UM FURACÃO NA PRESIDÊNCIA (1955-1961)

O esplendor dos anos JK


Aqueles foram tempos luminosos para a cultura e o esporte no Brasil

Grande momento cultural

Vistos à distância, os anos JK aparecem como um dos períodos mais ricos da produção cultural brasileira, num quadro de fundas mudanças de comportamento. Cena do filme "Rio 40 graus", de Nelson Pereira dos Santos

Foram os anos da consolidação do Cinema Novo, surgido pouco antes e que consagraria diretores como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade.

Cena da peça "Chapetuba F.C.", encenada pelo grupo Arena e dirigida por Augusto Boal No teatro, aquele foi o tempo em que deslancharam os grupos Arena e Oficina, ao impulso de criadores como Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e José Celso Martinez Corrêa.

Guimarães Rosa No terreno da literatura, o qüinqüênio de Juscelino Kubitschek viu chegarem às livrarias obras imediatamente clássicas como Grande sertão: veredas e Corpo de baile, de Guimarães Rosa, Laços de família, de Clarice Lispector, O encontro marcado, de Fernando Sabino, Duas águas, de João Cabral de Melo Neto e Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso.

Suplemento dominical do Jornal do Brasil, março de 1959 O panorama literário enriqueceu-se, ainda, com o surgimento do concretismo e do neoconcretismo, movimentos animados, entre outros, pelos poetas Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, José Lino Grünewald e Reinaldo Jardim, e divulgados nas páginas do influente Suplemento Dominical do Jornal do Brasil.

Os estudos brasileiros foram alimentados com o lançamento de ensaios seminais como Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, Visão do paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda – também organizador da História geral da civilização brasileira –, Formação econômica do Brasil, de Celso Furtado, Os donos do poder, de Raymundo Faoro, e Ordem e progresso, de Gilberto Freyre.

O panorama das artes

O momento esplêndido que a arquitetura atravessava, sobretudo com a construção de Brasília, tinha uma contrapartida não menos fecunda no campo do design, em especial com os móveis concebidos por Sergio Rodrigues, o criador da internacionalmente conhecida e premiada Poltrona Mole.

Grupo neoconcreto: a partir da esquerda, Ferreira Gullar, Lígia Pape, Theon Spanudis, Lygia Clark e Reinaldo Jardim. Rio de Janeiro, 1959 No campo das artes plásticas, um passo importante foi a eclosão do movimento neoconcreto, tentativa de encontrar uma expressão nacional para o projeto construtivista internacional, a partir de um manifesto assinado, em março de 1959, por Amilcar de Castro, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lígia Pape e Reinaldo Jardim. O período foi marcado, ainda, por um adensamento da produção artística brasileira. É desse tempo, talvez, a melhor fase da pintura de Guignard. Artistas como Iberê Camargo, Sérgio Camargo, Alfredo Volpi e Mira Schendel entraram na posse de sua maturidade.

Capa de Carlos Scliar para a revista Senhor, setembro de 1959 Os ventos modernizantes daqueles anos alcançaram também a imprensa, sobretudo com a reformulação gráfica do Jornal do Brasil, que influenciaria várias outras publicações, e o lançamento da revista Senhor, excepcional tanto pelo conteúdo como pelo design gráfico.

A revolução da bossa nova

Capa do LP Chega de Saudade, de João Gilberto, lançado em 1958 Um grande poeta, Vinicius de Moraes, desgarrou-se da poesia escrita para encorpar, como letrista, a revolução musical que foi a bossa nova, surgida em 1958 – ano de lançamento do histórico Canção do amor demais, de Elizeth Cardoso, que em duas faixas, "Chega de saudade" e "Outra vez", registrou a inovadora batida do violão de um desconhecido João Gilberto.

Tom Jobim A música brasileira perdeu Villa-Lobos. Mas ganhou Tom Jobim. Longe de esgotar-se em si mesmo, o esplendor criativo dos anos JK formou uma garotada cujos talentos iriam florescer mais adiante, em meados da década de 1960. Para lembrar apenas a música, cresceu ali a geração ainda hoje inigualável de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo e tantos outros.

Brilho brasileiro no esporte

Também no esporte foi inesquecível o qüinqüênio 1956-1961, pontilhado por títulos inéditos e grandes feitos de atletas brasileiros.

Ademar Ferreira da Silva Em 1956, nos jogos de Melbourne, na Austrália, Ademar Ferreira da Silva sagrou-se bicampeão olímpico, reprisando o feito de 1952, em Helsinque, na Finlândia, e batendo novamente o recorde mundial de salto triplo.

Em 1958, a seleção brasileira de futebol conquistou na Suécia a sua primeira Copa do Mundo, a taça Jules Rimet (mais tarde furtada e derretida por ladrões de ouro, no Rio de Janeiro), numa sucessão de vitórias em que brilhou um garoto de dezessete anos, Pelé.

No mesmo ano, a tenista Maria Esther Bueno ganhou seu primeiro título no torneio de Wimbledon, na Inglaterra, em dupla com a americana Althea Gibson. Ela seria bicampeã em 1960, quando se tornou também a primeira mulher a vencer os torneios de duplas do Grand Slam (Australian Open, Wimbledon, Roland Garros e US Open).

Em 1959, a seleção brasileira de basquete trouxe de Santiago, no Chile, seu primeiro título mundial.

Também no boxe o Brasil ganhou seu primeiro título mundial, quando, em 1960, o peso-galo Éder Jofre derrotou o mexicano Eloy Sánchez.