Fernando
Dil (1970)
PROSPECTIVA – A ÚNICA CIÊNCIA
Em maio, Josué de Castro, hoje empolgado pela ecologia e
pela prospectiva, deverá pronunciar algumas conferências
nos Estados Unidos e Canadá sobre A Sociedade em Mutação.
“O jogo possível do homem de amanhã é
baseado mais nas mutações do que na evolução.
Usando o método da prospectiva, devendo ter a prudência
de admitir que a característica da nossa era não é
a da evolução. As paisagens de todo o mundo mudaram
pela influência da tecnologia. Ou o homem muda de pensar ou
desaparece. Daí, a necessidade de que haja uma transmutação
humana à altura da transmutação geral que se
está a passar no mundo, sob a forma de civilização”.
“A prospectiva – anunciou Josué na Sociedade
de Geografia de Lisboa – é uma ciência que tem
metodologia própria. Usa a análise dos fatos, promove
a projeção das tendências constatadas no passado
e no presente. Hoje, os fatos estão carregados de futuro.
A noção de base da prospectiva é a noção
das probabilidades. É talvez a única ciência
ou a mais essencial das ciências para os países subdesenvolvidos.
Ela é, por excelência, uma ciência que usa os
conhecimentos de múltiplas ciências, imbricadas umas
sobre as outras” (Louis Armand chama a esse fenômeno
“a encruzilhada das ciências” ).
NORDESTE - LABORATÓRIO DE PESQUISAS
Josué de Castro é um dos mais rigorosos e conseqüentes
analistas científicos da América Latina e, por extensão,
do Terceiro Mundo. Tudo começou dos seus estudos sobre o
Nordeste do Brasil, um autêntico laboratório de pesquisas
sociais, área escaldante de 20 milhões de habitantes,
a zona que no início dos anos 60 foi a segunda maior preocupação
dos Estados Unidos, na América do Sul. (Cuba surgiu no primeiro
plano).
Ele é o investigador e o homem. A sua posição
de sociólogo é radicalmente anticlássica. Fomenta
um trabalho participante, não comprometido com a ideologia
do imobilismo, multo própria do que se poderia chamar de
uma sociologia acadêmica. O seu engagement é o do conhecimento
científico. Para “fotografar” os fenômenos
sociais não é preciso uma imagem estática:
“A nova sociologia considera a estrutura social como um processo
em constante e rápida transformação”.
Trata-se de um homem do deserto tropical. Filho e neto da seca.
Seu avô foi retirante em 1877, na catastrófica crise
que transformou o Nordeste brasileiro num outro Saara.
NÃO PODEMOS FICAR COMO ESPECTADORES
“Eu sou um animal pré-atômico. Aqueles que nasceram
na era atômica, os animais atômicos, é que são
os responsáveis pelas soluções de amanhã”.
E adverte que precisamos repensar nos problemas do mundo.
“Nós não podemos passivamente esperar o futuro,
pois, assim, seremos esmagados por ele. O homem de hoje tem que
criar o seu futuro. Já não podemos ficar como espectadores.
Não podemos ser mais os homens de pensamento e de ciência,
simples teóricos da acepção grega da palavra.
Podemos ser espectadores num mundo ameaçado pela bomba atômica?
Na hora em que começar o match atômico não haverá
espectadores.”
NOVA ÓTICA PARA OS PROBLEMAS
Josué de Castro, quase um milhão e meio de livros
vendidos em 25 línguas, acredita que se houver, hoje, uma
guerra atômica, os únicos animais que poderão,
talvez, sobreviver, serão os caranguejos. (Outros acham que
serão as baratas.).
Irreverente, provocador e atormentado foi no princípio da
década de 30, particularmente cheia de bruscas mudanças
históricas na vida brasileira, que travou “contato
direto com o drama da fome”.
