O TEMPO DA AMARGURA (1961-1976)

A renúncia de Jânio


Empossado em janeiro de 1961, Jânio Quadros Discurso de Juscelino Kubitschek na transmissão da faixa presidencial a Jânio Quadros. Brasília, 31/1/1961 (arquivo MP3, 1,07Mb) não tardou a desagradar às forças conservadoras que, num coquetel de legendas partidárias, o haviam levado à presidência.

A União Democrática Nacional (UDN), em especial, irritou-se com a política externa do novo governo, pois Jânio, numa afirmação de independência diante dos Estados Unidos, passou a flertar com os regimes comunistas de Cuba e da União Soviética. Os partidos da situação sentiam-se desprestigiados por seu líder. O presidente, por seu turno, queixava-se do Legislativo, relutante em aprovar suas iniciativas.

Ao mesmo tempo, miudezas como a proibição do biquíni, do lança-perfume, da briga de galos e das corridas de cavalos em dias de semana não favoreciam a popularidade de Jânio – um chefe de Estado que se comunicava com seus ministros por meio de bilhetinhos, não raro desaforados, e que a certa altura pretendeu impor ao funcionalismo público seu bizarro traje de trabalho, espécie de farda de mangas curtas chamado slack.

Para Jânio, foi fatal ganhar a inimizade do antigo aliado Carlos Lacerda. A 24 de agosto de 1961, o governador do estado da Guanabara denunciou pela televisão as intenções golpistas do presidente, que estaria desejoso de livrar-se dos partidos e do Legislativo.

Jânio provocou animosidade também entre os militares ao condecorar o marxista Ernesto "Che" Guevara, ministro da Revolução Cubana.

No dia seguinte às acusações de Lacerda, Jânio encaminhou ao Congresso uma carta-renúncia. Esperava, provavelmente, que ela fosse recusada e que uma reação popular o devolvesse à presidência, com poderes aumentados.

"Não farei nada para voltar, mas considero minha volta inevitável", confiou a auxiliares na base aérea de Cumbica, em São Paulo, onde foi aguardar os desdobramentos de seu gesto. "Dentro de três meses, se tanto, estará nas ruas, espontaneamente, o clamor pela reimplantação do nosso governo."

O Congresso Nacional, porém, graças à esperteza do deputado oposicionista e ex-ministro de JK José Maria Alkmin, aceitou prontamente a renúncia – para desespero de Jânio, que, em Cumbica, caiu em prantos. Não houve, na hora ou mais tarde, clamor nenhum.