de realizações já materializadas, em termos de toneladas de alimentos produzidos ou de milhões de dólares invertidos na produção de alimentos. A justa medida de sua eficácia é o nível da consciência coletiva acerca deste problema alcançado nos últimos anos em todos os quadrantes da terra.
Todo este borbulhar de aspirações e de reivindicações dos povos que passam fome e do despertar de consciência dos povos que se encontram na liderança econômica do mundo, conduziram a uma nova concepção do problema que começa a tomar forma. Uma demonstração categórica deste grande avanço, desta verdadeira vitória moral contra o tabu da fome, foi a aprovação da Campanha Mundial Contra a Fome, concebida e empreendida pela FAO a partir de 1960.