De toda a experiência vivida no Nordeste, Guerra dos Canudos,
Revolução de 30, fenômenos místicos,
capítulo do cangaço, etc., nasceu, depois, a Geografia
da Fome. O ABC desta “Geografia” – que, em seguida,
deu em Geopolítica da Fome (a sair brevemente em edição
revista na França), foi O Ciclo do Caranguejo, que desencadeou
no Brasil e no mundo uma nova ótica para os problemas sociais
do Nordeste.
UMA CUBA 100 VEZES MAIS PERIGOSA
Diz Josué de Castro que o Nordeste é um exemplo típico
da geografia econômica do continente latino-americano. “Foi
descoberto pelos portugueses em 1500 e pelos norte-americanos, em
1960”.
Nos primeiros anos da década passada, aquela área,
em plena ebulição social e política, ao lado
dos fatores místicos e ideológicos advindos do surgimento
das Ligas Camponesas, agitou o interesse da opinião pública
e do Governo dos Estados Unidos, e surgia– segundo o New York
Times – como uma Cuba, 100 vezes mais perigosa. Os livros
daquele cientista eram, então, permanentemente citados como
documentos para o estudo da região.
“A América Latina depende quase toda de um só
comprador-fornecedor. Tal situação desperta um amargo
ressentimento e prepara o caldo de cultura de grandes desordens
políticas”.
PARA ALÉM DOS MUROS FECHADOS
É preciso desenvolver o complexo tecido da consciência
coletiva. Da teoria à prática, o quadro da organização
de um povo deverá ser distribuído entre a ética,
a política, a técnica e a força. Da harmonia
desses quatro elementos, interligados, é que se espera a
marcha regular do conjunto e a conseqüente concretização
do seu objetivo que é o bem comum dos que o compõem.
“O homem tem que mudar culturalmente para sobreviver na nossa
era. Cultura quer dizer digestão, assimilação,
compreensão. Um indivíduo pode ser analfabeto e culto
ou pode ser erudito e de uma cultura bárbara. A erudição
não quer dizer cultura”.
Josué de Castro, Prêmio Roosevelt, da Academia Americana
de Ciências Políticas, e Prêmio Internacional
da Paz, do Conselho Mundial da Paz não admite que o cientista
permaneça “dentro dos muros fechados do seu laboratório,
preocupado com a sua especialidade, olhando o seu pequeno grão
de areia”, com indiferença total pelo que se passa
no mundo.
“As ciências vão-se acabando, porque se vão
reunindo”. Daí ele dizer que já não se
pode ser especialista. E pergunta: “Que é a saúde?
É o equilíbrio biológico do homem”. E
insiste: “...De maneira que, hoje, para se saber medicina,
é preciso saber economia, sociologia, geopolítica,
geografia, etc.” Aqui surge a prospectiva.
NEM CAPITALISMO, NEM COMUNISMO
Preocupado com o futuro biológico do homem no ano 2000,
com a estrutura política, que dominará o mundo no
próprio século (acredita que nem capitalismo, nem
comunismo, mas uma outra coisa), Josué de Castro acha que
o necessário é provocar uma espécie de confrontação
da verdade, mesmo que defenda, como Heisenberg, que não há
uma verdade absoluta. (De acordo com Heisenberg, o real não
é senão o possível, na perspectiva de quem
o observa. “A transição do possível ao
real tem lugar sempre durante o ato de observar)”.
Tão otimista quanto Teilhard de Chardin (neste aspecto),
Josué pensa que “um dia é possível que
a sociedade, em conjunto, se constitua como organismo único”.
Mas, para isso, é preciso que ela seja condensada em torno
de um pensamento comum.
“Se o homem hoje quer sobreviver na era atômica, ele
precisa repensar. Repensando, é possível que o homem
passe do grau de homem a um outro grau de complexidade, que seria
a sociedade desde que esta tenha uma cultura universal”.
O universalismo de Josué de Castro – é ele mesmo
que o diz – é sempre posto em termo de comparação
com os valores da terra onde nasceu e onde formou a sua mentalidade.
Nunca se libertou inteiramente da crosta telúrica que recobre
a sua pele e a sua alma, o que dele faz um eterno regionalista.
