Negro. Cabelos e olhos escuros. João Cândido Felisberto nasceu em 1880, oito anos antes da abolição da escravatura, nove anos antes da proclamação da república. Nasceu no município de Encruzilhada do Sul, no Estado do Rio Grande Sul, vizinho a Rio Pardo, que João Cândido, mais tarde, acabou adotando como sua cidade de origem, como relatou em entrevista no Museu da Imagem e do Som - MIS, em 1968.
João Cândido nasceu nas serras gaúchas hoje
pertencentes ao município Dom Feliciano.
Rio Pardo foi fundada pelos jesuítas, foi praça militar, com um forte erguido em meio à arquitetura do século XIX, e entreposto comercial. Ponto estratégico para o Brasil na Guerra do Paraguai. Região de grandes propriedades dedicadas à pecuária e ao plantio de grãos.
João Cândido cresceu nesse ambiente rural. Era filho de um casal de escravos, Inácia e João Cândido Velho, que trabalhava na fazenda Coxilha Bonita, da família Simões Pereira, uma das mais tradicionais da região. Foi criado como um potro bravio, correndo pelos vastos campos da propriedade, como relatou em uma entrevista ao jornalista Edmar Morel, autor do livro A Revolta da Chibata.
Quando pequeno, João Cândido gostava de ouvir a história do negrinho do pastoreio. Uma lenda de origem africana que encontrou vozes na região Sul e de lá se espalhou pelo país. A história conta as desventuras de um menino escravo que servia numa fazenda do Sul. Sua tarefa era cuidar dos animais. Um dia os cavalos fugiram e o negrinho-personagem foi punido. Como castigo, foi amarrado num formigueiro. Os crentes na lenda dizem que ele virou um anjo e ajuda as pessoas a encontrarem objetos perdidos.
João Cândido cresceu, as histórias de criança ganharam outros contornos, os sonhos de adolescente emprenharam a cabeça do filho de escravos. Em 1893, aos 13 anos, o menino já havia lutado na Revolta Federalista, sob o comando de Pinheiro Machado. Sua história com a Marinha de Guerra brasileira começou logo mais, em janeiro de 1895, quando ingressou na Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Aos 15 anos, em dezembro de 1985, segue para o Rio de Janeiro, a fim de servir no Quartel Central da ilha de Villegagnon, na 16ª Companhia da Marinha.
Levava no bolso uma carta de recomendação, escrita pelo delegado da Capitania do Porto, em Porto Alegre. A carta foi um pedido do almirante Alexandrino de Alencar, ex-ministro da Marinha e que, na época, era capitão de fragata. Alencar, que era de Rio Pardo, conhecia a família de João Cândido e tornou-se seu protetor quando o menino quis iniciar sua carreira na Marinha.
A ilha de Villegagnon, na Baía da Guanabara, havia sido palco de confronto entre portugueses e franceses nos idos de 1560. Foi doada à Marinha após a independência do Brasil, em 1822, quando D. Pedro I sentiu a necessidade de organizar a Marinha de Guerra brasileira. Em 1843, virou sede do Corpo de Marinheiros.