Teatro Santa IsabelEm 11 de agosto, obtive meu primeiro grande sucesso público: recitei "O século" na sessão comemorativa da abertura dos cursos jurídicos; nove dias depois, foi a vez de "Aos estudantes voluntários", no Teatro Santa Isabel. Voluntários, é claro, da Guerra do Paraguai: até eu me alistei no Batalhão. "O século", que reservei para abrir meu livro Os escravos, é um grito de crença na juventude e no futuro, é uma aposta na força do novo. Apesar do sangue militar do avô materno, nunca fui um apologista da guerra. Cantei, sim, os feitos heróicos, as batalhas vitoriosas contra a opressão - só em louvor do Dois de Julho escrevi cinco poemas. Se acham que exagerei, saibam que num único livro de outro poeta, Félix da Cunha, há sete poemas dedicados ao Sete de Setembro! Naquele tempo a palavra da poesia, além de ser íntima, também devia ser cívica. Daí tantas confissões de amor à pátria num tom vibrante, que os críticos, décadas depois, me censuraram. Mas não era com sussurros que se incendiava o público: era com entusiasmo, dramaticidade, retórica. Eu tinha consciência de que fazia alguns poemas para voz alta, e não para leitura com um chá no aconchego das cadeiras de balanço. Mais tarde, num deles, lido na rua ("Pesadelo de Humaitá"), cheguei a anotar: Não se publica. Foram publicados... O poeta, quando muito, é o dono dos versos, mas não é nunca o dono do destino dos versos. Guerra do Paraguai

A Guerra do Paraguai foi o último grande conflito externo que atingiu o reinado de D. Pedro II. As lutas internas - a Cabanagem, a Sabinada, a Balaiada, a Farroupilha - já haviam sido sufocadas e, derrotado o Paraguai, desenhou-se para o país um longo período de letárgica e superficial tranqüilidade. Sim, porque agora o inimigo estava dentro de nós, em nossas famílias, sorvendo o sangue e o suor de uma raça em tempos de suposta paz. Como acreditar em paz, tendo ao lado os guerreiros negros vencidos pela escravidão? É certo que, desde 1850, já se proibira o tráfico de escravos. Pouco antes de minha morte, eu ainda comemoraria, em 1869, a proibição da venda de seres humanos em pregão público. Mas era pouco. Para mim, abolição e república eram palavras quase irmãs: uma puxava a outra, naturalmente. Alguns poetas falavam mal do Governo; para eles, uma troca de Gabinete resolveria a contento a questão. Eu não queria trocar um Gabinete: queria mudar de regime. Abaixo a monarquia! Chamaram-me de "o poeta dos escravos", e eu me orgulho do epíteto. Acho, porém, que ele não diz tudo: sempre quis ser "o poeta da liberdade". A escravidão era uma das mazelas, talvez a mais horrenda, que se devia combater em prol da liberdade. Mas, além da liberdade social, era preciso lutar pela econômica, pela política, pela (por que não?) afetiva... Muitos dizem que minha obra está composta de uma parte política e de uma parte lírica. Eu penso que vigora sempre o mesmo amor à humanidade, sob roupagens diversas: amor coletivo e amor pessoal, e não saberia dizer qual o mais importante.

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