Seis de julho de 1871, três e vinte da tarde. Daqui a dez minutos vou morrer. Peço à mana que me ajude a levantar da cama, quero ir à janela e ver ainda uma vez o sol. Com grande esforço apóio-me ao parapeito; a respiração ofegante, o suor, essa dor no peito. Imóvel, sinto que a luz do sol se escurece, ou talvez seja eu que esteja escurecendo dentro do dia que insiste em brilhar. Três e meia. Castro Alves não existe mais.

Bem. E depois? Cada um seguiu seu rumo. Leonídia, por exemplo, se casou cinco anos após minha morte. O solar da Boa Vista virou hospício, e um dia internou uma mulher velhinha e doida - Leonídia. Quando faleceu, encontraram em seus pertences cópias amarelecidas de versos meus. Agnèse voltou para a Itália, e hoje em dia deve estar regendo o coro dos querubins. Leonídia

Versos publicados, esquecidos, fracassados, traduzidos, improvisados, não escritos. Talvez a biografia de um poeta seja a soma de seus versos e a multiplicação de seus sonhos. Em meio a tantas tempestades, ouso dizer que fui feliz. Tive a bênção de ser o último poeta a casar povo e poesia, e já estava bem morto à época do divórcio. Por isso, se ainda quiserem saber de mim, não me ouçam mais - tratem de ouvir meus versos, porque, em minha vida, eu afirmei:

Último trono - é o poema!
Último asilo - a Canção!...



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