Tudo
estaria perfeito, não fossem as cada vez mais constantes desavenças
com Eugênia. Cenas violentas, ciúmes, brigas, precárias reconciliações.
Sopravam-me histórias de adultério. No entanto, sei que ela
me amou, como sei que, talvez, meu amor tenha sido insuficiente
para sua necessidade. Não a recrimino. Em determinado momento,
largou a carreira para me seguir. Agora me largava para seguir
a si própria. Abatido, desgostoso, procurei refúgio em algumas
distrações: caçadas, por exemplo. Maldito dia de novembro,
quando fui ao Brás. Sem querer, ao transpor uma vala, acionei
o gatilho e a bala se cravou no meu pé esquerdo. Resultado:
plantei ali a semente de chumbo da minha morte. Nunca me curei
de todo, e à ferida do pé se acrescentaram problemas infecciosos
e pulmonares. Sem Eugênia, prostrado ao leito em seis meses
de sofrimento, disse adeus a São Paulo e fui tratar-me no
Rio, em maio de 1869. Os médicos concluíram que a única alternativa
seria a amputação do terço inferior da perna, e eu concordei:
ficaria com menos matéria do que o resto da humanidade. Ainda
permaneci no Rio até o fim do ano, quando decidi retornar
à Bahia. Com o navio se afastando da Guanabara, visualizei,
repentinamente, duas tristezas: a da noite, que descia dos
céus, e a da solidão, que subia do oceano. Entre mar e céu,
vaga e vento, brotou-me um nome, Espumas Flutuantes,
para assim chamar o livro que reuniria meus poemas. Em Salvador,
aquecido pela calor dos trópicos e da família, cheguei a sonhar
que me curaria. Dediquei-me com afinco à preparação da obra;
em fevereiro de 1870 redigi o "Prólogo", em que aludi aos
tempos felizes no Sul, à transitoriedade da dor e da alegria.
Fiz questão de assinalar data e local de muitos poemas, como
se, com isso, estivesse dizendo que escrevi o que a vida me
ditou, e a cada dia o ditado foi diverso.
Encarreguei o amigo Augusto Guimarães de acompanhar
a publicação do livro em seus detalhes: tipografia, papel,
tiragem, e meti-me no interior da Bahia, de volta a Curralinho,
em busca de sossego mental e regeneração física. Revi Leonídia
Fraga, namoradinha de infância, que me inspirou "O hóspede".
Na Fazenda Santa Isabel dei por encerrada A cachoeira de
Paulo Afonso.
Retornei a Salvador em setembro. À
medida que me enfraquecia, o livro ganhava corpo: nasceu forte
e belo. Em novembro despachei para o Rio os primeiros exemplares
de Espumas Flutuantes. Nessa altura, a doença abandonava
a marcha lenta e já galopava, feroz, no meu corpo. Recolhi-me
em definitivo ao abrigo da família, e só abri uma exceção
no dia 1º de fevereiro de 1871, quando, combalido, arranquei
forças para declamar em público um poema em solidariedade
às crianças vítimas da Guerra Franco-Prussiana.
Na minha vida pessoal, fui ainda aquinhoado com um amor diverso
de todos os que até então vivera: apaixonei-me por Agnèse
Murri, viúva, jovem, linda, italiana. Professora de canto
e piano da mana Adelaide, foi a casta musa para quem compus
"Noite de maio", "Versos para música", "Remorsos", "Gesso e bronze", "Aquela mão", "Longe de ti", "Em que pensas?".
Nunca foi minha, mas, na memória inesgotável do desejo, será
minha para sempre.
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