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Dilceia Norberto de Oliveira
(PUC-Rio) Pontifícia Universidade Católica
Rio de Janeiro – RJ
Ensino Superior
1º lugar
O HERÓI NEGRO

Chilep! Chilep! Faz a chibata, mesmo depois de 1888, ano em que foi assinada a Lei Áurea extinguindo a escravidão no Brasil. O papel estava lá. Mas trezentos anos de hábito de maus tratos e humilhações também. Em 24 de junho de 1880, na escuridão do cativeiro, Inácia Felisberto, pele cor da noite, deu à luz João Cândido. O menino recebeu o nome do pai. Pai e mãe, ex-escravos. Sobreviventes numa fazenda da cidade de Rio Pardo, no Rio Grande do Sul.

João Cândido percorreu sua infância ao som dos ecos do açoite que, sem dó, causava dor no lombo da força de trabalho que, por anos, produziu sozinha a riqueza de uma terra novinha. Novinho era o menino quando começou a trabalhar como garoto de recado e numa fábrica de tecidos. Nada diferente de crianças pobres de sua época.

Imperfeitamente dentro dos padrões, João Cândido era analfabeto aos 13 anos, quando fora recomendado pra Escola de Aprendizes-Marinheiros do Rio Grande. Uma exceção. Criminosos e marginais, produtos de uma sociedade oligárquica incapaz de oferecer melhores oportunidades ao povão, eram incorporados à armada para cumprir serviços obrigatórios por 10, 15 anos até.

A escravidão acabou. A monarquia caiu. No entanto, o império de uma sociedade desigual e escravocrata se mantinha inabalado diante dos olhos do menino que logo deixou de ser aprendiz para se tornar um marinheiro de primeira classe. Primeira da última, que fique bem claro. Ou melhor, escuro. A Marinha do Brasil era escura. A casa grande e a senzala se estenderam para a instituição. Oitenta por cento dos marujos eram negros ou mulatos. Enquanto uma minoria branca, filhos dos velhos e já conhecidos senhores de escravos, ocupava o oficialato.

João Cândido logo se tornou uma liderança entre a marujada. Foi acompanhar a finalização da construção do encouraçado Minas Gerais na Inglaterra. Lá, viu como as contestações de sociedades insatisfeitas aconteciam nas metrópoles. Teve acesso a movimentos operários e a partidos marxistas europeus. Aprendeu como marinheiros do mundo conquistaram melhores condições de trabalho e vida, que era o que almejava.

De volta ao Brasil, João Cândido não mais podia se conformar com a situação na Marinha brasileira. A mais moderna do mundo naquele início de século XX, em que havia uma afirmação crescente do homem como indivíduo. Tornava-se cada vez mais difícil ver pessoas como um mero pedaço de carne, numa ordem hierárquica em que a carne preta valia nada. Nem por quilo. Os castigos corporais eram severos. Se os filhos de fazendeiros recebiam como herança altos postos nas forças armadas do país, os portadores de pele preta, como João Cândido, herdavam o tronco, as chibatadas, a comida estragada e os soldos miseráveis. Como se cumprissem os destinos de seus pais e avós.

Chilep! Chilep! Fez a chibata. O marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido com 250 chibatadas. Estopim aceso. Em 22 de novembro de 1910, o primeiro timoneiro da Marinha de Guerra brasileira decidiu abolir a escravatura no Rio de Janeiro, 22 anos após a canetada da princesa Isabel.

Liderados por João Cândido, os marinheiros amotinaram-se. Cerca se dois mil homens acostumados a humilhações tomaram o controle dos encouraçados Minas Gerais e São Paulo, além dos cruzados Deodoro e Bahia. A bela capital, da tão sonhada República, estava na mira dos canhões dominados por pessoas consideradas a escória da sociedade.

Vivas! Ao fim de quatro dias, o governo de Hermes da Fonseca e o parlamento optaram por atender as reivindicações dos escravos, ou melhor, marinheiros. Prometeu calar o canto das chibatas e anistiar João Cândido e os revoltosos.

