João Cândido morreu na noite do dia 6 de dezembro de 1969, de câncer, no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Chovia torrencialmente no dia de sua morte, como escreveu Edmar Morel em seu livro. Tempo ruim para as embarcações. O marinheiro faleceu sem ouvir uma das mais belas homenagens que lhe foi feita, a música O Mestre-Sala dos Mares, composta por Aldir Blanc e João Bosco nos anos 1970 e imortalizada nas vozes de Elis Regina e do próprio João Bosco.
Na letra original, João Cândido era o Almirante Negro, o Dragão do Mar, que guiava poderosos navios de guerra com a dignidade de um mestre-sala. Mas o Brasil vivia a intolerância da ditadura militar, sob o comando do presidente Ernesto Geisel, e a música de Aldir Blanc e João Bosco parou na mesa dos censores. Blanc relatou, em uma entrevista, que foram várias as idas ao departamento de Censura para liberar o samba. Naquele tempo, era praticamente inadmissível que uma canção homenageasse um marinheiro negro que havia se revoltado contra o governo, quebrado a hierarquia e participado de uma revolta em que morreram oficiais da Marinha.
Num dos últimos encontros com os censores para tentar aprovar a letra, sem saber qual era o problema, Adir Blanc questionou o motivo de o samba continuar sendo censurado, já que haviam trocado palavras como almirante, marinheiro etc. Também tinham mudado o título de Almirante Negro para Navegante Negro, para não ofender a oficialidade da Marinha. A resposta apresentou Blanc ao preconceito racial que ainda imperava no governo brasileiro. Ele diz ter ouvido, estarrecido, que o problema era a palavra negro, dita várias vezes, inclusive no título original, Almirante Negro. Com a “dica” do censor, os compositores deram uma sacudida no texto e chegaram ao título O Mestre-Sala dos Mares. Veja a seguir a letra original e a letra censurada.

O MESTRE-SALA DOS MARES

No recorte de jornal a letra original
e abaixo a letra censurada
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar, na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam nas costas dos santos
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava, então!
Glória aos piratas, às mulatas, às baleias!
Glória à farofa, à cachaça, às baleias!
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
(Mas, salve ...)