UTOPIA DE EXPORTAÇÃO
Mas “um homem interessado pelo espetáculo do mundo”:
– “Durante anos, o que se chamava cultura, os grupos
cultos da América Latina tinham uma falsa cultura, uma cultura
postiça. Uma cultura européia não originada
como um produto de secreção autêntica do homem
latino-americano, no próprio quadro ecológico latino-americano.
Era uma cultura de verniz, de maneira que eles não conheciam
os problemas, realmente, da América Latina. Daí, a
literatura ser falsa. Daí, a ciência ser uma ciência
de importação, que eu chamo ‘utopia de exportação’”.
“Hoje, há o interesse pelos seus próprios problemas.
Mas, infelizmente, os cientistas, especialmente os de ciências
humanas, os sociólogos, os antropólogos, os etnólogos
que se formam nos grandes centros de cultura européia e norte-americanos,
não têm nem linguagem, nem metodologia, nem conhecimentos
capazes de trazer uma interpretação real para os problemas
sócio-econômicos da América Latina”.
“A novela latino-americana é uma revelação
desse sentimento que não se sabe ainda exprimir cientificamente.
Se me perguntassem quais são os melhores livros de sociologia
da América Latina, diria que são os de alguns novelistas
da América Latina. E quais os piores? Eu digo que são
os de alguns dos grandes sociólogos latino-americanos”.
IGUAL A UMA GIRAFA
É como sociólogo que Josué de Castro é
professor na Universidade de Vincennes, em Paris. “O Problema
do Subdesenvolvimento” e “As Relações
entre o Mundo e o Terceiro Mundo” são as lições.
Uma anedota diz que um país subdesenvolvido é como
uma girafa: difícil de se descrever, mas fácil de
se conhecer de longe. Há, hoje, no mundo, quase 600 milhões
de crianças subnutridas e uns 40 milhões de seres
humanos morrem de fome, em cada ano. O baixo índice de desenvolvimento
e o crescimento acelerado da população mundial faz
da fome um dos mais graves problemas do mundo.
O professor tem uma concepção muito clara sobre o
tema: subdesenvolvimento não é estritamente ausência
de desenvolvimento; é, sim, um produto do desenvolvimento.
O desequilíbrio econômico e técnico entre os
“mundos” é que determinou esta plataforma de
separação, se bem que se verifiquem micro-sociedades
subdesenvolvidas dentro dos próprios agrupamentos desenvolvidos.
Assim, jamais haverá paralelo nas riquezas. Os subdesenvolvidos
são as células vivas dos desenvolvidos. O Ano 2000,
livro do futurólogo Hermann Khan, assim o prova muito bem.
Alguns dos países pobres de hoje estarão mais miseráveis,
ainda, no início do próximo século. Essa desvantagem,
naturalmente, será a riqueza de alguns outros que subirão
de nível.
O MUNDO NÃO MORRERÁ DE FOME
“Mas tecnicamente o mundo não morrerá de fome.
A fome é hoje um problema político” –
diz Josué de Castro. Porém, a fome como uma contingência
biológica é como ele a trata no seu livro Geografia
da Fome, uma pesquisa quase ritual da questão. Nele o autor
é o médico, o sociólogo, o historiador, o político:
“Não é, somente, agindo sobre o corpo dos flagelados,
roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos na sua
pele, que a fome aniquila a vida do sertanejo mas, também,
atuando sobre o seu espírito, sobre a sua estrutura mental,
sobre sua conduta social. Nenhuma calamidade é capaz de desagregar
tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade
humana como a fome, quando alcança os limites da verdadeira
inanição. Fustigados pela imperiosa necessidade de
se alimentar, os instintos primários exaltam-se, e o homem,
como qualquer animal esfomeado, apresenta uma conduta mental que
pode parecer a mais desconcertante. Muda o seu comportamento, como
muda o de todos os seres vivos alcançados pelo flagelo, na
mesma área geográfica.” (Trecho de Geografia
da Fome).
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