Mortes! João Cândido e os demais amotinados foram traídos. A maioria dos revoltosos foi morta. Alguns líderes do movimento foram presos. Pouco tempo depois, outro levante de marinheiros. Desta vez, no quartel da Ilha das Cobras. Embora João Cândido tenha se recusado a participar, achava que não era o melhor momento, foi acusado de auxiliar na revolta e como conseqüência fora expulso da Marinha. Ele e 17 outros militares foram jogados na masmorra da Ilha das Cobras.

Os encarcerados foram tratados com mais um ato de requintada crueldade (especialidade dos senhores da época). Lavaram a pequena cela com baldes de água com cal. O forte calor de dezembro fez a água evaporar rapidamente e o cal penetrou o pulmão dos marinheiros. Os gritos de dor eram ensurdecedores, mas a porta só foi aberta dias depois, quando já haviam corpos em decomposição.

Apenas João Cândido e outro marinheiro sobreviveram ao cal. Depois de expulso da Marinha, o líder da Revolta da Chibata foi internado na Casa dos Alienados. Mas alienado era a última coisa que aquele filho de ex-escravos era. Marcado para sempre como subversivo e com uma tuberculose, teve que lidar com dificuldades na vida até o fim. Nunca mais conseguiu emprego fixo. De marinheiro passou a estivador e carregador de peixe na Praça XV, no Rio de Janeiro. Em 1928, teve que superar o suicídio da segunda esposa.

Para sempre na mira cega das autoridades, foi preso por subversão em 1930. Mas como a chama revolucionária não se apaga facilmente, em 1933 aderiu à Ação Integralista Brasileira, fundada pelo escritor Plínio Salgado. No entanto, não ficou muito tempo, queixava-se de uma liderança mais forte.

O nome de João Cândido tornou-se uma afronta às forças armadas brasileiras, mesmo tendo lutado pelos direitos humanos quando nem era moda. Por isso, uma homenagem que receberia em 1959, no Rio Grande do Sul fora suspensa por intermédio da Marinha.

O Brasil, ao longo de sua história, teve um talento “natural” para sepultar a cor e, principalmente, a memória de pessoas que lutaram por justiça. Com João Cândido Felisberto não foi diferente. As tentativas de resgate de sua história sempre foram combatidas. A música “Mestre-sala dos mares”, de Aldir Blanc e João Bosco, teve a letra alterada várias vezes por ordem da censura. O título original era “Almirante Negro”. Porém, almirante é a figura mais importante da Marinha e isso foi considerado uma ofensa às forças armadas brasileiras. Imaginem só: um negro, almirante.

Mais aviltante ainda, numa sociedade que guarda resquícios da escravatura, é ter um herói negro. Mas em 2005, o deputado Elimar Máximo Damasceno (PRONA/SP) apresentou o projeto de lei número 5874, que determinou a inscrição do nome João Cândido no Livro dos Heróis da Pátria, que fica no Panteão da Liberdade e da Democracia, na Praça dos Três Poderes.

Em 2007, foi inaugurada uma estátua do Almirante Negro nos jardins do alvo dos marinheiros em 22 de novembro de 1910, o Palácio do Catete, atual Museu da República. No dia 24 de julho de 2008, foi publicada no Diário Oficial da União anistia a João Cândido e aos marinheiros que lutaram por justiça na Revolta da Chibata. Todavia, a reintegração à Marinha foi vetada, pois acarretaria num forte impacto aos cofres públicos, além de não render votos. Por isso, veio o veto.

João Cândido teve quatro casamentos e doze filhos. Morreu em dezembro de 1969, aos 89 anos. Infelizmente, o Almirante Negro no auge do governo militar. Quando os generais desciam a “chibata” no lombo de quem ousava contestar o regime. Mas provavelmente sua consciência estava tranqüila como a de quem sabe que lutou pela dignidade do ser humano, lutou pela reabolição da escravatura. Ou simplesmente, uma real abolição da injustiça.