Castro AlvesA grande mudança, que me arrancou em definitivo das indecisões e devaneios do fim da infância, se deu em 1862, quando fomos, eu e José Antônio, morar no Recife para seguir os cursos preparatórios à Faculdade de Direito. Fomos trocando de endereço até nos estabelecermos numa "república" de estudantes. No ano seguinte publiquei no número 1 de um jornal acadêmico, A Primavera, meu primeiro poema contra a escravidão: "A canção do africano". Devo dizer que, à época, estava repetindo o curso de Geometria, pois tinha levado bomba em 1862. Como a grande maioria da humanidade, sempre tive graves problemas na hora de me entender com a Matemática e seus derivados. O consolo é que, para fazer poesia, quase nunca é preciso contar além de 12 sílabas, e esse número basta para acolher o universo inteiro.

Recife

Um grande prazer, não só meu mas de todos os companheiros de geração, era o teatro. O divino Victor Hugo, fonte inesgotável de inspiração, já havia escrito muita coisa sobre o drama romântico. Exemplo desse drama era Dalila, de Octave Feuillet, que foi à cena no Teatro Santa Isabel com a atriz Eugênia Câmara. Difícil descrever o impacto que a presença dela exerceu sobre mim. Digo apenas que ela foi a mulher mais importante de minha vida, a musa celeste que me arrastou, como um turbilhão, ao mais profundo fundo dos cafundós do Castro Alves - 1865inferno. Mas isso é história para mais tarde: por enquanto, tenho apenas 16 anos, e corre o ano de 1864. Sou um rapaz bonito, talentoso, querido pelos colegas (apesar de me acharem orgulhoso em excesso) e marcado por duas novas perdas: a do ano letivo na Faculdade de Direito e a do meu irmão José, morto em fevereiro. Quanto à primeira, paciência! Estive na Bahia, faltei mesmo mais do que devia, e as faltas não foram abonadas. Mas meu irmão... Em outubro do ano anterior já dava sinais de desequilíbrio. O jeito foi mandá-lo ao Rio, a ver se melhorava. Acabou suicidando-se. Sofri, me lembrei da primeira tentativa; a segunda, desgraçadamente, dera certo. Loucura e morte se abraçaram, e comemoraram as bodas em cima do cadáver de José.

Victor Hugo Para compensar tanto infortúnio, 1865 correspondeu a um período de grande felicidade. Repetente, já sabia as matérias do primeiro ano de Direito; sobrava-me tempo para desenvolver o projeto do livro Os escravos. Morava no bairro de Santo Amaro, em companhia da dengosa Idalina, a quem homenageei no poema "Aves de arribação". Eu brincava dizendo que estava muito bem instalado entre mortos e doidos: a casa ficava entre um hospício e o cemitério.

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